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Técnico da JBS/Seara morre em acidente de trabalho em frigorífico em SC

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Empresa só se pronunciou sobre o caso após o contato da reportagem do jornal Brasil de Fato. Itamar Bedin tinha 45 anos, deixa esposa e dois filhos. Levantamento do Observatório Digital de Segurança e Saúde do Trabalho indica que a cada 49 segundos ocorre um acidente de trabalho no Brasil

 

O técnico eletromecânico Itamar Bedin, de 45 anos, morreu em um acidente de trabalho em um frigorífico da JBS/Seara no município de São José (SC), Região Metropolitana de Florianópolis, às 19h45 da última quinta-feira (25).

 

Dona das marcas Friboi e Seara, a JBS é a maior empresa de proteína animal do mundo. No terceiro trimestre do ano passado, a companhia reportou o maior faturamento trimestral da história: R$ 3,1 bilhões, quase nove vezes o registrado no mesmo período de 2019.

 

“A prioridade da empresa no momento é prestar toda a assistência e solidariedade aos familiares e colegas de trabalho”, diz nota enviada pela JBS à reportagem, lamentando a ocorrência. A companhia só se pronunciou sobre o caso após o questionamento do Brasil de Fato, mais de 24 horas depois da confirmação do óbito.

 

A JBS acrescentou que já iniciou uma apuração interna para investigar as causas do acidente e prestará todo o auxílio às autoridades competentes.

 

 

Casado e pai de dois filhos, Bedin formou-se técnico eletromecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em 2003, tinha várias certificações na área e trabalhava na empresa desde novembro de 2019.

 

O óbito ocorreu enquanto ele fazia a manutenção do chiller de resfriamento, também conhecido como conjunto industrial frigorífico. Segundo relatos de trabalhadores no local, Bedin teria escorregado e ficado com o pescoço travado entre o helicoide – superfície em formato de hélice, dentro do chiller – e a parede do equipamento.

 

O atestado médico, incluído na Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT) emitida pela empresa no dia 26, informa que o trabalhador sofreu asfixia, seguida de parada cardíaca. Ainda segundo o documento, Bedin atuava como mecânico de manutenção.

 

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Alimentação da Grande Florianópolis e Vale do Rio Tijucas (Sitiali), Tiago da Silva Fernandes, esteve na fábrica neste sábado (27) para tentar obter mais informações sobre o caso.

 

“Acompanharemos o desdobramento e o desfecho desta situação até o final. Queremos saber se a morte decorreu de desatenção ou se isso tem relação com a pressão sobre o trabalhador, já que esta é uma realidade enfrentada pela categoria”, diz.

 

“Em 2017, na mesma fábrica, morreu um trabalhador terceirizado eletrocutado em cima do forro do escritório do RH da empresa, quando ele fazia manutenção”, lembra Fernandes.

 

De acordo com o sindicalista, a empresa entrou em contato para que a entidade acompanhe as apurações no local. A perícia estará na unidade da empresa até este sábado (27) para investigar a morte do trabalhador.

 

Acidentes na JBS são frequentes, segundo a secretária de formação da Confederação Brasileira Democrática dos Trabalhadores na Indústria da Alimentação da CUT (Contac-CUT), Geni Dalla Rosa de Oliveira.

 

“O chiller é uma máquina para resfriar o frango e não moer trabalhador”, ressalta. “Somado a isso, a JBS tem como prática a ausência de diálogo com sindicatos em todo Brasil, conversas que insistimos em fazer justamente para garantir direitos e evitar tragédias com mortes de trabalhadores”, afirma.

 

Ao lamentar sobre a morte de Itamar, a dirigente refere-se também a outras mortes pelo país envolvendo a empresa.

 

Oliveira menciona, por exemplo, a morte do indígena Marcos Antonio Pedro, de 29 anos, ocorrida na Seara Alimentos S.A., em 2007, em Sidrolândia (MS). “A empresa só mudou de nome, porque as práticas são as mesmas”, alega.

