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Sete continhos mórbidos ou soturnos e um outro radiante

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Sete continhos mórbidos ou soturnos e um outro radiante, inspirados mais ou menos em fatos reais, próprios para ler num Dia de Finados com chuva

 



A ceia



Il a mangé le riz des morts;
Saint-John Perse



O pai, sumido no mundo. A mãe, lavadeira, vivia de biscates. Os quatro irmãos, magros como hashis. Uma vez por mês, o moleque oferecia uma ceia pra família: sashimi, sushi, mochi, oniguiri, frutas, verduras. Às vezes, uma garrafa de sakê. Obaasan e ojiisan Maruyama é que repartiam a comida com o menino. Os velhinhos eram hóspedes do Cemitério São Miguel, em Anápolis, isso faz 40 e tantos anos. Um dia a neta deles, Ayumi, flagrou o ladrãozinho. Ficou quieta. Mês seguinte, dobrou as oferendas. Agradecido mas envergonhado, o garoto passou a levar só metade do banquete. Nunca mais deixou o mato tomar conta do terreno. E sempre caçava um jeito de oferecer flores para os padrinhos no Obon, o Dia de Finados.



Esperança



Um homem distinto, não lembro se advogado ou professor. Faz muito tempo. No enterro teve discurso. Sobre o caixão, a bandeira do Brasil. Enquanto o corpo desce, pergunto por que não recolhem o Pendão da Esperança. Atiram torrões de terra e aplausos. Horror, a bandeira é sepultada também. Antes de voltar pra casa, passeio entre as ruelas com os números das casinhas de mármore pintados em placas de lata, que o vento tilinta. Aqui e acolá, um sabugueiro, um manacá, um pé de goiaba, um ror de flores. Até hoje o som de latas batendo me dá ânsia de Pátria & Morte.



Gota a gota



O pivete descalço só de calção na porta do Hospital Dom Bosco, perto do Banco do Brasil, em Anápolis. Na boleia de uma camionete, um garotinho sangrando pela cabeça no colo de um casal de lavradores. Junta gente. Por que não levam o menino pra dentro do hospital? Junta gente. O homem, a mulher, os olhos siderados. Nenhuma ruga se move. Junta gente. Parece que o dono da camionete atropelou o guri, trouxe a família e fugiu. Junta gente. Por que não levam o pirralho pra dentro do hospital? Junta mais gente ainda. Gota a gota vão se compondo o suspiro derradeiro e um soluço em figura de mãe. Quem levaria a sério um moleque descalço, quase pelado, fazendo perguntas bobas na porta do Hospital Dom Bosco, perto do Banco do Brasil?



Sangue



Sandrinha, 13, teve a primeira regra em Jaru, comunidade do Barreiro das Antas, Rondônia. Pouca surpresa, nenhum alarme, imensa curiosidade. Correu e contou pra mãe, que já tinha comprado absorvente. A menina nem dormiu naquela noite. Imaginou uma roda de conversa com as seringueiras. Primas – ela gritou – agora eu sou que nem vocês, eu também sangro! As companheiras caíram na risada. Dia seguinte, uma sexta-feira, Sandrinha repartiu a alegria com a professora. Na segunda, desabou no choro. Soube que a tia Tereza tinha sido demitida depois de uma denúncia anônima. Disseram que ela ensinava sem-vergonhices pros alunos e, pior, disse numa aula que a gente tinha vindo dos macacos e era parente das árvores, dos micróbios, dos vírus, das formigas, das antas, das onças, das cotias e até dos gambás. Na terça, Sandrinha não quis assistir a aula da nova professora. Foi se consolar com as primas da floresta.



Solo



Na porta do Hospital Metropolitano, o seu Tonho, entregador de iFood, desolado, mordido. Perdeu a mulher, Joana, 34 anos, a filha Aninha, 7, Paulinho, 11, e talvez perca Suely, 9, que perdeu um braço no desabamento do barraco no Morro Socó em Osasco, São Paulo. A televisão mostrou a terra deslizando, engolindo tudo. Só deu tempo de agarrar um braço da Suely, Deus sabe como. A porta do guarda-roupa prendeu e levou o outro, escorregando no buracão. Seu Tonho conta que o Paulinho, 6º ano, tinha estudado nem faz uma semana os tipos de desastres na aula de geografia. Moço, ele chegou feliz porque no Brasil não tem terremoto como no México, nem tsunami talequal na Tailândia, nem furacão igual no Haiti. Filho, disse eu, eu acho que nesses países não tem gente pendurado no morro que nem nós. O Paulinho riu da minha ignorância.



