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Território e luta de classes

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Ouço faz tempo que não existe mais luta de classes. Claro, não tem classe operária com milhares entrando e saindo de uma linha de produção. Nem um patrão com nome familiar. Nem temos mais bancários num caixa e na compensação da madrugada…

 

Mas a vida continua com maior exploração das pessoas, com ganhos insignificantes, que mal cobrem sua sobrevivência e outros passam fome, mesmo trabalhando. Sem falar no vasto exército de reserva dos desempregados. Já os lucros de poucos aumentam cada dia mais.

 

Seguindo o marxista David Harvey: vivemos tempos de loucura da razão econômica.

 

Para entender o mundo, insistimos no olhar para o território, aprendendo um pouco com Milton Santos, no momento em que vamos para 20 anos sem sua presença instigante. Ou pensar em Josué de Castro, cuja Geopolítica da Fome fará 70 anos em 2021.

 

Não basta recuar aos conceitos clássicos de Marx para reproduzir significados de “classe”, quando esta não é mais a “classe” de Marx.

 

Vamos recuar a Antônio Gramsci que nos lembra do papel da cidadania.  Foi ele quem nos trouxe que a cidadania deve ser objetivo da escola. Gramsci saiu da bolha do velho marxismo.

Cremos que o tripé Milton Santos/Josué de Castro/Gramsci ajuda-nos a entender melhor o que vivemos.

 

E se dermos atenção a David Harvey, entenderemos que aquela(r)evolução do capitalismo das máquinas de vapor, da consciência da exploração da mais-valia, agora pressupõe transformações em conceitos mentais sobre o mundo, as relações sociais, as tecnologias e também em estilos de vida.

 

Mesmo em trabalho remoto na Internet, estamos num “condomínio”, numa comunidade. Não pensem que aquele que trabalha atrás de uma tela de computador é apenas o “nerd”, o que está num bom apartamento ou casa. Tem gente de todos os tipos.

 

A maior parte das pessoas está pagando um altíssimo aluguel ou uma prestação escorchante, da qual o investidor, o rentista, é que está tendo a sua mais-valia.

 

Tente organizar os trabalhadores de aplicativos? Não será nada fácil. Mas na comunidade tem o entregador da bicicleta, da moto e do carro. Tem o sujeito que passa o dia teclando para uma empresa que pode estar no outro lado do oceano.

 

Estes agentes do novo mundo do trabalho podem, com mais facilidade, se conscientizar de sua situação neste local, neste território. Pois fica difícil se confrontar com o (dono do) aplicativo. Quem é? Onde está? No território, as pessoas estão em “sua casa”.

 

Os patrões se tornaram invisíveis. Não podemos vê-los. Eles são desterritorializados. O povo não, as pessoas tem sua comunidade, seu território.

 

Na comunidade nós existimos, nós vemos, nós juntamos e assim podemos tomar força e fazer algo para não sucumbir mais e mais para a exploração capitalista.

 

(*) Adeli Sell é bacharel em direito, consultor e escritor

 

 

 

 

 

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