 

A morte de Marcos teve ampla repercussão à época. O trabalhador caiu dentro do tanque de resfriamento de frangos no momento em que realizava serviço de higienização da máquina do frigorífico. Ele fazia a checagem de resíduos no chiller, mas em condições inadequadas de segurança.

 

As espirais da máquina fatiaram o trabalhador ainda vivo, cortando toda a coluna, detalha a dirigente. “Para escapar de um escândalo, a empresa alegou suicídio do trabalhador e modificou o local também do acidente. Então fomos para cima, realizamos denúncias junto ao Ministério Público e atos nas ruas, até que a Seara, hoje JBS, assumiu a responsabilidade pela morte do trabalhador, pai de três filhos, e indenizou a família”, relata Oliveira com indignação.

 

Médico do trabalho, Roberto Ruiz explica que acidentes no chiller tornaram-se menos frequentes no Brasil após a Norma Regulamentadora 36 (NR 36), que atualizou os requisitos para controle, monitoramento e avaliação dos riscos nas indústrias de abate e processamento de carnes e derivados.

 

“Acidentes no chiller podem causar traumatismos diversos no corpo humano”, descreve. “Pude acompanhar alguns casos em que o trabalhador conseguiu se salvar, mas ficou com sequelas graves em vários locais do corpo, que vão desde a região do crânio [traumatismo craniano] a fraturas de braços e pernas.”

 

A NR 36 foi editada após pressão de entidades sindicais em abril de 2013, e o governo de Jair Bolsonaro (sem partido) pretende revisá-la em agosto de 2021. As comissões que discutem eventuais mudanças nas normas regulamentadoras são formadas por representantes do governo federal, geralmente indicados pelos ministério da Economia e da Saúde. Também são chamados a participar confederações empresariais e representantes de centrais sindicais.

 

 

Tragédia nacional e subnotificação: um acidente de trabalho a cada 49 segundos

Em janeiro deste ano, Álvaro Luiz Pinto Pantaleão, médico perito, em artigo publicado no site Migalhas, diz que “sempre que falamos de estatísticas de acidentes de trabalho no nosso meio, há que se destacar o fenômeno da subnotificação, ante a contumaz falta de abertura da CAT pelos empregadores, desconhecimento de direitos, trabalho informal, entre outros fatores”.

 

Considerando as subnotificações, o Observatório Digital de Segurança e Saúde do Trabalho afirma que, no Brasil, “uma pessoa morre por acidente de trabalho a cada 3 horas e 40 minutos”. Levantamento do Observatório dá conta que, entre 2012 e 2018, foram registrados 17.200 falecimentos em razão de algum acidente ou doença relacionada ao trabalho.

Dados do Observatório dão conta de que a quantidade de falecimentos aumentou entre 2017 e 2018, passando de 1.992 para 2.022, respectivamente: 2017 registrou 1.992 mortes; 2018: 2.022 mortes. Ainda segundo o ODSST, quando são contabilizados os acidentes de trabalho em que não há mortes, os números aumentam muito mais. O levantamento indica que ocorre um a cada 49 segundos, totalizando 4,7 milhões no período.

“Entre as lesões, o tipo mais comum foi corte e laceração, com 734 mil casos (21%). Em seguida, vêm fraturas, com 610 mil casos (17,5%), contusão e esmagamento, com 547 mil (15,7%), distorção e tensão, com 321 mil (9,2%) e lesão imediata, com 285 mil (8,16%).

 

Já as áreas mais atingidas foram os dedos (833 mil incidentes), pés (273 mil), mãos (254 mil), joelho (180 mil), partes múltiplas (152 mil) e articulação do tornozelo (135 mil). No ranking por ocupação, as ocorrências mais frequentes foram as de alimentador de linha de produção (192 mil), técnico de enfermagem (174 mil), faxineiro (109 mil), servente de obras (97 mil) e motorista de caminhão (84 mil)”, informa o médico perito.

Reprodução do jornal Brasil de Fato com edição do Jornal Brasil Popular

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