Subsolo



Três da tarde, chuva, vento, um frio do caralho, pouca gente em trânsito. Desço a escada rolante para acessar a boca da Estação Galeria. Viro à direita e vem na minha direção uma mulher com um bebê de colo pedir um trocado. Ela deixa a cria cair no chão, esparramando um berreiro. Digo que deixa porque tive a impressão de ter sido por querer. Parto pra cima da mulher aos berros, acusando-a de pinchar a criança pra me aplicar o golpe da compaixão. Misericórdia, o senhor acha que eu ia fazer uma barbaridade dessa? Começa a chorar. Eu me agacho e apanho o neném, trouxa de uma dúzia de panos. Para amortecer as quedas? Sim, eu me convenço de que a mulher é golpista. Dou-lhe cinco reais e saio bufando. Essa noite não prego o olho. E se eu tiver dado uma dica pra essa mãe desgraçada?



Devastação



Quase toda semana caía algum membro da confraria. Os amigos e amigas, na faixa dos 70, estavam sendo exterminados como moscas no mormaço de um veranico. Uma devastação!



Sem velório, a tristeza maior era a falta da despedida, agora virtual, nas _lives_, e também num site que o Alberto inventou. Da turma, era o que tinha mais facilidade para escrever, e assim ficou encarregado de compor e publicar os necrológios, às vezes uma elegia.



Para cumprir a tarefa, os amigos mandavam para o Alberto informações íntimas das vítimas. Um exemplo: a Silvinha, coitada, era arquiteta com doutorado pela Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne, especialista em gentrificação. Sabia tudo da reforma da cidade, executada pelo barão demolidor Georges-Eugène Haussmann na época do Napoleão III. E, vejam só, até declamava de cor o poema em prosa Les Yeux des Pauvres de Baudelaire, um retrato das dores do parto do modernismo. Mas Silvinha tinha outros talentos. Um ex-namorado contou que a sua torta de bacalhau devia ser comida de joelhos, ao ponto do êxtase.



As semanas corriam e um dia o zap de Alberto foi inundado com informações sobre a sua própria pessoa. Levou um susto, mas cogitou que a enchente talvez tivesse sido levantada pela tremenda tosse atroz que o atacara durante a _live_ da última quinta-feira. Era normal que os confrades e confreiras se preocupassem com a sua saúde.



Prático, Alberto resolveu poupar os amigos da chateação e tratou de preparar o próprio obituário. Por excesso de isenção, baseou-se exclusivamente nos relatos deles.



Tomado pela autocomiseração, acabou introduzindo um toque macabro nessa história enquanto batucava as pretinhas: ligou o Confutatis do Réquiem do Mozart, que, segundo reza a fake news inventada por Dona Constanze, e espalhada pelo Miloš Forman, o músico teria composto para si mesmo.



Sonda



Não nas vielas e impasses das entrelinhas, mas sob as linhas socavo sentidos, como se fosse uma lacraia arqueóloga. Escalavro as fundações das palavras até a coifa das raízes. E sondo as camadas mais fundas dos palimpsestos para desvendar enigmas antigos, novíssimos se desvelados. Tudo para no fim descobrir que a verdade está muito aquém da escritura, mesmo a do escriba mais genuíno. Está na vivência, trocas, fricções, planos falhados, conquistas. Está na “árvore dourada da vida”. Sadir Bhatt, o Dedo de Nanquim, levanta-se da sombra do velho umbuzeiro e chispa para o estúdio. Quer anotar o pensamento do dia, antes que se esvaneça com o suspiro do Sol. Sadir está inspirado apesar da maldita enxaqueca, irmã de criação

 

 




 

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