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Viva a resistência nordestina!

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A região Nordeste ainda é repleta de desigualdades e de pobreza causadas, principalmente, pela concentração da riqueza nacional em sua maior parte na região Sudeste (São Paulo é o centro dessa produção e concentração do nosso capitalismo periférico) e, também, no Sul (Rio Grande do Sul).

 

Todavia, o Nordeste, formado por índios, maioria negra e brancos – o que só reafirma a nossa diversidade pluriétnica e cultural, de gente simples que deu historicamente e continua dando seu suor e sangue para construir essa nação, – não tem como usufruir de oportunidades e condições de acesso a essa riqueza. Contudo, é uma região político-estratégica importante do Brasil.

 

Em “A invenção do Nordeste e outras artes”, Durval Muniz de Albuquerque Júnior afirma que “Nossos territórios existenciais são imagéticos. Eles nos chegam e são subjetivados por meio da educação, dos contatos sociais, dos hábitos, ou seja, da cultura, que nos faz pensar o real como totalizações abstratas. Por isso, a história se assemelha ao teatro, onde os atores, agentes da história, só podem criar à condição de se identificarem com figuras do passado, de representarem papéis, de vestirem máscaras, elaboradas permanentemente”.

 

O fato é que o Nordeste é uma região de muitas lutas históricas de resistências: no Maranhão, a Balaiada (1838-1841). E, no momento, tem a luta dos quilombolas em defesa do seu território e contra a expansão da Base de Lançamento de Foguete em Alcântara no Maranhão.

 

Com foco também nos temas do Nordeste, certa vez, o economista Celso Furtado, que se voltou para entender as formas de manifestações dos atrasos políticos dessa região, fez uma comparação com o restante do país. Em “A Seca e Poder”, Celso Furtado (Entrevista, 1998) diz: “Não sei dizer o que é atrasado em São Paulo. A política representa muito menos para uma região rica do que para uma região como o Nordeste, que depende bastante do governo. A política de um estado como o Rio de Janeiro é muito autônoma, o estado é rico (…). São Paulo nem se fala. A ação do governo federal nessas regiões mais desenvolvidas é complementar, não é essencial. Portanto, a responsabilidade maior é com respeito às regiões mais pobres. Em regiões subdesenvolvidas, como Amazônia e Nordeste, a ação do governo é fundamental, porque esses problemas são estruturais. E, tratando-se de problemas estruturais, só a ação política resolve”.

 

Furtado defendia o papel do Estado (ideia de estado interventor e não mínimo) nas sociedades subdesenvolvidas e reafirmava que, para vencer as amarras do atraso, era necessário que todas as forças progressistas apoiassem uma mudança social dirigida pelo Estado. De alguma forma, Furtado pregou, em suas teses, certa resistência nordestina, incentivando a luta dos de baixo, neste caso, da região Nordeste, e a alternância de poder.

 

Logo, uma das características mais notáveis da economia mundial é a existência de um número significativo de Estados que parecem estar permanentemente estacionados numa posição intermediária entre “maturidade” e o “atraso” (Arrighi,1997); e como apontam os teóricos da modernização e da dependência, ou entre o “centro” e a “periferia” e nessa situação estão os estados do Nordeste. Com indicadores sociais ainda ruins de educação/analfabetismo, faltando trabalho/renda e uma forte assimetria étnico-racial, tais fatores ainda interferem em determinadas perspectivas democráticas.

 

Parece existirem vários Brasis dentro do Brasil, ou pelo menos dois Brasis, que se dividem nas regiões Sudeste e Sul, em contraposição ao Nordeste e Norte, ficando o Centro-Oeste literalmente no meio, geograficamente, mas com diferenças socioeconômicas abissais. Destaco que as desigualdades e pobreza, como disse João Manuel Cardoso de Mello (O Capitalismo Tardio, 1991), são faces da mesma moeda, ao se estudarem regiões periféricas. E isso fica claro quando se faz o recorte na região Nordeste e sua relação com a pobreza: os índices baixos de educação, portanto, alta taxa de analfabetismo; baixa taxa de emprego formal e renda e a questão da assimetria ético-racial. Traduzido em números, 53% dos considerados pobres do Brasil encontram-se concentrados na região Nordeste, perfazendo aproximadamente um total de 23 milhões, de acordo com dados do IPEA e PNAD (2017).

