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Xapuri reelege prefeito Bira Vasconcelos, uma nova liderança na região do alto Acre

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No dia 21 de novembro, a população de Xapuri, município do Acre, distante 187 km da capital Rio Branco e conhecido mundialmente pela resistência liderada por Chico Mendes contra a devastação da floresta, fez uma grande festa para comemorar a reeleição do prefeito (PT) Francisco Ubiracy Machado de Vasconcelos (56), Bira, como é popularmente chamado, para mais um mandato de 4 anos (2021-2024).

 

O menino simples que virou engenheiro agrônomo

 

Nossa conversa foi agendada pelo chefe de gabinete da prefeitura, João Ribeiro, para as 9h30 da manhã de sábado. Para minha surpresa, Bira chegou no horário combinado; Homem de aparência comum; tênis, calça jeans, camiseta vermelha. De modos simples e tranquilo abriu a sala e a janela onde funciona o gabinete do prefeito e com um sorriso acolhedor nos convidou a entrar.

 

A entrevista tinha sido estruturada com perguntas clássicas do tipo: como o senhor se sente sendo reeleito? quais os desafios do próximo mandato? e etc.  Mas, ao invés disso, começamos com amenidades sobre os conhecidos em comum, a reforma da praça que está em andamento, e a conversa fluiu de maneira tão natural que nem pareceu que era entrevista.

 

Menino simples de um bairro periférico de Rio Branco (Triângulo), filho de pai mecânico e mãe telefonista, aos 15 anos foi estudar no colégio militar em Manaus. Daquele período guarda a disciplina de acordar cedo e jogar bola com um time de “sêniores”, antes de ir ao trabalho.  Quando retornou para Rio Branco, aos 18 anos, foi aprovado em concurso público para o cargo de técnico agrícola na Empresa de Assistência Técnica Extrativista Rural do Acre – EMATER; seu batismo de fogo foi no Projeto de Assentamento Dirigido (PAD) Pedro Peixoto,  um dos primeiros criado pelo INCRA em 1984; lá teve a oportunidade de conhecer e trabalhar com outros extensionista de visão mais voltada para as questões sociais e com isso percebeu que seu trabalho poderia ser mais que técnico; ao ver in loco a situação dos assentados, “servindo de adubo” para o grandes fazendeiros, resolveu que precisava fazer algo mais que assistência técnica. Fez vestibular e entrou no curso de Agronomia na Universidade Federal do Acre.

 

Foi na universidade que sua atuação política começou a surgir com mais intensidade. O convívio com outros estudantes engajados na militância partidária e o momento de efervescência dos movimento estudantis o levaram para o Centro Acadêmico de Agronomia. Foi nesse período que estabeleceu e consolidou relações com pessoas que no futuro pautariam a política acreana, como é o caso do historiador e ex- governador, Binho Marques. Foi um período em que também esteve junto aos movimentos sociais colaborando com o Conselho Nacional dos Seringueiros –  CNS e o Grupo de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agroflorestais do Acre – PESACRE, entre outros. O menino simples da periferia tinha se transformado no engenheiro agrônomo comprometido com os movimentos sociais.

 

O estudante que se apaixonou pela princesinha do Acre

 

Terra de muitas histórias, lutas e revoluções, Xapuri também é chamada de “A princesinha do Acre” por sua riqueza e pujança no auge do período da produção de borracha. As ricas famílias de sírio-libaneses ou de nordestinos que acumularam fortuna abastecendo os seringais com especiarias e mercadorias vindas de Belém e de outras cidades onde estavam estabelecidas as “casas aviadoras”, tinham por tradição enviar seus filhos para estudarem no Rio de Janeiro, Belém e até mesmo na França. Entre os xapurienses ilustres estão o renomado cardiologista Adib Jatene, o jornalista esportivo Armando Nogueira, a cantora internacional Nazaré Pereira e o Dr. Éneas, político controverso que ficou nacionalmente conhecido pelo bordão: “meu nome é Éneas!”.  É uma cidade distante da rodovia principal que leva a fronteira com a Bolívia e o Peru, de uma gente de personalidade altiva e conservadora, onde o comércio fecha ao meio dia e a população “cochila” após o almoço.  Ao cair da tarde as cadeiras são colocadas nas calçadas e os moradores cumprimentam os transeuntes que dão notícias dos fatos ocorridos na cidade e ainda é possível deixar as crianças brincarem nas praças sem o risco de uma bala perdida.

 

Foi por estas coisas que o Bira, jovem estudante de agronomia, se apaixonou quando veio a Xapuri, trazendo um ônibus cheio de alunos da UFAC para conhecerem o seringueiro que tinha ganhado um prêmio em Nova York e que estava enfrentando os poderosos fazendeiros do lugar ao impedir que a floresta fosse derrubada para a formação de pastos. A causa de Chico Mendes acabou tornando-se também a sua causa e a de tantos outros engajados na luta pelo meio ambiente. Dessa paixão nasceram os trabalhos e as andanças na região; a mudança para Xapuri foi só uma questão de tempo.

 

As realizações do primeiro mandato

 

Eleito em 2008 pela primeira vez, seu trabalho foi focado na infraestrutura e na educação. Em pareceria com o Governo do estado, pavimentou ruas e organizou a limpeza urbana entre outros serviços essenciais.

