Cada vez mais isolado e criticado até pelas oligarquias que ajudaram a conduzi-lo ao poder, Jair Bolsonaro agora sofre pressão dos gigantes varejistas. Em reunião promovida pelo Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), nesta segunda (22), os empresários disseram que a “lentidão do governo” em reeditar o programa de manutenção do emprego aumenta “a possibilidade iminente de demissões em massa no varejo em todo o país diante do fechamento de lojas em todo o território nacional”.

 

 

Criada pela Medida Provisória 936, a política permitiu suspensões de contratos de trabalho e reduções de jornadas e salários. O programa, que expirou em dezembro de 2020, garantiu a manutenção de 11 milhões de empregos.

 

 

“Já estamos terminando março e o programa não foi reeditado”, reclamou Marcelo Silva, presidente do IDV. “Isso está trazendo uma inquietação muito grande entre os empresários do varejo, porque muitas lojas estão fechadas em São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Pernambuco, por exemplo.”

 

 

Segundo Silva, o baixo faturamento é insuficiente para as redes arcarem com o pagamento da folha de salário e dos impostos. “É uma questão de caixa: se não vende, não tem como pagar as contas”, diz o executivo, ressaltando que a questão tem de ser resolvida este mês.

 

 

“A despeito de todo o empenho da equipe técnica do Ministério da Economia, a Medida Provisória precisa ser publicada com urgência para evitar medidas extremas, como demissões no varejo, agravando ainda mais a crise de emprego no país”, alertou.

 

 

O IDV reúne 73 empresas, que representam R$ 411 bilhões anuais em venda e respondem por 777 mil empregos diretos em 34 mil lojas físicas e 246 centros de distribuição espalhados pelo país. Entre eles, lojas como Riachuelo e Renner e redes de farmácias como Pague Menos, Raia/Drogasil e Panvel. Também fazem parte varejistas como Ri Happy, Magazine Luiza, Carrefour e GPA.

 

 

Renda de beneficiários do Bolsa Família sofrerá queda de 62%

 

Além das medidas de restrição social, os comerciantes sofrerão o impacto da queda da renda de beneficiários de programa sociais como o auxílio emergencial e o Bolsa Família. Estudo da Tendências Consultoria Integrada estima que a renda dos clientes do Bolsa Família cairá 62,2% este ano, em comparação com o ano passado. A queda se deve às restrições no auxílio emergencial deste ano, com valor menor e menos pessoas atendidas.

 

 

Os beneficiários do Bolsa Família recebem, em média, R$ 186. Durante a vigência do auxílio, passaram a receber o que tivesse valor maior, a bolsa ou o auxílio. Como o valor do auxílio é mais alto na maioria dos casos, a renda média dos beneficiários do programa aumentou em 2020.

 

 

No ano passado, o auxílio foi pago em dois momentos. No primeiro, teve valor de R$ 600 (ou R$ 1.200 para mulheres chefes de família) por cinco meses. No segundo momento, pagou R$ 300 (ou R$ 600 para mulheres chefes de família) por até quatro meses.

 

 

Neste ano, quem está no Bolsa Família também receberá o que tiver valor maior, a bolsa ou o auxílio. Mas há uma série de restrições e mudanças no auxílio, como o valor, que está bem menor. São R$ 150 para quem mora sozinho, R$ 350 para mulheres chefes de família e R$ 250 para as demais famílias.

 

 

No total, no ano passado, o governo gastou R$ 293 bilhões com o pagamento do auxílio. Já neste ano o valor autorizado para o auxílio é de R$ 44 bilhões Para a consultoria, o novo benefício não será suficiente para “garantir a sobrevida” da renda dos brasileiros.

 

 

“Diante do enxugamento das políticas sociais compensatórias e da perspectiva de recuperação moderada do mercado de trabalho neste ano, a massa de renda total domiciliar no Brasil deve apresentar retração de 3,5%, após alta de 5,2% em 2020”, diz o estudo.

 

 

Estimada pela consultoria, a massa de renda total dos domicílios considera todas as fontes de renda, como salário, aluguéis, benefícios como o Bolsa Família e o auxílio emergencial. No ano passado, houve uma queda de 3,6% no rendimento do trabalho, que corresponde a 57,4% da renda dos brasileiros.

 

 

Segundo a consultoria, o crescimento de apenas 1% neste ano, insuficiente para repor a perda de 2020, será impactado pelo agravamento da pandemia no país, o enfraquecimento de alguns setores da economia, a diminuição das políticas de incentivo fiscal e de crédito às famílias e empresas, e às incertezas frente ao cenário fiscal.

Reproduzido do site Fundação Perseu Abramo