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Centenário: Clarice Lispector ganha exposição gratuita em SP

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O centenário da autora ocorreu em 2020, mas, em razão da pandemia, o Instituto Moreira Salles, deixou para comemorar este ano. Na exposição, obra de Clarice Lispector também ganha com diálogo entre literatura e artes visuais. 

 

Em dois andares do Instituto Moreira Salles, em São Paulo, uma exposição que foi inaugurada neste sábado, dia 23, toma forma em paredes dispostas como uma espécie de labirinto que tem como ponto de partida, ou chegada, uma grande constelação.

 

A decisão pelo uso das linhas que formam o agrupamento de estrelas não é casual, no entanto, e estão ali para conectar o nome de 26 artistas visuais ao de Clarice Lispector, conhecida pelas palavras.

 



Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.

 

Clarice Lispector  na sua obra “Perto do coração selvagem”. 9 ed. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira.1980. p. 50.


 

Em “Constelação Clarice”, que celebra o centenário da escritora, comemorado no ano passado, frases da ucraniana radicada no Brasil são conectadas a obras de artistas contemporâneas a ela. São pinturas, esculturas, desenhos e fotografias produzidas entre 1940 e 1970 por mulheres como Lygia ClarkMaria Martins e Fayga Ostrower, que criaram obras no mesmo tempo e país que Clarice e, por vezes, refletiram sobre assuntos semelhantes.

 

Retrato de Clarice Lispector feito por Claudia Andujar em 1961
Retrato de Clarice Lispector feito por Claudia Andujar em 1961 – Acervo de Claudia Andujar/Cortes

“Conforme construíamos a exposição, percebemos que Clarice irradiava uma espécie de teia de questões e de problemas que apontava para outras artistas. Essas linhas astronômicas guiaram tudo”, explica Eucanaã Ferraz, poeta e consultor de literatura do IMS que assina a curadoria da mostra ao lado da escritora e crítica Veronica Stigger.

 

O sistema interestelar aparece dividido em 11 núcleos guiados pela escrita de Clarice. A ideia, segundo o curador, era que a montagem extrapolasse a amostragem de documentos e a energia puramente biográfica comuns em mostras do gênero. “Em vez de ser uma aproximação de fora para a obra, queríamos que ela partisse de dentro, então estruturamos toda a exposição a partir das ideias mais fortes da Clarice. Você vivencia o tempo, mas não o vê como linha”, conta.

 

Exposição gratuita 'Constelação Clarice' relaciona trabalho de escritora a de artistas contemporâneas
Exposição gratuita ‘Constelação Clarice’ relaciona trabalho de escritora a de artistas contemporâneas

 

Assim, os curadores abraçaram questões centrais para a autora —como a origem, por exemplo, que está no núcleo chamado de “Tudo no mundo começou com um sim”, um excerto de “A Hora da Estrela”, de 1977. Nele, a mostra liga a obsessão de Clarice pelos inícios das coisas a obras da artista Celeida Tostes feitas com ovos e a esculturas que lembram uma arte primitiva.

 

No espaço “Eu não cabia”, que referencia “A Paixão Segundo G.H.”, de 1964, peças como “Mulher Olhando na Janela”, de Djanira, e “Eu Armário de Mim”, de Letícia Parente, são usadas para traduzir o recorrente estranhamento das personagens dos livros com o ambiente doméstico. Também aparecem temas como a estranheza com o próprio corpo, a exaltação da natureza, o misticismo e a preocupação social presentes nos textos.

 

Para Ferraz, a associação dos dois mundos sugere também novas interpretações para os trechos e obras expostas, que acabam se relacionando entre si, além de uma experiência do que era ser mulher no Brasil naquelas décadas. “Há que se enxergar ali algo sobre o que as mulheres pensavam, sentiam e criavam. Não há nenhuma intenção de universalizar alguma coisa, mas é algo que se vê, porque são mulheres que são artistas dessa geração”, diz.

 

Veronica Stigger lembra que, embora o diálogo entre obras seja inédita em uma exposição sobre a escritora, o próprio universo de Clarice entra com frequência no mundo das artes visuais —a montagem, inclusive, separa uma seção para 18 pinturas feitas entre 1975 e 1976 pela autora.

 

“Ela demonstra, em seus próprios livros, o interesse pelas artes. Em ‘O Lustre’, Virgínia fazia bonecas de barro. Em ‘A Paixão Segundo G.H.’, a protagonista é uma artista plástica. Até a epígrafe desse livro vem do Bernard Berenson, que é um historiador de arte”, enumera a curadora.

 

Clarice Lispector, 100
Clarice Lispecto, 100

 

Segundo Stigger, a incursão de Clarice pelas artes visuais é singular. “Gosto de pensar que é um diálogo com a obra escrita dela, e não é por acaso que em vários livros dela as personagens descrevem alguns quadros. São temas como cavernas e grutas, imagens para as quais ela volta recorrentemente”, explica.

 

Mas não é só do mundo das artes visuais e de fragmentos de livros que é feita a exposição. Distribuídos pelos andares, cerca de 300 itens pessoais que fazem parte dos acervos do IMS, da Fundação Casa de Rui Barbosa e do filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, foram selecionados para ajudar a contar a sua história.

 

São garranchos em inúmeras folhas, discos de música clássica em vinil, máquinas de escrever, retratos, as primeiras edições de seus livros e até um convite para um congresso nacional de bruxaria.

 

O fim da exposição, chamado de “Não posso acabar”, é dedicado ao que ficou para trás e aos questionamentos da autora em relação ao fim da vida e de seus próprios textos. Ali, além da xilogravura “Retorno”, de Wilma Martins, e de imagens de “Caminhando”, de Lygia Clark, também estão expostos manuscritos de “Um Sopro de Vida”, livro inacabado e publicado em 1978, um ano após a morte de Clarice—um contraste com as reflexões sobre os princípios das coisas. “Uma circularidade do tempo”, diz Stigger.

 

 

 

 


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