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Uma aventura no Acre: por esta estrada passa boi passa boiada

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BR-317 – Acre. Foto: Divulgação

 

Partindo de Rio Branco, capital do estado do Acre e passando pelos municípios de Senador Guiomard (Quinari), Capixaba, Xapuri e Epitaciolândia, percorre-se 232 km para chegar a Brasileia, cidade fronteiriça com Cobija, capital do departamento de Pando-Bolívia. Avançando por mais 110 km na BR-317 (estrada do Pacífico) chega-se a Assis Brasil, cidade onde está o marco internacional da tríplice fronteira: Bolívia-Brasil-Peru e onde em 2006 foi concluída a “Ponte da integração”, que liga o Brasil ao Peru. Após a fronteira, percorre-se 1.570 km para chegar ao Porto de Illo, no Oceano Pacífico, principal porta de exportação de produtos para a China e o Japão.  É uma região de fronteiras com grande potencial econômico e na qual vários países estão interessados na sua geopolítica.

 

 

Nas décadas de 70 e 80 do século passado a região foi cenário das grandes disputas pela posse da terra entre seringueiros e os chamados “paulistas”. Hoje, nas margens da Rodovia, que requer constante manutenção pelo DNIT, estão consolidadas as grandes fazendas de gado, plantios de milho e de cana-de-açúcar, que já está sendo substituída pela soja.

 

Durante os 20 anos (1999-2019) em que o Partido do Trabalhadores governou o Acre, foram feitos grandes investimentos estruturais na região: Zona de Processamento de Exportação-ZPE (Senador Guiomard); Usina Álcool Verde (Capixaba); Fábrica de preservativos NATEX, indústria de beneficiamento de madeiras e polo moveleiro (Xapuri); polo moveleiro de Epitaciolândia; Fábrica de ração, frigorífico Dom Porquito, abatedouro Acre aves e pousada Ecológica (Brasileia), entre outros investimentos na área de produção, conservação ambiental e desenvolvimento sustentável na Reserva Extrativista Chico Mendes que abrange 4 municípios da região.  Há época foi construído um projeto político que deu base ao sonhado desenvolvimento sustentável.

 

 

Contudo, vários problemas de gerenciamento nos complexos projetos que envolviam: estrutura, gestão de pessoal, administração financeira e etc., acrescidos com a arrogância e vaidade de alguns “reis e faraós” que assumiram as chefias do governo e do partido, contribuíram para o fracasso das iniciativas que consumiram milhões em recursos humanos e financeiros, nacionais e estrangeiros; além de criar na população um sentimento de descontentamento e profundo ódio ao PT. A prova disso está no percentual de votos obtidos, 77, 22% no estado e 82% na capital, pelo candidato (Bolsonaro) que deu voz a insatisfação popular dizendo que iria acabar com o PT e os petistas.

 

 

E a boiada vai passando

 

Plantação de soja ao longo da BR-317. Foto: Divulgação

 

Dois anos após as eleições o novo governo também não disse a que veio.  As estruturas físicas das secretarias estão cada dia mais deterioradas. Salvo uma mão de tinta para demarcar a cor do partido, nada mais foi feito para melhorar as condições de trabalho dos servidores; o secretariado é um verdadeiro “saco de gatos”. Ninguém sabe de onde vem nem para onde vai. O vice-governador nomeia, o governador exonera.

 

A crise econômica mundial e a pandemia são dadas como justificativas para a estagnação das atividades nos diversos setores.  Na área ambiental, na qual o Acre era referência mundial, o plano de desregulamentação do Ministro do Meio ambiente vai sendo executado paulatinamente.  A diretoria executiva do Instituto de Meio Ambiente do Acre-IMAC, órgão responsável pela emissão de licenças para derrubadas de árvores, transporte de madeira, entre outras atividades afins, está nas mãos de uma empresária do ramo madeireiro que, segundo os critérios de indicação, “transita bem entre o poder público e a classe empresarial”.

 

Os vultuosos investimentos feitos na região (denominada Alto Acre) estão em declínio.  A ZPE, que nunca saiu do papel nem dos discursos de campanha, está sendo vendida, a estrada do Pacífico que seria a rota de exportação e porta de entrada do turismo sul-americano no Acre, virou rota de imigrantes do Haiti, da Venezuela e de mochileiros pobres que enchem os semáforos da capital na disputa por algumas moedas. Os empreendimentos industriais estão quase todos falidos ou em vias de; a chegada das facções criminosas tornaram a área de fronteira mais perigosa e aumentou o número de assassinatos relacionados ao tráfico internacional de drogas; os jovens, urbanos e os da Resex Chico Mendes, estão cada dia mais seduzidos pelo crime e pelas drogas e o plantio de soja só vai dar lucro para quem tem terras para arrendar.

 

 

As rodovias que cruzam a região já não suportam o tráfego dos boiadeiros e não vão suportar o peso dos caminhões com de grãos. Do ponto e vista econômico fica a dúvida:  é viável levar soja para embarcar em navios no rio madeira, em Porto Velho, distante quase 600 km?  O gado daqui está sendo levado para venda nos mercados externos; e a carne que fica, os preços são exorbitantes. Para a população local resta a opção de comer ovos. A cartela com 30 unidades custa R$ 10,00.

 

Mas nem tudo é ruim nesta terra onde o astro que fulge na bandeira “foi tinto com sangue de heróis”. Mesmo com eventos extremos (secas e enchentes), temos o melhor açaí do mundo; nosso quibe de arroz de todo dia, é sagrado; chova ou faça sol tomamos nosso tacacá; temos uma pista de corrida e o lago do amor para os fins de tarde com os amigos; o salário dos servidores, mesmo defasado e minguando a cada mês, está em dia; e o governador, sejamos justos, não tem medido esforços para trazer para o estado a tão esperada vacina contra o vírus COVID-19. Então, reclamar de quê? Deixa passar a boiada!!!

 

 

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