 

Apresento aqui o resultado da última eleição presidencial no Brasil (Fonte: TSE,2018) em que Jair Bolsonaro (PSL) sagrou-se vencedor, obtendo 57.797.847 milhões de votos (55,13%) e venceu Fernando Haddad (PT) que obteve 47.040.906 milhões de votos (44,87%) no segundo turno. Total de votantes: 115.933.451 milhões. Total de votos válidos:  104.838.753 (90,43%). Total de votos brancos: 2.486.593 (2,14%). Total de nulos: 8.608.105 (7,43%) e total de abstenções:  31.371.704 (21,30%). É fato: a maioria do povo brasileiro não votou em Bolsonaro.

 

Veja abaixo (Quadros 1 e 2), dos 16 estados em que Bolsonaro venceu a eleição, nenhum é da região Nordeste. Haddad venceu nos 9 estados nordestinos: PI, MA, BA, CE, SE, PE, RN, AL, PB, portanto, é no Nordeste ainda tão desigual e pobre que o “mito” foi rejeitado e que a resistência tem seu maior protagonismo.

 

QUADRO 1 – RESULTADO DA ELEIÇÃO DE 2018 – 2.º TURNO NOS ESTADOS

DA REGIÃO NORDESTE

ID ESTADOS HADDAD BOLSONARO
1 Piauí 1.417.113 (77,05%) 422.095 (22,95%)
2 Maranhão 2.428.913 (73,26%) 886.565 (26,74%)
3 Bahia 5.484.901 (72,69%) 2.060.382 (27,31%)
4 Ceará 3.407.526 (71,11%) 1.384.591 (28,89%)
5 Sergipe 759.061 (67,54%) 364.860 (32,46%)
6 Pernambuco 3.297.944 (66,5%) 1.661.163 (33,5%)
7 Paraíba 4.224.416 (64,96%) 1.948.790 (35,02%)
8 Rio Grande do Norte 1.131.027 (63,41%) 652.562 (36,59%)
9 Alagoas 912.034 (59,92%) 610.093 (40,08%)
TOTAL 23.062,935 9.972,632

 

 

QUADRO 2 – RESULTADO DA ELEIÇÃO DE 2018 – 2.º TURNO NOS

ESTADOS DA REGIÃO SUDESTE

ID ESTADOS BOLSONARO HADDAD
1 São Paulo 15.306.023 (67,97%) 7.212.132 (32,03%)
2 Rio de Janeiro 5.669.059 (67,95%) 2.673.386 (36,94%)
3 Espírito Santo 1.276.611 (63,06%) 747.768 (32,05%)
4 Minas Gerais 6.100.107 (58,19%) 4.382.952 (41,81%)
TOTAL 22.861,80 15.016,238

 

A pergunta central é: por estes números acima, quem rejeitou o fascismo e/ou o fascista?  É perceptível que foi o povo do “subdesenvolvido” Nordeste, tão discriminado, tão rejeitado, chamado de “gado” e território atrasado do país pelo dito “desenvolvido” Sudeste, numa certa xenofobia regional.

 

É também a região Nordeste quem vem resistindo com ação política e de gestão responsável tendo à frente a liderança dos governadores contra o desgoverno do Brasil (ainda mais nesse novo tempo difícil no mundo, com a crise sanitária da Covid19 e a crise econômica).  Nesse sentido, avalio como de grande importância e acerto político, legítimo e estratégico a união dos governadores do Nordeste, com o objetivo de resistir a todo o ódio e desprezo do presidente da República e de parte da sociedade do Sudeste com a região e ao povo do Nordeste. Mas, mesmo com indicadores sociais desiguais, o Nordeste não cansou de lutar e tem certo protagonismo político de resistência contra o autoritarismo e em favor da democracia.

 

Por isso, reafirmo, VIVA A RESISTÊNCIA NORDESTINA!

 

Sílvio Bembem é doutor em Ciências Sociais-Política (PUC-SP)

 

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