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Torquato instagrameando há 50 anos

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Esses encontros inesperados do tempo na espiral dele próprio mais uma vez me brindam, quando, lendo Torquato Neto Essencial (Autêntica, org. Italo Moriconi, 2017) e já quase ao final dos registros de seus escritos, observo a sincronia da data deste intitulado “Material para divulgação”: 19 de outubro de 1971!

 

Parei aí, boquiaberta com a antena, sequiosa por imagens, desse poeta da Tropicália suicidado aos 27 anos. Torquato entre poemas, letras de canções, crônicas brilhantes e outros textos (alguns que são besteiras de menino ou curtições poéticas), sempre provocando surpresas com a lucidez de quem enxerga na escuridão a uma distância espacial de meio século antes!

 

Entre as mídias que experimentou em sua curta vida, o cinema nos últimos três anos o deslumbraria, a ponto de se tornar um grande entusiasta da câmera superoito. Suas inequívocas propagandas para o equipamento, e para a indústria cinematográfica como um todo, tinham entretanto o intuito de incentivar a produção independente no país.

 

A crônica “Material para divulgação”, publicada em sua coluna Geleia Geral, mantida no jornal Última Hora entre agosto de 1971 e março de 1972, marca o nascimento dessa paixão – que não chamaria tanto a atenção não fosse o seu enfático apelo para o que hoje é a crônica, ou o arroz com feijão, não só da rapaziada, mas da população de todas as idades da Terra inteira.

 

O poeta anteviu a atividade frenética de documentar tudo em fotos, vídeos, áudios, o que, em pouco menos de meio século depois, o celular viabilizaria a qualquer cidadão.

 

Sabe-se lá se vivo estivesse estaria satisfeito com a reviravolta comportamental e os reflexos na vida profissional que trouxe a tecnologia… Sabe-se lá se não estaria reclamando, puxando orelhas, como costumava fazer, com toda a autoridade de seus 20 e poucos anos, quando desaprovava invencionices que o desagradavam. Impossível saber, claro. No entanto, esse seu texto pode entrar para o panteão das “relíquias do Brasil”. Transcrevo aqui abaixo na íntegra, porque diz tudo, por si.

 

Material para divulgação

 

Torquato Neto

 

“Pegue uma câmera e saia por aí, como é preciso agora: fotografe, faça o seu arquivo de filminhos, documente tudo o que pintar, invente, guarde. Mostre. Isso é possível. Olhe e guarde o que viu, curta essa de olhar com o dedo no disparo: saia por aí com uma câmera na mão, fotografe, guarde tudo, curta, documente. Vamos enriquecer mais a indústria fotográfica. Mas pelo menos assim, amizade: documentando, fotografando, filmando os monstros que pintam, pintando sempre por aí com o olho em punho, a câmera pintando na paisagem geral brasileira.

Escrever não vale quase nada para as tranças difíceis desse tempo, amizade. Palavras são poliedros de faces infinitas e a coisa é transparente – a luz de cada face distorce a transa original, dá todos os sentidos de uma vez, não é suficientemente clara, nunca. Nem eficaz, é óbvio. Depende apenas de transar com a imagem, chega de metáforas, queremos a imagem nua e crua que se vê na rua, a imagem – imagem sem mais reticências, verdadeira. A imagem é mais forte, não brinca em serviço, brinque. Não brinque de esconder com seu olho: veja e fotografe, filme, curta, guarde.

Documente: toda imagem é uma espécie de painel, planos gerais não são apenas uma barra de estilo, o indivíduo é literário (a literatura é irmã siamesa do indivíduo), planos gerais são por necessidade: cumpra essa de escrever somente o que não pode ser de outra maneira e não tem mais outro jeito – como sempre –, e aproveite para curtir a transa do nosso tempo da nossa precisão: vai inventando, vamos todos inventar como no jardim de infância, descobrindo, descobrindo, revelando, deixando pronto, guardado. Vamos guardar as imagens desse tempo, sair na rua e fotografar. Ou prefiro, “fazer cinema”? Ou prefiro contar história?

Outra vez: veja e guarde o que você pode ver. Os filmes no mercado são sensíveis, coloridos, fáceis, 3 minutos cada, superoito. Um filminho destes, revelado e tal, custa pouco nos lugares certos. Mas é possível conseguir filmes ainda mais baratos, em preto e branco, muito mais sensíveis e que podem ser revelados em qualquer laboratório. São filmes que podem ser utilizados como muito pouca luz, a luz que pintar; funcionam quase no escuro: usa essa chance de não deixar passar nada que possa ser visto e guardado. Há muita câmera para alugar por aí, se informe a respeito e comece a experimentar por aí.

Quem vai documentar isso? Quem vai guardar as imagens que o cinema dos cinemas não exibe? Quem vai nessa?  Quem vai dar para depois as imagens da festa dessas cores nas ruas do país e nos corpos do beco?

Invente. Uma câmera na mão e o Brasil no olho: documente isso, amizade. Nāo estamos do lado de fora, e do lado de fora é a mesma transa: underground, subterrânea etc. A realidade tem suas brechas, olhe por elas, fotografe, filme, curta dizendo isso. Tem sua beleza: a paisagem não sustenta o teu lirismo, pode mais do que ele, campa com ele e isso é bonito. Organizar arquivos da imagem brasileira desses tempos, cada qual guardando seus filminhos, até que o filme esteja todo pronto. Planos gerais, retratos da paisagem geral, arquivos vivos, as fachadas, os beijos, punhaladas: documentar tudo, pode crer: é isso.

Soluções técnicas e vantagens econômicas. Veja e guarde. Não valemos sem nada como testemunhas de nada, mas o que fizemos fica e guarda o que se vê. Propostas para uma visão urgente do fogo. Curtindo agora mesmo. As imagens: gravando tudo. Ou não falei?”

                      

19 de outubro de 1971. 

 

 

 

 

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