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Série | Um gato dentro de casa

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Texto 1 | Um gato dentro de casa

 

Metafórica série de três pequenos artigos, que mostram a nossa convivência com um sistema em tudo oposto aos nossos interesses: o poder financeiro e sua pedagogia colonial. Pobres felinos que dão alegrias a seus donos, mas o rabo de fora foi um ditado que nos surgiu tão espontaneamente que a ele nos sujeitamos, como se fosse um pet (!). 

 

“A tendência da competição é gerar seu contrário: a concentração. Portanto, para resguardar algo da economia de mercado, há que salvá-la de si mesma. O desenvolvimento industrial da Inglaterra foi mais lento do que o da Alemanha, cuja indústria é menos concentrada do que a britânica” (Adriano Benayon, Globalização versus Desenvolvimento, Escrituras Editora, SP, 2005). 

 

 

Texto 2 | O gato deixa o rabo de fora  

 

A tucaníssima revista “Piauí”, nº 179, de agosto/2021, publica matéria de Luigi Mazza, “O Apagão”, o caos na educação. Nenhum reparo à radiografia do Ministério da Educação (MEC) sob a gestão bolsonária e a obra do pastor, tremendamente evangélico, que o dirige (?). 

 

Diversas são as considerações possíveis e necessárias, que decorrem da situação que nos encontramos, hoje, no Brasil. Muitas têm origem aqui mesmo, nas elites que dominam este País desde a chegada de Tomé de Souza. Outras na revolução silenciosa que lançou o mundo, ao menos o ocidental, ou aquele que podemos denominar “mundo OTAN” ou, mais extensamente, anglo-estadunidense-judaico-europeu continental, nas referências de suas origens ou matrizes, no domínio de capitais apátridas, onde nem mesmo faltam os marginais, das drogas, contrabandos e ilícitos de toda ordem, residentes em paraísos fiscais. 

 

Especifiquemos um pouco mais estes capitais, pois suas força e presença, em toda estrutura da sociedade, são a base deste mundo de ódio e de mortes. 

 

O capital financeiro, como sabemos, começa, como elemento de poder, na sociedade inglesa medieval, a partir da propriedade fundiária, e ganha dimensão enorme com o absolutismo, quando a centralização político-territorial efetuada pelos reis só foi possível devido ao conúbio entre eles e os prestamistas, que, na prática, tornaram-se os fiadores do poder e os controladores das finanças régias, sob cujos auspícios desenvolveram-se o comércio internacional e as manufaturas nacionais, subjugados ao poder financeiro emergente. Assim, o poder fundiário passa a mercantil financeiro na Europa do século XV, e vai se transformando, exceto na Inglaterra que as finanças dominam os demais poderes, inclusive o industrial. É história, basta saber ler. Mas o poder industrial, independente do poder financista, se revela triunfante na colônia inglesa do outro lado do Atlântico, no que serão os Estados Unidos da América (EUA). Os Pais Fundadores da nação anglo-saxã-americana, George Washington, Thomas Jefferson e Alexander Hamilton à frente, sabiam que de nada valeria a independência política sem a independência econômica frente aos comandos financeiros londrinos. A Independência estadunidense não foi apenas contra a Coroa inglesa, mas contra seu esteio, a banca britânica. 

 

Temos, então, por mais de dois séculos, a luta entre os capitais financeiro e industrial pelo comando das relações monetárias e materiais. Atenção: não se trata de uma luta pela eliminação de um ou de outro, mas pela subordinação de um ao outro. No fim do século XX, após várias crises construídas, com a mídia dominada, o capital financeiro triunfa. Mas com uma porta aberta que transformará seu estilo e poder: as desregulações. Podemos até, com benevolência para estes criminosos, dizer que deram um tiro no pé. Porém, também é documentado, quem melhor aproveitou as desregulações, os paraísos fiscais, a facilidade e rapidez dos fluxos monetários foram os capitais “a vista” (cash) das drogas, de contrabandos de bens, pessoas e órgãos humanos, das prostituições, armas, guerras, corrupções, e todos os crimes de colarinho branco ou sem colarinho algum. 

