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Um marciano encalhado na Terra

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Bogdánov jogando xadrez com Lenin em Capri, Gorki ao fundo, abril de 1908, foto de Iúri Jeliábujski

 

Imagine o leitor um personagem, Aleksandr Bogdanov, que foi filósofo, sociólogo, economista e médico, com especialidade em psiquiatria; de 1904 a 1907, um dos líderes da ala bolchevique do Partido Operário Social-Democrata da Rússia; e, entre 1904 e 1906, escreveu um colossal tratado de filosofia, Empiromonismo – três volumes que propõem-se a resolver o problema básico do materialismo histórico, ou seja, como a base material de uma sociedade determina seus modos de pensar.

 

Rival de Lênin, Bogdanov acabou derrotado e expulso do Partido em 1909, não antes de ver o desafeto escrever outra colossal obra, Materialismo e Empirocriticismo, para, dentre outros objetivos, desautorizar a sua. O livro de Lênin virou leitura obrigatória na formação de soviéticos e chegados, traduzida no mundo inteiro, lida (ou não-lida, mas citada) a rodo. O livro de Bogdanov ficou na zona fantasma das obras heréticas do Partido, retornando à superfície, assim como outros textos de sua lavra, em 1989 – no ocaso do comunismo soviético.

 

Em boa hora a Editora Boitempo publica um magnífico opúsculo ficcional de Bogdanov, Estrela Vermelha, lançado em 1908 – narrado em primeira pessoa, conta as peripécias de um militante intelectual bolchevique abduzido por marcianos, que se maravilha com o elevadíssimo estágio do socialismo científico vigente em Marte, o planeta vermelho. Ficção científica na aurora bolchevique.

 

Escolhido à revelia dentre toda a população terráquea, o personagem-narrador é no entanto modesto e observador, regozijando-se com a fluidez das relações socioeconômicas e a eficiência da gestão marciana, sempre com uma lógica de custo-benefício impecável. Não escapam ao observador o refinamento moral das interações pessoais, o desprendimento e a sinceridade dos líderes na condução dos negócios do planeta. Em Marte, não há Estados-Nação, nacionalismos ou guerras fratricidas. Conflitos e contradições ocorreram ao longo da evolução da humanidade marciana, mas prevaleceu o império da razão.

 

Nosso herói chega a casar-se com uma marciana – e também a ter relações extraconjugais quando a esposa parte em missão a Vênus. Não obstante, Estrela Vermelha é citado como precursor do feminismo, pelo tratamento igualitário concedido às personagens marcianas.

 

O altruísmo da alteridade marciana atinge o ápice com a utilização em larga escala da transfusão sanguínea: “uma troca de vida camarada não só na existência ideológica mas também fisiológica”, explica um médico local. Transfusões que vão muito além daquelas realizadas pelos terráqueos, que visam sempre um objetivo terapêutico. Em Marte, as transfusões são corriqueiras e servem para compensar as potencialidades pessoais, corrigindo os desequilíbrios e conduzindo à harmonia social.

 

Não faltam nesse livro pioneiro predições científico-tecnológicas embutidas nos avanços dos marcianos, como antimatéria, energia nuclear, inteligência artificial. Bogdanov possuía uma mente inquieta, e narra sua aventura interplanetária com um misto de objetividade burocrática e positivismo moralista.

 

Proscrito pelos bolcheviques, Bogdanov chegou a ser preso por cinco semanas em setembro de 1923. Uma de suas experiências marcantes foi ter servido como médico durante a Primeira Guerra Mundial. Em 1925, disposto a materializar sua concepção ampla de transfusão sanguínea, fundou o Instituto de Hematologia e Transfusões de Sangue. Mas uma transfusão acabou custando-lhe a vida, em 1928: quando injetou em si o sangue de um estudante que sofria de malária e tuberculose, não resistiu e morreu – o estudante que absorveu sua corrente sanguínea, entretanto, recuperou-se completamente.

 

A vasta e eclética obra de Aleksandr Bogdanov influenciou campos modernos do saber, como teoria dos sistemas e cibernética. Em 1924 escreveu um poema, Um marciano encalhado na terra, que sugeria uma sequência de Estrela Vermelha, afinal não escrita.

 

Serviço:
Livro: Estrela Vermelha
Autor: Aleksandr Bogdanov
Edição: Boitempo – Coleção Clássicos
Páginas: 184
Formato: 16cm x 23cm

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