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Pesquisa da UERJ denuncia intensificação, uberização e youtuberização do trabalho docente na pandemia

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Amanda M.da Silva, professora da CAp-Uerj e diretora ASDUERJ, coordenou a pesquisa

 

 

 

Uma pesquisa realiza pelo Sindicato dos Professores do Estado do Rio de Janeiro (ASDUERJ)  confirma e denuncia a intensificação, uberização, youtuberização e vários outros tipos de precarização do trabalho docente. A iniciativa partiu de uma demanda dos(as) professores(as) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) pelo entendimento do processo de transformação ao qual o trabalho docente foi submetido, em 2020, em razão da pandemia do novo coronavírus, de suspensão das aulas presenciais e de implantação de ensino remoto.

 

O levantamento foi realizado no fim do ano passado e a coleta de dados feita com uma amostra bastante significativa: 553 docentes de todas as unidades e centros da universidade participaram. Esse número representa um corpo expressivo da Uerj e contemplou os/as professores/as dos diferentes campi. A Superintendência de Gestão de Pessoas (SGP) da universidade indica que esse universo abrange 2.862 docentes, distribuídos pelas seguintes categorias: 115 professores titulares; 725, associados; 1.413, adjuntos; 405, assistentes; 48, auxiliares; e, 156, substitutos.

 

A preocupação do sindicato era entender o perfil do(a) professor(a) que atuou com ensino remoto na universidade; observar questões relacionadas ao tempo de trabalho, demandas, exigências no cotidiano profissional dos professores; utilização de tecnologias digitais nas atividades remotas; a saúde docente; relações de trabalho e organização sindical.

 

“Para nós foi muito importante porque a gente obteve um panorama do aspecto laboral neste momento. Nosso sindicato se posicionou, desde o início, contrário ao ensino remoto da forma atabalhoada que a universidade aderiu no último ano, excluindo muitos estudantes e não dando condições de trabalho para os docentes atuarem no próprio ensino remoto, como, por exemplo, não oferecendo instrumentos para a execução do trabalho e apontando que esse é um processo que intensifica o trabalho”, explica Amanda Moreira da Silva, professora adjunta do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (CAp-Uerj) e segunda Secretária da Associação dos Docentes da Uerj (ASDUERJ) – uma das Seções Sindicais do Andes-Sindicato Nacional.

 

Em Brasília, o Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF) também monitora e reconhece haver problemas nessa transformação. Adiretoria colegiada do Sinpro-DF informa que a pesquisa da ASDUERJ aponta os aspectos negativos do ensino remoto adotado durante a pandemia, que acontecem em todo o País, como a ampliação da jornada de trabalho, a exclusão de milhares de estudantes e outros problemas que apontam para a precarização do trabalho, conforme detectados na pesquisa da Uerj.

“Não somos contrários ao ensino remoto e até acreditamos que, enquanto durar a pandemia, teremos de adotá-lo. Porém, tem de ser muito bem ajustado para não causar os prejuízos que já está causando aos estudantes de baixa renda e aos professores. A pesquisa da Uerj identifica os sintomas da precarização”, observa.

 

 

Levantamento constata ampliação da jornada

 

Amanda Moreira afirma que o levantamento identificou a intensificação que acontece na vida do(a) professor(a) por causa dessa imbricação que ocorre entre vida e trabalho, essa não separação de casa e trabalho e, ao mesmo tempo, um aumento considerável da jornada. “A gente já vinha identificando no nosso movimento docente, nas plenárias, nas assembleias, e a gente resolveu fazer a pesquisa para ter, de fato, esses dados”, afirma.

 

Doutora em educação, Amanda diz que, por ser pesquisadora, na Uerj, da precarização do trabalho docente no Brasil em todos os níveis incluindo aí a educação básica e ter esse tema como objeto de sua pesquisa na universidade, ela coordenou a comissão da pesquisa. “Identificamos intensificação do trabalho quando 44,7% dos docentes afirmaram que trabalharam entre 9h e 12h por dia e, 14%, declaram que trabalharam mais de 12 horas por dia”, diz.

 

 

Na demonstração dos resultados, ela afirma que, “considerando que a maior parte dos professores são 40 horas, ou seja, uma carga horária diária de 8 horas, a gente vê que grande parte dos docentes está trabalhando muito além da carga horária contratual”. Apenas 35% dos respondentes disseram que ficaram dentro da carga horária: dentro das 8 horas diárias.

 

Outro dado constatado foi o de que 71,6% dos participantes responderam que houve aumento da sua carga horária de trabalho em comparação com a períodos anteriores à pandemia do novo coronavírus. “É importante ter essa diferenciação, quando a gente faz essa pergunta, para entender essa diferença, visto que já havia uma intensificação do trabalho docente em períodos anteriores à Covid-19. Só que, com a pandemia, aumentou ainda mais e os próprios docentes reconhecem”, analisa a professora.