 

A grande transformação do domínio financeiro nem foi econômica, mas psicossocial. Mudaram os valores da sociedade OTAN. Basta lembrar que o trabalho não mais dignifica o homem, mas a riqueza, venha de onde vier, ou a astúcia em contornar a lei ou o costume que é valorizado. A antiga ética protestante do trabalho diligente – encontrada, também, em países católicos, influenciados por ética monástica semelhante – dá lugar à ética hedonista e imoral da riqueza imediata, que, por definição, prescinde do trabalho, assemelhando-se, então, ao roubo e à pilhagem. 

 

Mas, como é evidente, há base na economia, apenas não se dá na economia produtiva, mas na especulativa, no cassino financeiro. 

 

Vejamos três indicadores difíceis de serem acompanhados, pois revelam a maior alteração que esta mudança, do poder industrial para o financeiro, provocou. 

 

O que significa o Produto Interno Bruto (PIB) senão a produção, o mundo dos bens reais. Podemos exemplificar que o PIB é o automóvel que está a sua frente, você o vê, o usa e o transfere fisicamente. 

 

Mas este automóvel pode estar sendo representado por um papel de dívida. O valor que obrigará o pagamento para a transferência do bem físico, ou se o automóvel constitui ativo de uma empresa, a ação que corresponderá seu valor no patrimônio daquela companhia. O papel de dívida e a ação são ativos financeiros, ou seja, não tem realidade material mas um sistema que protege o detentor do papel, que pode mudar conforme o interesse do poder dominante. Ele não tem a materialidade do automóvel. Uma cota de um Fundo de Investimento Imobiliário (FII) pode representar um imóvel ou outros papéis que o representem, e, obviamente, geram garantias distintas. 

 

E, ainda há um papel mais distante da realidade, são os derivativos. No exemplo do automóvel, não teríamos um papel representando o automóvel, mas centenas de automóveis em papeis, quando a materialidade é de apenas um. 

 

Temos então o PIB, que mais se identifica com o mundo real, os ativos financeiros, que já se distanciam bastante, e o mundo dos derivativos, totalmente independente da realidade. 

 

Não conseguimos ter para a mesma data estes três valores, mas os números obtidos, de entidades internacionais de economia e finanças são muito expressivos. 

 

O PIB mundial em 2020 foi avaliado em US$ 85 trilhões. 

 

Os ativos financeiros mundiais, em dezembro de 2017, eram computados em US$ 382 trilhões. Podemos imaginar que em 2020 seriam mais do que 4,5 vezes o PIB daquele ano. 

 

Estes ativos financeiros representam a soma das ações negociadas em bolsas de valores e de empresas fechadas pelos seus patrimônios líquidos, dos títulos de dívida, pública e privada, títulos imobiliários negociados no mercado e por fundos de “private equities”. 

 

Porém o mais fantástico eram os derivativos que apenas 14 grandes bancos internacionais produziram em 2014: US$ 710 trilhões. Uma incomensurável crise ocorreria se os possuidores destes papéis resolvessem realizá-los nos bens que deveriam representar. Os derivativos em 2020 com toda certeza representariam muito mais do que oito PIBs. 

 

Ou seja, a grande mudança das finanças no poder foi a transformação de uma economia de bens reais por uma economia de miragens, onde falsas realidades são criadas e replicadas incessantemente para mascarar as atuais relações de dominação, que atualizam o espírito da pirataria ao estado da arte da vigarice, a partir de instrumentos contábeis, especulativos e midiáticos criados apenas para essa finalidade. 

 

Diante desta fantasia, podemos então esperar que muitas outras irrealidades tomem conta da sociedade. Já vimos o rabo que o gato deixou de fora. Vamos procurar descrever este rabo felino.  

