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Uma breve história do Teatro da Praça de Taguatinga

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O Teatro da Praça é fruto dos sonhos, inquietações e lutas de estudantes, artistas, animadores culturais, professores e pessoas da cidade de Taguatinga que queriam ter o direito de fazer e consumir arte: sua própria arte, e de se afirmar culturalmente, dando forma e cara para a cidade que nasceu pelos braços de milhares de candangos com o seu barro branco.

 

O primeiro momento desse sonho se deu pela realização de um curso de teatro dentro do Projeto Plateia, promovido pela extinta Fundação Educacional, no qual jovens secundaristas de escolas de Taguatinga (EIT, CEMAB, CTN e CTS), foram ousados, e logo em seguida ao curso criaram o Grupo de Teatro Retalhos. O Ano era 1981. Dentre esses jovens estavam Chico Simões, Miquéias Paz, Nilson Rodrigues, Schirley França, Rose Nugoli, Claudia Teixeira (Kakau Teixeira), Carleuza Farias, José Regino, Raimundo Nonato Cavalcante Alves (Natinho), Edivaldo Alves (Miltinho) e Carlos Augusto (Cacá) que foram e ainda são fundamentais para o teatro e a cultura não só de Taguatinga, como também do Distrito Federal, e porque não dizer, para o nosso país.

 

Paralelamente ao grupo de jovens que fazia teatro, um núcleo de poetas, músicos, artistas plásticos, ativistas, cineclubistas e animadores culturais, que queriam se expressar e queriam vez e voz (vivíamos numa ditadura militar, que durou de 1964 a 1985), lideradas pelo professor José Fernandes, se mobilizaram para realizar a I FACULTA (I Feira de Arte e Cultura de Taguatinga), que aconteceu na C1, entrada da cidade, ao ar livre, em agosto de 1982. Vários artistas e animadores culturais importantes participaram da I FACULTA, como Omar Franco, Ruiter Lima, Ivaldo Cavalcante, Theo Gomes, Isnaldo Lacerda, Paulo Kauim, Renner Bomfim, Francisco Morojó (Pezão) Marconi Scarinci e claro, os atores do Grupo Retalhos. Artistas do DF também foram convidados para participar da I FACULTA. Os destaques foram as bandas de rock Plebe Rude, Banda 69, Capacetes do Céu, e um certo trovador solitário que se chamava Renato Russo.

 

Não satisfeitos, artistas e agitadores culturais da Ave Branca do Planalto queriam mais. Desejavam um espaço permanente não só para as suas produções, mas também para que artistas de todo DF pudessem se apresentar em Taguatinga. Então veio a ideia da realização da I Semana de Arte de Taguatinga, e ela aconteceu no Auditório da EIT (Escola Industrial de Taguatinga) em 1983. Ao mesmo tempo em que se realizava a I Semana de Arte de Taguatinga, era criada a AACT (Associação de Arte e Cultura de Taguatinga), e é ela, cujo primeiro presidente foi o Professor Ruiter Lima, que vai reivindicar que o espaço que outrora era o Auditório do EIT passasse a ser o Teatro da Praça. A partir daí o Teatro da Praça passa a ser ocupado pelos artistas que realizaram não só as Semanas de Artes, mas também sessões de cinema, realizadas pelo Cine Clube da AACT, oficinas de teatro, música, e projetos musicais como o Música Fora dos Eixos.

 

Toda essa agitação no Teatro da Praça dura até 1988. Depois, com muitos artistas e ativistas culturais da cidade indo morar fora para estudar, trabalhar e se aperfeiçoar nas suas áreas, o movimento cultural de Taguatinga deu uma enfraquecida; e como as autoridades e a elite econômica local não viam com bons olhos aquela agitação cultural, o principal palco cultural da cidade ficou abandonado até o ano de 1994, quando artistas como Humberto Pedrancini, José Regino, Débora Aquino e Miltinho, lideram uma ocupação do espaço abandonado e reivindicam ao então candidato ao Governo do Distrito Federal pelo PT, Cristovam Buarque, que se eleito fosse reformasse o Teatro da Praça, e mais! que se criasse ali um complexo cultural, já que funcionava também na área, que pertence a antiga escola EIT, hoje CEMEIT, a Biblioteca Machado de Assis, a única biblioteca pública de Taguatinga, que passou a existir por uma batalha sem par comandada pela saudosa professora Lucy Santos.

 

E o Complexo Teatro da Praça é inaugurado (ou reinaugurado) em 1996. De 1996 a 1998 o Teatro da Praça funciona a todo vapor, tendo à frente a atriz e produtora Débora Aquino, juntamente com a produtora cultural Magê, que respondiam pela Divisão Regional de Cultura de Taguatinga. Na ocasião, contaram com grande apoio da extinta Fundação Cultural do Distrito Federal, dirigida por Nilson Rodrigues, que viabilizou apresentações de grandes artistas nacionais no Teatro da Praça, dentro do projeto que marcou época no Distrito Federal: o Projeto Temporadas Populares. Pelo Teatro da Praça nesse período passaram nomes importantes da cultura brasileira como Antônio Nobrega, Zeca Baleiro, Francis Hime, Lô Borges, Tônia Carreiro, só para citar alguns.

 

Com a derrota de Cristovam Buarque do PT para o Roriz do PMDB nas eleições em 1998, e como a maioria dos artistas apoiaram a reeleição de Cristovam para o Palácio do Buriti, Roriz resolveu punir os artistas do DF, assim como fizera Fernando Collor quando assumiu a Presidência da República em 1990, já que a grande maioria dos artistas brasileiros apoiaram a candidatura de Lula para a Presidência da República na eleição de 1989.

 

De 1999 até os dias de hoje o Teatro da Praça, ou o Complexo Cultural Teatro da Praça, nunca mais foi o mesmo em termos de realizações artísticas e culturais. E com o agravante que logo após a eleição de José Roberto Arruda pelo PFL em 2006, se ventilou a possibilidade de privatização da área do CEMEIT. Neste momento, é mais uma vez o movimento cultural de Taguatinga liderado pelo poeta e ator Cacá, idealizador do Sarau Cultural Tribo das Artes, quem cria o movimento de resistência pelo tombamento do CEMEIT e do Complexo Cultural Teatro Praça, que ficou conhecido como movimento VIVA EIT. Um aspecto positivo que aconteceu naquele período foi a transferência da Biblioteca Braile Dorina Nowill, sob a direção da professora Dinorá Couto Cançado, que funcionava numa pequena sala na Escola Classe 06, para a área do Complexo Cultural Teatro da Praça.

 

Infelizmente, a saga para que os artistas e movimento cultural de Taguatinga movimentem sua casa dura até os dias atuais, já que até a presente data o Complexo Cultural Teatro da Praça não foi  definitivamente tombado, como também não existe um órgão do GDF que responda pela gestão do mais importante espaço cultural de Taguatinga, uma espécie de Terra prometida.

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