O retrato do passado serve como cartaz do filme do presente

 

 

 

 

Fotos: Arquivo Centro de Documentação Digital e Memória Olodum – CDMO

 

 

 

 

 

 

 

 

Naquela sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021, o Pelourinho, que já se encontrava parado em função do pandemônio provocado pelo corona vírus, quedou-se em um silêncio ensurdecedor pactuado com os tambores do Bloco Afro Olodum. Naquele dia,o Pelô não pôde entoar os versos do compositor Tatau, que dizem: “Sexta-feira eu vou subindo o Pelourinho/ Eu sou Olodum, saia do caminho”.

 

 

 

O Olodum é reconhecido mundialmente pela combinação das cores dos seus tambores, que são as cores do pan-africanismo: o verde, o vermelho, o amarelo e o preto. Reconhecido, principalmente, pelo ritmo do samba-reggae que percute dos mesmos tambores e que encanta aos cidadãos comuns, simples mortais -, mas também às grandes estrelas do mundo das artes e, em especial, da música, como aconteceu com Daniela Mercury, Gal Costa, Simone, Jimmy Cliff, Paul Simon e Michael Jackson, entre tantos outros.

 

 

 

Em muitos outros momentos do passado, os tambores do Olodum rufaram em alto e bom som, para protestar contra o racismo e reivindicar direitos para todos, em especial para o povo afro-baiano. Igualmente, em outros momentos, esses mesmos tambores se calaram em protesto contra a morte de um de seus músicos, covardemente assassinado por um preposto da Polícia Militar baiana. Desta vez, a voz dos tambores foi embargada por outro motivo, que diz respeito a centenas de milhares de brasileiros.

 

 

 

 

 

A sexta-feira, historicamente, marca o primeiro dia de desfile do carnaval do Bloco Afro Olodum. A cidade e a imprensa do Brasil e do mundo – blocos de anotação, microfones, câmeras fotográficas e de filmagens – voltam as suas atenções para a abertura do desfile, que em um primeiro momento, acontece entre a Rua das Laranjeiras, saindo da frente da Escola Olodum, indo até a Casa do Olodum, na Rua Gregório de Matos.

 

 

 

 

Neste local, a percussão, formada por 120 percussionistas, entre homens e mulheres, por aproximadamente 1 hora, se exibem, fazendo suas performances de toques e danças, antes de seguir para o Circuito Osmar no centro da cidade. Ali, desfilam arrastando multidões de pessoas que, ansiosamente, aguardam o rufar dos tambores do “Exército do samba-reggae”, como é chamado o batalhão formado por homens e mulheres de diferentes bairros de Salvador. Nesse roteiro, sempre empunham os seus tambores para fazer jus a um dos grandes sucessos do Olodum que afirma de maneira peremptória: … “A arma é musical/ Tocando reggae, tocando jazz, tocando blues/ Eu louvo a Jah eu digo/ já chegou o Olodum”.

 

 

 

 

Em entrevista concedida para o Portal de notícia G1 na sexta-feira em que se iniciaria o carnaval do Bloco Olodum, o cantor do Olodum Lucas de Fiori, ao refletir sobre este momento que mescla angústia, dor e sentimento de impotência, descreveu:

 

 

 

Hoje os nossos tambores estão em silêncio. Não apenas para dizer que não haverá carnaval, o tambor do Olodum silencia em respeito as pessoas que perderam as suas vidas para a Covid19![2]

 

 

 

 

 

 

Já a maestrina do Olodum, Andreia Reis, postou em suas redes sociais: …

 

 

 

E hoje, seria o grande dia !! O dia em que os tambores iriam Rufar em frente a casa do Olodum. Os sons da percussão invadindo o centro histórico, e nessa invasão iria consigo sentimentos… De felicidade, amor e gratidão. Estamos passando por momentos difíceis e delicado. Vamos ter mais respeito com a vida humana, vamos ter mais empatia com o próximo. Vamos respeitar[3]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Em 12 de fevereiro de 2021, segundo o Consórcio dos Veículos de Imprensa[4], uma vez que o Ministério da Saúde deixou de informar os dados consolidados de Covid-19, eram registrados mais 1.204 mortos em um intervalo de 24 horas pelo Brasil, contabilizando 51.546 novos casos, com uma média móvel de 45.519 novos casos em 7 dias, perfazendo até ali um total de 237.601 mortos e 9.765.964 casos, desde o início da pandemia.

 

 

 

 

Um estudo publicado em 24 de novembro de 2020 pela Faculdade de Medicina da UFMG[5]a respeito da mortalidade por Covid-19, em São Paulo, destaca que:

 

 

 

 

“Homens negros são os que mais morrem pela covid-19 no país: são 250 óbitos pela doença a cada 100 mil habitantes. Entre os brancos, são 157 mortes a cada 100 mil. Os dados são do levantamento da ONG Instituto Polis, que analisou casos da cidade de São Paulo entre 01 de março e 31 de julho. Entre as mulheres, as que têm a pele preta também morreram mais: foram a 140 mortes por 100 mil habitantes, contra 85 por 100 mil entre as brancas. Outro levantamento, desta vez pelo IBGE, mostrou que mulheres, negros e pobres são os mais afetados pela doença. A cada dez pessoas que relatam mais de um sintoma da covid-19, sete são pretas ou pardas… “

 

 

 

Em todo o Brasil, os dados não são muito diferentes. Foi por isso que o Olodum,que, desde sua reinvenção em 1983, está comprometido com a valorização da vida e com uma cultura de paz, como diz uma de suas músicas, “O Olodum é pela vida/ É pelo amor/ Mas que beleza…” silenciou os seus tambores em homenagem a homens e mulheres, negros e brancos que foram vitimadas pela pandemia.

 

 

 

O Olodum também calou os seus tambores, como forma de protesto ao negacionismo daqueles que falsamente intitulam a doença chamando-a de “gripezinha”, ou que incentivam as pessoas a irem às ruas e se aglomerarem além de propalarem criminosamente ideias tóxicas de que o uso de máscara seria ineficiente como barreira para o vírus ou prejudicial à saúde.

 

 

 

 

Afinal, vidas negras importam e todas as vidas importam. Por isso, respeitosa e silenciosamente, protestamos para que o Brasil e o mundo pudessem nos ver e nos ouvir. A imagem dos tambores silentes descansando sobre as pedras do Pelourinho rodaram o mundo e, mais uma vez, mostraram o compromisso do Deus dos Deuses Olodum com a preservação da vida.

 

 

 

 

Olorum Kossi Puré!

[1] Marcelo Gentil é licenciado em história pela UCSAL, especialista em Gerência Social pelo INDES/BID/EUA, compositor e Vice-presidente do Olodum.

 

[2]https://g1.globo.com/ba/bahia/noticia/2021/02/13/sem-carnaval-olodum-expoe-instrumentos-em-rua-do-pelourinho-tambores-estao-em-silencio.ghtml

 

[3] Idem

[4]https://g1.globo.com/bemestar/coronavirus/noticia/2021/02/12/casos-e-mortes-por-coronavirus-no-brasil-em-12-de-fevereiro-segundo-consorcio-de-veiculos-de-imprensa.ghtml

 

[5]PECHIM, Letícia: Negros morrem mais pelo covid-19 – acessado em https://www.medicina.ufmg.br/negros-morrem-mais-pela-covid-19/