 

Texto 3 | O rabo que ficou de fora 

 

Em O Gato Deixa o Rabo de Fora demonstramos a irrealidade da economia nas mãos das finanças, o que foi obtido com a ideologia neoliberal e outras falácias, vendidas com intensidade pelo mundo, na segunda metade do século XX, e que chega ao poder na última década daquele século. 

 

Veremos agora alguns dos males trazidos por esta fabulação e suas consequências para a sociedade. 

 

Na área econômica, a elevação da dívida ao patamar de objetivo maior da política e da economia. Ora, caros leitores, a dívida sempre foi usada para o desenvolvimento. A pessoa física contraía dívida para ter seu imóvel residencial, bens de uso domésticos, mais caros do que os salários e remunerações pudessem adquirir à vista, e assim ia formando o patrimônio, com juros suportáveis para suas disponibilidades. Foi como os Estados Unidos da América (EUA) se constituíram na mais rica nação do planeta. 

 

A reversão desta situação ocorreu em 15 de agosto de 1971, quando, unilateralmente, os EUA romperam com o Acordo de Bretton Woods. Foi um tiro no pé, pois os EUA passaram a necessitar da guerra para manter seu protagonismo. Mas este é outro capítulo, que poderemos tratar posteriormente. A dívida como escravidão foi a arma anglo-judaica para submeter, no Reino Unido (UK), toda população, inclusive com a industrialização, e outros povos na ampla colonização, a partir do século XVIII, que o UK espraiou por todo mundo. 

 

Observemos a instituição criada em 1956, em Washington (EUA), que será usada para a escravização pela dívida, denominada Corporação Financeira Internacional (IFC), um órgão do Banco Mundial (WB). 

 

A IFC atua em cerca de 90 países, “voltada para o fortalecimento do setor privado”, “oferecendo consultoria, administrando ativos e investimentos”, para o que dispõe de capital da ordem de US$ 2,5 bilhões. No relatório de seu ano fiscal encerrado em 30 de junho de 2019, retiramos que seus compromissos de longo prazo, com recursos próprios, atingiram US$ 8.920 milhões, uma alavancagem de mais de 3,5 vezes (!). 

 

Porém, a era da escravidão exclusivamente por dívida já é passado. As finanças, aí incluídas as significativas parcelas de origem marginal, ilícitas, criminosas, têm agora por objetivo a nova pedagogia colonial, que não escraviza o bolso, mas a consciência, o fulcro da existência individual e social. A escravidão pelo bolso sempre é limitada pela finitude de recursos materiais e monetários. A escravidão pela consciência não, é tão infinita e ilimitada quanto ela. 

 

Como nossos cultos leitores sabem, a pedagogia colonial é o instrumento secular de manutenção do poder nas sociedades humanas. Um exemplo bastante conhecido é o da religião católica, na Idade Média, submetendo inclusive monarcas, nobres e senhores de terras, o que se dirá da população pobre, analfabeta e supersticiosa. Não negamos, contudo, a importância do catolicismo, naquele período, para a manutenção da unidade espiritual em tempos de fragmentação política e para a preservação da filosofia grega e das instituições romanas, bases da civilização ocidental. 

 

Vejamos como a IFC se credencia na área educacional, com base em seu próprio texto, em tradução livre. 

 

“O primeiro empréstimo do Banco para um projeto de educação foi feito em 1962. Desde então, tem se expandido tanto o volume de seus empréstimos educacionais, quanto a gama de atividades assistidas. O Banco ajudou a construir ou melhorar uma ampla variedade de instituições e de escolas primárias”. 

 

“O Banco apoia três formas de treinamento: geral para redução de desempregos no mercado de trabalho; treinamento nos setores rural e urbano dentro de projetos de desenvolvimento urbano ou rural; e para universidades e formação de professores. Educação básica, incluindo programas de alfabetização, tem recebido mais apoio nos últimos anos. O Banco apoiou o projeto vocacional e de treinamento agrícola”. 

