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Um furo mimeografado

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(Foto de Alberto Korda)

 

É difícil imaginar como vivíamos no Brasil da segunda década dos anos 60. Mesmo antes do AI 5 (dezembro de 1968), quando a repressão tornou-se terror desenfreado contra os que se opunham ao regime militar.

 

Mas ninguém pense que antes disso o Brasil respirava ares da liberdade. O golpe (1964) foi seguido de inúmeras prisões de lideranças políticas e sindicais. A UNE e demais entidades estudantis foram fechadas. A imprensa não era livre.
Em 1967, eu ingressei no curso de Administração, na Universidade Federal da Bahia. Começava a me aproximar da AP (Ação Popular), organização de esquerda então católica.

 

Antes disso, junto com alguns colegas, como Adelson Souza Filho (próximo ao PCB), organizamos um jornal estudantil, o Unidade. Tiragem suficiente para atingir os colegas da faculdade e edição mensal.

 

Às vésperas do fechamento de cada edição, intensificávamos o rastreamento dos noticiários voltados para o público brasileiro de emissoras estrangeiras: BBC (Inglaterra), as rádios de Berna (Suíça), Havana (Cuba), Moscou (Rússia) e até a Voz da América (Estados Unidos).

 

Era outubro e, passados 53 anos, não é possível lembrar de onde recolhemos a atordoante notícia: Che Guevara não resistiu ao cerco na Bolívia e foi fuzilado.
Éramos todos simpatizantes da Revolução Cubana e sonhávamos que seria possível estendê-la a outros países da América Latina, toda ocupada, à época, por marionetes do governo norte-americano.

 

Era como se uma imensa pedra desabasse sobre nossas cabeças. Saltávamos de uma para outra emissora, à cata de um desmentido. O jeito foi noticiar na edição seguinte do Unidade, ainda que com a timidez de quem torcesse para que não fosse verdade.
Assim, aquela edição mimeografada de um jornalzinho de estudantes noticiava, (até onde sabemos, pela primeira vez no Brasil) o fuzilamento de Ernesto “Che” Guevara, o médico argentino que, juntamente com Fidel Castro (e mais Camilo Cienfuegos e Raul Castro), dirigiu a Revolução Cubana.

 

Após assumir várias funções relevantes no governo Revolucionário de Cuba, o Che tornou-se o Ministro das Indústrias (Economia), dirigiu a reforma agrária e a bem sucedida campanha de alfabetização, foi um dos líderes na defesa cubana contra a invasão da Baía dos Porcos e coordenou a aproximação de Cuba com a União Soviética.

 

Em abril de 1965, o Che renunciaria ao poderoso cargo de ministro para reassumir a condição de militante revolucionário.

 

Deixou inclusive a família e dedicou-se a colaborar com grupos que buscavam desencadear em seus países processos semelhantes ao de Cuba. Tentou primeiro na África (Congo) e depois na Bolívia, onde foi executado por milicianos locais, com apoio da norte-americana CIA.

 

Tal desprendimento e compromisso com a causa revolucionária fez de Che Guevara, a partir de então, uma marca para todos os jovens que sonhavam e sonham com a superação das injustiças sociais em seus países.

 

Em todos os cantos do mundo, 53 anos após o seu fuzilamento, ainda se ouve as palavras do Che: “Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”

 

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