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Sindicalista Clodsmidt Riani completa 100 anos

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O líder sindical Clodsmidt Riani nasceu, no dia 15 de outubro de 1920, em Rio Casca (MG),  filho de Orlando e Maria. Seu pai foi ferroviário da Leopoldina Railway Company e sua mãe não desfrutavam dos mesmos direitos dos atuais trabalhadores no Brasil. Era uma época essencialmente agrário e os trabalhadores eram submetidos aos desmandos coronéis de plantão.

 

Orlando, seu pai, amargou anos de trabalho sem os direitos previstos na CLT, o próprio Clodesmidt só viria a conhecê-la dez anos depois do ano em que começou a trabalhar numa fábrica de tecidos. Desde jovem aprendeu com o pai a consciência sobre as injustiças sociais e a necessidade da luta por conquistas para a classe trabalhadora.

 

Numa entrevista do Riani para jornalista Yacy Nunes, publicada na Gazeta Mercantil, em março de 2009, relembrou da sua amizade com o ex-presidente João Goulart:

 

‘Clodesmidt Riani era presidente da CGT no governo de João Goulart e ajudou a organizar o célebre comício da Central do Brasil, no dia 13 de março: “O presidente era um homem muito bom. É impossível descrevê-lo. Uma pessoa séria, digna, direita, que acreditava no futuro e era amigo dos trabalhadores. Eu o conheci na campanha para o aumento do salário mínimo, em 1953. Getúlio adorava o Jango, que pagou todas as dívidas da fazenda de Vargas e sabia falar sobre o arroz, a soja, a carne, a língua dos fazendeiros. Jango ficou encantado com Getúlio, em 1949. Perguntou ao ex-presidente: “”O que posso fazer?””. Vargas disse: “”Quero que me ajude a administrar o PTB””. Jango conseguiu fazer do partido o maior entre os trabalhadores do Brasil”, conta.

 

Segundo ele, Getúlio foi eleito duas vezes senador nas eleições de 1946, pelo Rio Grande do Sul e por São paulo. Jango foi eleito deputado. Em 1953, fui designado para negociar com ele, no oitavo andar do Ministério do Trabalho. “Eu era representante dos servidores públicos de Minas gerais, depois cheguei à CGT. Ele me atendia pessoalmente ao telefone. Viajamos aos EUA, em uma comitiva inesquecível, quando conheci o presidente Kennedy. Jango caiu do Ministério do Trabalho por causa dos coronéis, que não aceitavam o aumento do salário mínimo. O Getúlio, o João Goulart e o Tancredo Neves promoveram em Minas Gerais o primeiro Congresso dos Trabalhadores para estudar o aumento do salário mínimo”, acrescenta.

 

O IAPC, o IAPTEC, o IAPI, foram institutos de Previdência que seguiram até o governo Jango. “Era uma maravilha a relação de poder antes do golpe: patrões, empregados e governo. Jango era um espetáculo. Jogava futebol, tinha dinheiro de família, não precisava ser corrupto, era amigo dos amigos, fazia graça pelo fato de ser coxo (de uma das pernas), dizia que no Carnaval iria se fantasiar de coxo. João Goulart e Getúlio – e o próprio JK, que era uma pessoa muito prática – foram os presidentes que mais olharam a questão da classe operária. Lula também”, recorda Riani.

 

Mas, Jango era também amigo, lembra o ex-sindicalista. “A última vez que vi o presidente foi no Comício da Central. Havia até um telefone no palanque. Ajudei a organizar tudo. Antes de Jango chegar, ele ligou para o palanque: “”E aí, Riani, posso ir?””. Eu disse: “”O povo já chegou, presidente. Pode vir”.

 

Riani orgulha-se deter sido um dos melhores amigos de Jango, ao lado do ex-deputado e líder sindical José Gomes Talarico. Fundador do PTB em Juiz de Fora, ele foi amigo de Brizola e Itamar Franco, também foram filiados ao partido. Hoje, ocupa-se com a preservação do Museu do João Goulart e tem esperanças no futuro.

 

Pela sua eterna luta trabalhista era natural que Riani ingressasse no PTB de Vargas e de Jango, o que ocorreu em 1950. Pelo PTB foi deputado estadual, além de ter sido praticamente um conselheiro de João Goulart, tanto em seu período como Ministro do Trabalho, quanto como Presidente da República.

 

Riani nunca abandonou  a sua  luta sindical. Envolveu-se nas negociações que criaram o salário mínimo e o 13º salário. Ativista reconhecido e bem quisto por seus pares chegou à presidente da CNTI (Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria) e do combativo CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), embrião das centrais sindicais contemporâneas, quando organizaram as greves dos trabalhadores, com 300 mil, de 1953, e dos 700 mil, dez anos depois .

 

O líder combativo e reconhecido, Riani acabou sendo cassado e preso pelos militares no golpe de 31 de março de 1964. Foram anos duros, de repressão e de perdas. Mas ele não poderia estar de outro lado que não o daqueles que sofreram as perseguições do golpe, assim como Gregório Bezerra, Hércules Correia, Afonso Dellelis, o ferroviário Raphael Martinelli, seu amigo do CGT, a tecelã Maria Sallas Dib, entre tantos outros.

 

Com a anistia em Agosto de 1979, Clodesmidt foi pouco a pouco retomando sua ação política, sempre fiel aos compromissos com os trabalhadores. O sindicalista teve direito a uma indenização pelas atrocidades sofridas nos 21 anos de ditadura militar.

 

Por recomendação das centrais sindicais, Riani foi um dos homenageados pelo Grupo dos Trabalhadores na Comissão Nacional da Verdade. Na solenidade, foi enviado o relatório sobre a perseguição à classe trabalhadora durante o período do regime militar, a advogada Rosa Cardoso, coordenadora do grupo.

 

Riani foi o precursor do caminho das grandes lutas, conquistas e chega a ser a marca dos 100 anos em um Brasil muito diferente daquele tempo quando começou a sua honrosa carreira sindicalista.

 

É necessário que todos conheçam a história dos homens que lutaram e lutam por todos. Os trabalhadores brasileiros precisam de muitos Clodesmidts Rianis.

 

Sergio Caldieri é jornalista, escritor e diretor do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado do Rio de Janeiro
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