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Ai, Gegê! Ai, Gegê!

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Deposto pelos interesses estadunidenses, Getúlio Vargas, efetivamente o primeiro presidente que teve o Brasil (sempre tivemos, antes e depois, feitores ou embaixadores de interesses alienígenas) volta – sem que seja uma falsa ou literária construção, mas pela pura e efetiva verdade histórica – nos braços do povo, em 1950.

 

E é desta época a marcha carnavalesca, de João de Barros e José Maria Abreu, que diz:

 

“Ai, Gegê! Ai, Gegê! Que saudades que nós temos de você”.

 

As ironias da história deram-nos outro Gegê, o general Ernesto Geisel, também um efetivo Presidente do Brasil. Este par, Gegê, configura os momentos do Brasil soberano, os únicos de um Estado Nacional Brasileiro.

 

Se fomos, historicamente, colônia de Impérios, desde a sucessão de Geisel, da Nova República, da Constituição de 1988, o Brasil tem sido colônia de uma ideologia: a neoliberal.

 

Em outubro de 1942, a Livraria José Olympio Editora publicou a coletânea “As Diretrizes da Nova Política do Brasil”, de Getúlio Vargas. No Prólogo, o General Severino Sombra escreveu que “a obra político-administrativa do Presidente Getúlio Vargas já fixou – é inegável – um marco histórico da evolução nacional. O futuro historiador de nossa vida política, ao perlustrar-lhe as páginas para definir-lhe as fases características, assinalará uma nova época ante o marco plantado por esse homem singular”.

 

E, fugindo dos embates ideológicos importados, que viriam ofuscar e fazer retroceder as diretrizes de Vargas, com a compreensão do vigor e da imprescindível formulação própria, nacional, Severino Sombra, na conclusão do Prólogo, assim se expressa:

 

“Que melhor doutrinador que o próprio chefe do Estado Nacional? Que melhor pregação do que a das suas palavras, reunidas sob o sugestivo título de “A Nova Política do Brasil”? Ali está contida a ideologia do novo Estado Brasileiro”.

 

Setenta anos são passados; e quanto retrocesso – interrompido apenas pelo quinquênio de Geisel – assombrou o Brasil!

 

Clóvis Rossi, jornalista, cronista da Folha de S. Paulo, a respeito do último embate eleitoral, lamentou que nossa Pátria chegasse ao deserto de líderes. Acrescento, e das ideias. É o domínio do pensamento único, da globalização, da pasteurização da vida e das vontades. O triunfo neoliberal.

 

Karl Polanyi (1886-1064), em seu livro de 1944, “A Grande Transformação”, também lamenta a destruição da sociedade humana pela fraqueza de não reagir à sociedade de mercado. Hoje poderíamos tirar a indefinição de sua expressão (ver “A Liberdade numa Sociedade Complexa”, capítulo XXI da obra citada) e precisar: à sociedade do mercado, pois é a finança que dirige os governos, as sociedades, o mundo globalizado.

 

O antagonismo desta pandemia material e moral é expresso por uma liderança do financismo, o bilionário húngaro George Soros. A bem da verdade nem sei se é apropriado imputar-lhe uma nacionalidade, quando seu país é a moeda. Afirmou Soros ao criar a Open Society que seu inimigo era o nacionalismo. Simples. Quem ama a civilização, vê o futuro como a continuidade da existência humana. Tem na família, na tribo, na sua cultura, na nação, na expressão política de tudo isso, que é o Estado Nacional, o seu lugar: é nacionalista. O contrário é a psicopatia da irrefreável luta cotidiana pela moeda, pela acumulação de capital.

 

E, neste caso, o marxismo surge como a cismogênese do monetarismo, com a mesma perspectiva globalista, desenraizada da existência; não mais pela moeda, mas na opção por uma classe que declara guerra às demais.

 

Não esqueço a questão social trazida à condição das pessoas, à promoção da igualdade de direitos e à universalização da educação nos países que implantaram o comunismo. Também uma simbiose comunismo-nacionalismo que levou a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), não mais existente e sem sucessor, à ação colonizadora. As sujeições observadas em Angola e Moçambique contrastam e fortalecem a capacidade da autonomia cubana. Há a possibilidade de se implantar no nacionalismo um modelo socialista, sem características hegemônicas e coloniais.

 

A questão que discuto, e em prol de nosso Estado Nacional, é a submissão do econômico ao político. Observando a história, desde a mais remota antiguidade que a tecnologia nos permite, verificamos que os poderes sempre foram o político, o militar e o psicossocial. A ideia do homo economicus está na Idade Moderna, no capitalismo e na “crítica da economia política”.

 

“A mercadoria é, antes de mais nada, um objeto externo, uma coisa que, por suas propriedades, satisfaz necessidades humanas, seja qual for a natureza, a origem delas, provenham do estômago ou da fantasia” (Karl Marx, O Capital, Livro I, Capítulo I, A Mercadoria, tradução de Reginaldo Sant’Anna, Civilização Brasileira, RJ, 1980, 5ª edição).

 

Transcrevo da referida obra de Polanyi, na tradução de Miguel Serras Pereira, com revisão de Pedro Bernardo, nas Edições 70, Lisboa, 2012:

 

“O juízo de Frank H. Knight, “nenhuma motivação especificamente humana é de ordem econômica”, aplica-se não só à vida social em geral, mas à própria esfera econômica da existência. A inclinação para o negócio, em que Adam Smith baseava tão confiantemente a sua visão do homem primitivo, não é uma tendência comum do ser humano nas suas atividades econômicas, revelando-se, pelo contrário, extremamente infrequente”.

 

Concluindo estas breves reflexões e clamando pelo surgimento de uma liderança que siga a trilha de Vargas e Geisel, apresento uma interpretação bastante particular, que nos merece a consideração e estudo, pois Capistrano de Abreu (1853-1927) não foi apenas nosso primeiro grande historiador. Este cearense inovou na pesquisa e interpretação da história, que foi buscar nas fontes primárias, literárias, documentais, consistentes os elementos de suas reflexões. O texto que reproduzo tem diferente visão de outro brasileiro, o gênio Darcy Ribeiro (1922-1997). Mas se um privilegia a geografia, outro o faz com os recursos da antropologia.

 

De Capistrano (Ensaios e Estudos (Crítica e História) 1ª série, Civilização Brasileira, RJ, 1975, 2ª edição):

 

“O característico da constituição mental dos Tupis era a hipertrofia da sensibilidade. A inteligência ficava sopitada sob a exuberância da Natureza e a facilidade da existência; a vontade sem impulsos vegetava mesquinha; tudo o que tinham de vivaz concentrava-se na emoção. A cooperação nunca ultrapassou a tribo, e mesmo aí a união momentânea produzida pelas expedições afrouxava com o motivo que a provocara. O governo não existia; pelo menos sua existência não era distinta e independente, o que torna impossível a organização social, pela ausência de um centro regulador”.

 

Darcy Ribeiro (Estudos de Antropologia da Civilização – Os Brasileiros I Teoria do Brasil, Editora Vozes, Petrópolis, 1978, 3ª edição):

 

“A compreensão do processo de formação dos povos americanos em termos de etapas da evolução sociocultural não pode ser alcançada dentro deste quadro (das construções e teorias eurocêntricas) porque ele não corresponde aos fatos referentes ao mundo extra europeu e não pode explica-los. Estes, por sua vez, somados ao que hoje se conhece a respeito das diversas correntes civilizatórias extra europeias, podem prover uma base mais ampla e inclusiva para refazer o próprio esquema evolutivo europeu”.

 

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