Publicidade

Tapajós, o maior rio do mundo!

  • em



O Brasil e o mundo se despedem de uma grande estrela da música clássica: morreu de infarto agudo no miocárdio, nesse final de semana, aos 79 anos, o instrumentista Sebastião Tapajós, artista brasileiro que ganhou fama na Europa e Estados Unidos por sua ímpar musicalidade, deixando uma legião de fãs espalhada por todos os quadrantes geográficos da terra.

 

 

Aplaudido durantes anos a fio nas melhores salas de espetáculos do circuito internacional, o músico era um autêntico beradeiro amazônida da cidade de Alenquer, no Estado do Pará. Ainda em tenra idade, ou já curumim, como se diz no jargão regionalista do Norte, foi morar em Santarém, recanto paraense dos seus primeiros estudos musicais no violão.

 

Na perspectiva crítica de V. A. Bezerra, “o estilo de tocar de Sebastião Tapajós era vigoroso e incisivo, e o som que tirava do instrumento era cheio e encorpado”. Sua reconhecida genialidade, por décadas a fio, conquistou a pena afiada e o sabor refinado dos críticos musicais e revelou seu valor artístico às plateias mais distintas em todo o globo terrestre. Sem dúvida, que, do ponto de vista popular, figuras como Fafá de Belém, Gaby Amarantos e Joelma, da Banda Calypso, cada qual no seu metiê artístico, tornaram-se muitíssimo mais conhecidas e popularescas, inclusive graças ao empurrão da mídia televisiva e ao modismo do gênero brega que assola o país. Todavia, o violão de Sebastião Tapajós possuía grandeza estética e dimensional diferenciada, incorporando em sua expressividade de pororoca indomável elementos intrínsecos de absoluta idiossincrasia, como solos, acordes e arpejos ardentes, desconcertantes e transbordantes.  O metafórico cantar de sua viola mostrou-se tão gigantesco quanto a própria Amazônia Ocidental!

 

Um homem do povo, o professor Edilson Lobo, nativo de Porto Velho, Estado de Rondônia, assim se manifestou em uma rede social, mostrando o quanto a arte de Tapajós era amada por seus ouvintes: “Justa reverência! Sebastião Tapajós, com sua arte, dignificou, como filho da Amazônia, esta região tão imensa, por vezes uma ilustre desconhecida, com vastas riquezas a potencializar suas múltiplas manifestações, como a cultura musical, por exemplo. Tive a oportunidade de assistir Sebastião Tapajós em vários momentos da sua trajetória, sozinho ou dividindo o palco com outros músicos. Um dos que lembrarei para sempre, aconteceu no Teatro da Paz em Belém, quando se exibiu acompanhado de outros grandiosos talentos da música brasileira e do mundo. Juntos, Tapajós, Gilson Peranzzeta, Sivuca e Jaques Morelenbaum, presentearam o público presente, com uma soberba apresentação. Foi mágico ver este quarteto, desfilando pérolas do universo musical. Sebastião Tapajós! Presente!”

 

O rio Tapajós do virtuosíssimo músico paraense transbordava a bacia amazônica como um mar revolto e desembocava em braços e abraços de igarapés infindáveis correndo febris pelos vales do mundo afora! Seu violão falante e tonante era antes de tudo uma peça artística cosmopolita, posto que era espanhol, português, brasileiro, francês e alemão ao mesmo tempo! Onde quer que ressonasse as cordas estilizadas de sua viola incisiva e sensível ao mesmo tempo, lá estaria gente de todo o planeta se encantando e aplaudindo o show do “Mestre dos Mestres”, como disse o Maestro Júlio Yriarte!

 

Do povoado de Alenquer, onde nasceu, para o mundo, Sebastião Tapajós se espraiou feito uma incontrolável onda tsunami sonora, percorrendo com ávido talento tanto o conservatório Nacional de Lisboa, os estudos de guitarra com Emílio Pujol, quanto a licenciatura em violão clássico no Conservatório Carlos Gomes, em Belém, onde exerceu a cátedra musical até julho de 1967.

 

Percorrendo as veredas da musicalidade nacional, tocou com inúmeras feras da MPB como Hermeto Pascoal, Jane Duboc, Zimbo Trio, Waldir Azevedo, Paulo Moura, Sivuca, Maurício Einhorn e Joel do Bandolim, e internacionais como Gerry Mulligan, Astor Piazzolla, Oscar Peterson e Paquito D’Rivera.

 

De sua biografia constam inúmeros trabalhos entre Cds e DVDs, tendo composto, em 1998, a trilha sonora do longa-metragem paraense Lendas Amazônicas.

 

O olhar empreendido neste momento é o de um articulista do Norte contemplando a magnitude artística de um grande artista, nascido na Amazônia e que agora se despede da vida. Por isso, guardo indelével a memória dos mágicos momentos em que pude vê-lo no exercício lúdico mas rigoroso do seu fazer artístico inigualável, empunhando seu violão e levando toda a plateia a embarcar em uma viagem fantástica aos sete anéis do Planeta Música!

 

Sebastião Tapajós detinha o título de doutor honoris causa, da Universidade do Estado do Pará e da Universidade Federal do Oeste do Pará. Mas, ao tocar, gostava mesmo era de se comportar como um Pajé da Amazônia, da tribo que lhe deu o sobrenome e o emprestou ao rio, servindo em poções mágicas cabaças cheias de beberagens, timbres, luzes, efeitos percussivos e variações sonoras brilhantes e comoventes!

 

Com sua passagem, ele deixa encantos, saudades, monumentos, prantos, musicalidade e belos momentos! E daqui por diante, quando perguntarem no vestibular qual o maior rio do mundo, respondam simplesmente: o rio Sebastião Tapajós!!!

 

 

(*) Antônio Serpa do Amaral Filho é escritor e jornalista/RO.

  • Compartilhe

Um comentário

Deixe um comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *