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Expatriando talentos e condenando gerações

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A destruição de nosso polo nascente de semicondutores, a empresa CEITEC S.A, nos impõe um posicionamento firme e contundente em relação ao tema. E requer também que mostremos os alcances dos efeitos negativos desta impropriedade, seu equívoco estratégico e a intencionalidade que pode estar por trás disto.

 

Antes de entrarmos propriamente no conteúdo do que está em curso, creio ser necessário refrescar a memória de todos, com um breve histórico deste fundamental investimento no campo dos ativos intangíveis para a era que estamos vivendo.

 

Assim assentam-se melhor as bases para se entender a constituição desse patrimônio inovativo, compreendendo a importância do mundo da microeletrônica hoje e sua relevância futura, para que se possa especialmente enxergar a tragédia que é esta interdição.

 

Foi no final dos anos 1990 do século passado, que republicanamente os governos Olívio Dutra, no RS e, Fernando Henrique Cardoso (FHC), nacionalmente, foram fundamentais para induzir uma forte aliança, hoje nominada “quádrupla hélice”, – governos, centros de pesquisas, empresários e sociedade civil – que foi capaz de deslocar o projeto que estava “carimbado” para ocorrer em SP, concretizando-o em solo riograndense. Passaríamos então a termos uma fábrica de desenvolvimento, prototipagem e de fabricação de “chips” na América Latina, a primeira à época abaixo da Linha do Equador.

 

O Governo FHC, através dos Ministros Bresser-Pereira e Ronaldo Sardenberg, foi fundamental para consolidar o processo. A liderança do Governador Gaúcho e a coalizão de esforços da prefeitura de Porto Alegre, da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), da Federação de Entidades Empresarias do Rio Grande do sul (Federasul), das universidades e centros de pesquisas afiguraram-se também como decisivas.

 

Sobretudo porque o projeto não era de governo, mas sim de Estado, concebido a partir de uma injunção de atores gaúchos, articulados com o então Programa Nacional de Microeletrônica do Brasil, que vinha dos anos 70, e propunha ações e estímulos para os Circuitos Integrados como uma estratégia de Nação soberana. Associado com o que já estava em curso aqui, qual seja, o Programa Porto Alegre Tecnópole, aos moldes do que é hoje, guardadas as proporções, o Pacto pela Inovação.

 

Estas razões por si só já seriam suficientes para legitimá-lo, mas quando se reúne todos os atores locais em torno de um interesse nacional para o nosso desenvolvimento e soberania em um setor estratégico, temos um fato que agrega sentido e um valor maior para o futuro do nosso Rio Grande e país.

 

Ainda mais numa época em que os “chips” atravessam e interferem nas nossas vidas e em tudo o que fazemos, seja nas relações materiais, pessoais ou em sociedade, seja em nosso trabalho cotidiano, hoje amplificado pela tragédia humanitária da Covid-19. Ele é um insumo que alcança tudo e todos no mundo, pois e logo agora nosso país quer renunciar este caminho, convenhamos, é quase impossível de se compreender tal conduta.

 

As mudanças e transformações do mundo contemporâneo vêm sendo reinventadas pelas novas tecnologias e suas intercorrências, e como foi dito, tudo o que acontece em nosso entorno depende do conhecimento e da inovação. Como as tecnologias disruptivas, como a Internet das coisas, o “big data”, a inteligência artificial, dentre outras. Muitas das inovações de hoje não existiriam sem os “chips” permanentemente idealizados e projetados, para atender as diversas demandas da chamada indústria com base em ativos intensivos em tecnologia e inovação.

 

Logo, é um equívoco encerrar essa iniciativa da maneira que está sendo realizada, do Governo Federal liquidá-la, num cálculo meramente contábil imediato, desprovido de um horizonte planificado que entenda para onde o mundo caminha aceleradamente neste momento.

 

Pois se há problemas, por óbvio existem, deveria ter sido pensado um “plano de negócios”, com uma governança capaz de reorientar sua sustentabilidade, à luz dos novos tempos.

 

Mas o mais grave, é que tudo está ocorrendo logo quando ela é a única empresa nacional com capacidade de prover soluções completas. Seus resultados concretos e objetivos são de mais de 50 milhões de ‘chips’ vendidos, 15 milhões de micro módulos entregues e mais de 30 patentes, primeira colocada entre empresas públicas no ranking do INPI. Além de atrativa para outras iniciativas que poderão vir conformar e fortalecer o nosso ecossistema de inovação local aqui constituído, e em vias de amplificação.

 

Na era do conhecimento na qual os maiores ativos são intangíveis e intensivos em inteligência, renunciar a indústria 4.0 só pode se dever ou a uma visão equivocada das relações econômicas, ou a um olhar regressivo e obscurantista. Ou talvez ambas.

 

Que seguramente aprofundarão a condenação e a submissão, tecnológica e inovativa das futuras gerações, e ainda, expatriarão talentos formados e forjados aqui com apoio e recurso de cada um de nossos cidadãos e cidadãs.

 

O Governador, os Prefeitos, os Setores Produtivos, a Academia, a Aliança pela Inovação e a Sociedade Gaúcha não só não devem permitir tamanha regressão, mas têm a responsabilidade sim, de liderar e alinhar a construção de uma alternativa para revitalizar este estratégico projeto.

 

Sobretudo num tempo em que as empresas de base intensivas em tecnologias, têm papel decisivo para transformarem conhecimento em inovação, e esta, em valor para as organizações e para a sociedade. De modo a gerar empregos e postos de trabalhos de altíssimo nível e com excelentes remunerações, que o mercado tanto requer e necessita.

 

É isto que faz com que os especialistas defendam a CEITEC, pois estes sabem mais do que ninguém seu significado. E é por isto que estão na linha de frente contra a liquidação da nossa nascente fábrica de ”chips” e têm defendido quase “ad nauseam” esta iniciativa.

 

Abortar um projeto embrionário que atua exatamente no setor de semicondutores, que é o que mais gera inovação hoje no mundo, é sentenciar cada vez mais nosso país a um deserto de investimentos.

 

De estarmos fadados a sermos eternos importadores de tecnologias, exportadores de talentos e estarmos condenando às próximas gerações e país a uma ausência total de perspectiva de futuro.

 

E estranhamente isso acontece logo quando, por exemplo, os USA, a China e outros países, fazem exatamente o caminho contrário. Aplicando fortes recursos e investimentos em semicondutores, uma vez que sabem que uma política industrial sustentável e soberana hoje no mundo, passa necessariamente por estes setores intensivos em tecnologia e inovação.

 

(*) Adão Villaverde é engenheiro, professor de Gestão do Conhecimento e da Inovação, ex-secretário de Estado e ex-presidente da AL/RS

 

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