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Um episódio da Lava Jato

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Dos 7 terabites de informações armazenadas pelos hackers que invadiram por bom tempo as conversas dos procuradores da Lava Jato entre eles e com Sérgio Moro, começa a sair agora alguma coisa não repassada ao site Intercept e por ele divulgada no que ficou conhecido como Vaza Jato. E o que vaza agora é coisa ainda mais suja.

 

Por exemplo, detalhes aparentemente secundários do dia da condução coercitiva de Lula, em março de 2016. Nesse dia, enquanto Lula era levado de São Bernardo do Campo para o Aeroporto de Congonhas, o procurador Januário Paludo visitava o sítio de Atibaia e chegava à conclusão de que o sítio só podia ser mesmo de Lula e d. Marisa, tão  “cafonas” – expressão sua – eram as roupas de cama ou as roupas de dormir do casal.

 

Outros procuradores e, infelizmente, algumas procuradoras, das quais se esperaria terem mais juízo e sensibilidade que aqueles marmanjos casca grossa, divertiram-se muito com o humor do colega mais velho, a quem homenageavam chamando de “filhos do Januário” seu grupo de conversas pela internet. Mas não era humor, era uma confissão dupla.

 

Primeiro, uma confissão de racismo implícito. As roupas eram cafonas porque “essa gente” não aprendeu a ter bom gosto. E essa gente tem um pé ou os dois na senzala. Segundo, uma confissão de fracasso.

 

Na manhã da visita de Paludo, era interrogada ali mesmo uma faxineira do sítio, que morava longe e fora levada para lá por uma escolta fortemente armada e fantasiada com aquelas blusas de ninja. Junto com ela, os ninjas levaram seu filho de 7 anos, assustadíssimo com os fuzis da escolta (o menino depois passou por seis meses pelo menos de psicoterapia). O que queriam é que a faxineira dissesse que Lula era o dono do sítio e pagava as despesas dele. Mas a faxineira só sabia que quem pagava as despesas e era dono do sítio era Seu Fernando Bittar.

 

Se ela de algum modo reconhecesse a propriedade de Lula sobre o sítio, essa confissão permitiria a Moro, que tinha decretado a condução coercitiva, decretar imediatamente a prisão preventiva de Lula, que já estava em Congonhas e seria imediatamente embarcado para seu futuro cárcere, na Polícia Federal de Curitiba.

 

Uma ironia dessa história é que Sérgio Moro nasceu numa família cujo chefe, seu avô Amâncio Moro, usava roupas tão cafonas quanto as encontradas pelo aristocrático procurador no sítio de Atibaia. Amâncio Moro talvez tivesse sido ferroviário; se não foi, saíu de alguma profissão nada aristocrática e foi fundador do PTB de Getúlio Vargas em Curitiba em 1945 e vereador e presidente da Câmara Municipal por esse partido bem plebeu.

 

Como a palavra “cafona” ainda não tinha sido inventada, a imprensa aristocrática da cidade chamava os petebistas de “calças largas”, porque, pobres como eram quase todos, não tinham podido acompanhar a moda – e a moda passara a adotar o modelo das calças estreitas para os ternos masculinos. Amâncio Moro também era tratado de “calças largas”, mas não usava aquelas camisas pretas que fariam o neto parecer da turma de Mussolini. O velho Moro usava camisa branca. E viveu sem ter feito mal a ninguém.

 

De olho no mundo…

 

O Presidente Joe Biden surpreendeu a grande mídia brasileira ao revogar uma ordem do ex-Presidente Trump que proibia qualquer operação portuária ou aeroportuária nos Estados Unidos em conexão com a Venezuela.

 

Isso não deveria surpreender. Biden está revogando, uma como a uma, todas medidas mais brutais de Trump, e procurando corrigir suas sequelas. Por exemplo, a separação de famílias de imigrantes ilegais, que deixou centenas de crianças isoladas, sem que os pais voltassem a saber delas ou elas a saber deles. Crueldades como, aqui, a condução coercitiva da faxineira de Atibaia em companhia do milho de apenas 7 anos, sob o cerco de ninjas armados para matar.

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitíba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

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