 

Além disso, 35% afirmou que trabalhou nos fins de semana sempre; 36% afirmou que trabalhou frequentemente nos fins de semana; 20% respondeu que trabalhou algumas vezes; apenas 6% dos respondentes afirmaram que, raramente, trabalharam nos fins de semana; e, apenas 2% afirmou que nunca trabalhou nos fins de semana. Nos feriados, foi a mesma coisa: apenas 3,3% dos docentes afirmaram que nunca trabalharam nos feriados. “A gente vê aí uma naturalização desse trabalho fora da jornada do tempo semanal. Então, trata-se de uma questão aí para a gente pensar”, observa.

 

 


Ensino remoto

Dentre as várias questões da pesquisa sobre ensino remoto, Amanda destaca que 80,7% dos professores concordaram que a atividade de ensino remoto durante a pandemia justifica o recebimento dos seus salários mensais.

 

“Ou seja, considerando que o trabalho do professor na universidade é constituído de ensino, pesquisa e extensão, a gente trabalha com diversos outros componentes, outras atividades além do ensino, é muito grave para nós ver 80% da categoria acredita que a atividade de ensino durante a pandemia e nessas condições justifica o seu salário mensal”, afirma.

 

 


Recursos tecnológicos

Nesse tema, 84% dos(as) professores(as) tiveram de fazer adaptações das condições, em casa, para desenvolver atividades remotas; 52%, fizeram novo contrato de Internet; 53%, compraram equipamentos e mobiliários; 59% , fizeram adaptação dos cômodos da casa para lidar com o ensino remoto; 37%, tiveram de ajustar rotina da casa; e, 72%, compartilham equipamento com outros membros da família. “Outra questão para pensar sobre os dados relevantes e impressionantes da pesquisa. Para mim, esse é uma das revelações bastante impressionante”, comenta a professora.

 

 


Plataforma pública e consciência privatista

 

A pesquisa detectou também que a maior parte dos docentes não considera a plataforma pública utilizada, que é a RNP, como satisfatória. A maioria utilizou outras plataformas.

 

A pesquisa indica que 77% utilizou outras ferramentas, como o Google Meet e o Zoom. “Esse é um dado bastante significativo para ser analisado por causa dessa ‘naturalização’ do privatismo, ou seja, da utilização das plataformas privadas na educação pública”.

 

 

“Precariado professoral”: o contrato temporário

 

Além de atuar na pesquisa da precarização do trabalho na educação básica, Amanda lecionou na educação básica antes de se tornar professora universitária. Ela ainda atua no segmento da educação básica da universidade. Segundo ela, há uma relação entre a realidade constatada na pesquisa com a situação dos(as) professores(as) de todos os níveis de ensino do Brasil.

 

“Essa precarização é de longa data. A pandemia apenas aprofundou um processo de precarização que a gente já observa nas redes públicas em todo o Brasil, nas universidades e nas redes públicas de educação básica, já há bastante tempo. Nos últimos anos, venho apontando algumas tendências e formas de precarização que durante a pandemia se intensificam muito”, denuncia a professora.

 

Em sua pesquisa, ela chama de “precariado professoral” o setor de professores temporários ou substitutos, que atuam com contratos temporários e instáveis nas redes públicas de ensino que, segundo ela, representa uma significativa parcela de professores. “O Brasil tem, hoje, 27% de professores temporários na rede pública de ensino nacional”, afirma.

 

Amanda explica que os professores temporários e os chamados “eventuais” – que só trabalham mediante a falta de professor efetivo, concursado, nas redes públicas, que são professores que ficam à margem, esperando o professor efetivo faltar para que ele consiga entrar em sala para dar aula de qualquer disciplina – são uma parcela significativa de docentes em todas as redes, com maior expressão dos professores eventuais, na rede pública de São Paulo, e os temporários que permeiam todas as redes.

 

“Atualmente, o Brasil tem 10 redes estaduais com mais de 50% de professores temporários em seu quadro. É um cenário bastante complicado de precarização que o setor da educação pública vem vivenciando, além dos instáveis que são os professores concursados, uma vez que não é porque é concursado que eles não são precários: são professores com remuneração muito baixa em 99% dos estados”, diz. Ela informa que um quarto (1/4) das redes públicas não para o piso salarial dos docentes, que é uma lei de 2008, a qual não é cumprida ainda.

 

“Esse é um cenário que faz com que os professores tenham de ter vários vínculos, trabalhar em várias instituições. Às vezes, no ensino público e no privado. Manhã, tarde e noite. Ou seja, o processo de precarização atinge tanto o setor público como o privado; tanto os temporários e eventuais como os concursados. Ele atravessa os docentes como um todo e também os professores de universidades, que, embora tenham uma diferença quando comparados com a educação básica, em relação à precarização, têm um outro tipo de precarização, mas também é uma precarização em níveis objetivo e subjetivo”, afirma.

 

Durante a pandemia, essa realidade de precarização se aprofunda. Por exemplo, boa parte dos professores do contrato temporário em todo o País foi demitida. Várias redes demitiram, não renovaram os contratos. São professores que estão sem remuneração desde o início da pandemia. Há 1 ano.