 

Na educação, contou com o apoio do então governador Binho Marques e do Presidente Lula, para trazer para o município o Instituto Federal do Acre – IFAC e assim poder oferecer aos jovens de Xapuri a oportunidade de obterem formação técnica em Biotecnologia, integrado ao Ensino Médio; Técnico em Química, integrado ao Ensino Médio na modalidade PROEJA; Técnico em Agroecologia; Técnico em Biotecnologia e Técnico em Meio Ambiente. Áreas que atenderiam as demandas do mercado de trabalho local e sem que os estudantes precisassem se distanciar de seus familiares. Mesmo assim, não consegui a reeleição.

 

O retorno com mais experiência

 

Em 2017 foi novamente eleito e ampliou suas áreas de trabalho. Retomou os serviços de infraestrutura pavimentando mais 8km de ruas; melhorou os ramais que dão acesso a zona rural do município e que servem, principalmente, para escoar a produção dos pequenos produtores; adquiriu veículos para o transporte dos feirantes e de seus produtos para a comercialização direta aos consumidores e ampliou o mercado municipal. Na saúde, construiu e equipou 02 Unidade Básicas de Saúde; uma no projeto de Assentamento Seringal Cachoeira e outra no Seringal Tupá; centralizou a farmácia e a distribuição dos medicamentos gratuitos da rede municipal e contratou 10 médicos para atender a população nas 6 UBS existentes e no Hospital e adquiriu 03 veículos para o transporte de pacientes em Tratamento Fora de Domicílio (TFD).

 

Para a cultura e lazer, junto com os secretários das respectivas pastas, elaborou um calendário de eventos que possam atrair turistas e gerar renda para o comércio local. Entre eles: o dia 20 de janeiro, tradicional festa de São Sebastião, padroeiro da cidade e que atrai milhares de pessoas, o festival de praia, o carnaval fora de época, a semana do meio ambiente, a semana Chico Mendes e o natal das crianças nas praças. São eventos que movimentam a economia da cidade e do município de forma direta e indireta. “As experiências da gestão passada, os erros e acertos, faz com que tenhamos uma percepção maior das prioridades e demandas dos munícipes”, ressaltou Bira.

 

Os maiores desafios do gestor público

 

Uma pausa. Um suspiro profundo. O olhar distante para fora do gabinete e Bira retoma sua narrativa. Mesmo não tendo nascido no seringal, é filho de gente que sofreu com o processo do êxodo rural, e por isso se sente em casa, bem à vontade quando anda nos seringais e nas colocações; dentro da reserva extrativista ou nas fazendas de gado. O trabalho de técnico extensionista e posteriormente o de engenheiro agrônomo lhe proporcionou a oportunidade de conhecer as realidades da região e dialogar com segmentos sociais antagônicos, como é o caso dos extrativistas e pecuaristas; de uma população urbana e outra rural. O gestor precisa trabalhar para atender aos interesses da coletividade e um dos maiores desafios é dialogar com essa diversidade, enfatizou.

 

A população rural, em particular a que vive na floresta e da floresta está em momento de transição e não quer mais ser vista como “seringueira” e sim extrativista; e quer, com toda razão, usufruir das comodidades que tem a população urbana. Energia, comunicação, trafegabilidade, saúde, educação. Sem esses serviços públicos não há como exigir que permaneçam na floresta ou que a preservem.

 

Por outro lado, a população urbana quer saneamento, serviços essenciais (qualidade de vida (praças, ciclovias, segurança) e principalmente a juventude, quer trabalho.  Sobre esse questão a prefeitura tem estabelecido parcerias com as empresas locais buscando oferecer oportunidades. A fábrica de beneficiamento de madeiras e produção de tacos está gerando 103 empregos diretos, a Natex, fábrica de preservativos, 94 e a Cooperacre, 68. Não é muito, não é o suficiente, mas, estamos tentando fazer o que é possível, disse ele.

 

Com a pandemia a prefeitura acordou com as pequenas empresas de prestação de serviços a redução da alíquota do ISS de 5% para 2%, pelo prazo de 1 ano; para que não ficassem inadimplentes, continuasse com suas atividades e a prefeitura mantivesse a arrecadação, ainda que reduzida. Essa ação, de certa forma, é um incentivo fiscal.

 

Os fazendeiros, também votaram no Bira e esperam do prefeito e, também do agrônomo, soluções para os problemas inerentes à atividade econômica da pecuária.  Segundo os dados do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Acre –IDAF/AC, no município de Xapuri existem 240 mil cabeças de bois. É também onde estão as maiores fazendas do estado. De maneira que não há como ignorar este segmento em detrimento de outros.

 

Por fim, creio que os maiores desafios enquanto gestor é manter a floresta em pé, de maneira produtiva; de modo técnico e político, conciliar educação ambiental com uma pecuária moderna que inclui a reforma de pastagens e o uso de tecnologias; trazer para Xapuri as modernidades do mundo hig-tech sem que a cidade perca esse seu ar provinciano que encanta a todos que chegam por aqui, finalizou Bira.

 

Terminamos a conversa pois ele tinha que ir à festa em comemoração à sua reeleição. Enquanto ele fechava a prefeitura como seu jeito simples e tranquilo eu pensava: eis que surge uma nova liderança no Acre.

 

“Às vezes, quando vou a Brasília em busca de recursos para tocar algum projeto financiado por verbas federais e alguém fala: Mas você é prefeito do PT! Eu respondo. Sou prefeito de Xapuri!  E lá, há espaços para todos!”, faz questão de reafirmar Bira Vasconcelos.

 

 

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