 

Os professores eventuais não entraram para sala de aula para trabalhar. Também não receberam pagamento, nem sequer receberam o auxílio emergencial porque, por terem um certo vínculo com o serviço público, não puderam nem sequer pleitear o auxílio emergencial. São professores que estão em situação muito difícil de luta pela sobrevivência.

 

“Professorado estável-formal”: a precarização dos efetivos

 

A pesquisadora chama de “professorado estável-formal” os professores concursados, denominados de “efetivos”, no serviço público. Ela afirma que os professores desse segmento também têm sofrido um aprofundamento radical da precarização porque, além de terem as suas horas de trabalho aumentada, perderam auxílios-alimentação, auxílio-transporte, auxílio de difícil acesso, horas extras, tudo isso que, de certa maneira, aumenta um pouco o salário dos efetivos, acabou sendo retirado pelas redes públicas, além do processo empurrado para o ensino remoto.

 

“Com isso, a gente vê que aconteceu, em 2020, um processo de uberização do trabalho, que é o professor custear todos os seus instrumentos de trabalho e ser monitorado o tempo todo daquilo que ele/a está fazendo. Esse é um processo que o campo da sociologia do trabalho vem chamando de uberização. E também um controle maior do trabalho do professor e uma utilização de plataformas privada. Observamos que houve uma mudança muito significativa no trabalho dos professores em 2020 e, agora, em 2021”, afirma.

 

 


“Darwinismo professoral”: a precarização nefasta na rede privada de ensino

 

 

Amanda explica que a situação dos professores da rede privada – da creche ao ensino superior – não é diferente. “Eu diria que os professores de todos os níveis de ensino da rede privada têm uma situação muito pior porque todo esse processo que os docentes do setor público têm passado tanto na educação básica como no ensino superior, os professores do ensino privado também passaram e passam de uma forma bem mais intensificada.

 

 

 

Ela diz que isso acontece porque porque os professores da rede privada não têm segurança no trabalho. Além de uma intensificação muito mais profunda, ele/as sofrem com as chantagens e assédio moral dos patrões bem mais forte.

 

 

 

“Podemos dizer que esse processo de uberização e de youtuberização, que é essa transformação do ensino presencial para o remoto, que venho chamando, esse processo para os professores da rede privada foi muito nefasto porque eles vivenciaram um darwinismo professoral, uma seleção ‘natural’. Então, os que podem e os que conseguem se mantêm no posto de trabalho; os que não conseguem, são eliminados, descartados”, denuncia a professora.

 

 

 

Na avaliação dela, os professores do setor privado foram muito mais prejudicados. Ele afirma que eles/as, inclusive, foram muito intensificados por causa de também de leis, reforma trabalhista – que trouxe um forte impacto negativo para a carreira desses professores, com a figura do trabalho intermitente, o negociado sobre o legislado –, e tudo o mais, a própria MP 936, de 1º de abril de 2020, que estabeleceu uma insegurança jurídica, quando prevê a redução de jornada e de salário.

 

 

 

“A pesquisadora afirma que “os(as) professores(as) do setor privado, de fato, foram muito mais prejudicados. O ensino remoto passou a ser uma imposição. Na volta para o retorno presencial, esses/as professores/as foram os/as mais ameaçados porque ou voltavam ou perdiam o posto de trabalho. Esses/as professores/as já estão trabalhando há muito tempo de forma presencial, ao contrário do setor público que tem ainda uma certa resistência maior, com alguns estados fazendo greve sanitária, pela vida, tentando barrar o retorno no auge da pandemia, a gente vê que essa luta é mais difícil”.

 

 

 

Ela informa que a pesquisa da ASDUFRJ mostrou que os/as professores/as da educação pública e privada sofreram com uma adaptação forçada ao processo do ensino remoto. “A nossa pesquisa colocou ali muito claramente nos dados e esses dados estão disponíveis no nosso relatório que foi divulgado”.

 

 

 

A comissão que sistematizou os dados descritivos, formada por ela e mais três professores da UERJ, continua se reunindo e vai ainda analisar os dados de forma pormenorizada, cruzada, com recortes por gênero, para identificar como esse processo afetou os/as professores de forma diferenciada.

 

 

 

“A gente ainda vai analisar a pesquisa e vamos, ainda, escrever alguns artigos com base nesses dados para serem divulgados talvez no primeiro semestre de 2021. Achamos muito importante esse tipo de iniciativa. Inclusive é uma orientação do nosso Sindicato Nacional, o Andes-SN, que orienta as Seções Sindicais nas universidades a fazerem esse tipo de pesquisa. Seria muito importante os sindicatos da educação básica também fazerem, bem como os sindicatos da rede privada. É importante termos esses dados para demonstramos a realidade do trabalho docente no Brasil e o quanto os professores estão sofrendo na execução do ensino remoto durante a pandemia”, finaliza.

 

 

 

 

 

 

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