 

“Igualmente desenvolve assistência para rádio educacional e televisão; para unidades educacionais móveis; para estudos educacionais; e para produção e distribuição de livros e materiais didáticos e equipamentos. Muita ajuda foi dada para melhorar o planejamento e a avaliação de programas educacionais”. 

 

“O Banco agora está como um dos maiores fornecedores de assistência e ajuda para o desenvolvimento educacional e formação. Investimento em pessoas é de importância fundamental no desenvolvimento dos países. Produz altos retornos para desenvolvimento econômico de longo prazo”. (The World Bank & International Finance Corporation, Washington, D.C., U.S.A., First printing: June 1983). 

 

Analisemos, com a maior das boas vontades, este projeto banqueiro de educação. Primeiro é necessário entender o que seja educar. É ter bons modos à mesa? É saber como se vestir e proferir frases delicadas e respeitosas com terceiros? É estar bem adestrado e conformado para produzir o máximo durante o maior tempo, com a menor retribuição possível? É repetir o que ouviu com muita fé e pouco entendimento? Tudo isso é encontrado nas respostas sobre o que é educação, quando a pergunta é dirigida a pessoas que não são da área do ensino. Mas, curiosamente, também a ouvimos de professores e, em especial, de religiosos que se arvoram em educadores. 

 

Educar, de acordo com manifestações de grandes brasileiros, educadores e políticos, é: 

 

“O brasileiro não crê em si, nem no poder do trabalho, e daí vem que ele só se educa para a vida passiva de empregado” (Manoel Olympio Rodrigues da Costa, 1872); 

 

“Num país onde o ensino não existe, quem disser que é conservador em matéria de ensino volteia as costas ao futuro, e desposa os interesses da ignorância” (Rui Barbosa, 1883); 

 

“Três princípio da Escola Nova: o primeiro princípio, porque constante em todos os sistemas renovados, é o respeito à personalidade do educando ou o reconhecimento de que deverá ele dispor de liberdade. O segundo resulta da compreensão funcional do processo educativo, quer sob o aspecto individual, quer social. O terceiro princípio abrange a compreensão da aprendizagem simbólica em situações de vida social” (Manuel Bergström Lourenço Filho, 1963); 

 

“Existem diversas forças e tendências em jogo na crise educacional vigente. De um lado, temos o desejo positivo da população por mais educação escolar e a imposição das necessidades de local e de tempo para esta educação melhor, mais eficiente e variada. De outro, temos nossa pobreza de recursos a buscar por uma falsa filosofia de educação, fundada em resíduos de uma teoria de treino da mente por estudos abstratos ou livrescos, reduzir a escola a turnos excessivamente curtos e o programa a disparatados exercícios intelectuais, transformando (o ensino) em puro formalismo ou farsa” (Anísio Teixeira, 1969). 

 

Por seis décadas, o Banco Mundial vem impondo seu projeto educacional na África: que melhoras ocorreram nas sociedades da Guiné, do Senegal, de Serra Leoa, Tanzânia e toda a área do Sahel (faixa de 5.400 km ao sul do Saara, composta, ao menos parcialmente, por 16 países) onde a IMF e o WB alocam recursos? Apenas a manutenção da exploração e da pedagogia colonial. 

 

A prioridade do pagamento da dívida, nas administrações dos países, obriga à educação que os escraviza. No final das contas, toda dívida financeira precisa ser vista pelo devedor como uma dívida espiritual, cujo pagamento, sempre insuficiente do ponto de vista do credor, induz novas e mais complexas formas de espoliação. 

 

 

Texto 4 | Ao redor do rabo do gato  

 

Vivemos no tremendo engodo de uma economia de cemitério, mórbida e inexistente. A economia de nuvens que não muda a cada instante, na alusão do experimentado político mineiro Magalhães Pinto. 

 

A nuvem que tudo nos ofusca, obnubila, é consequência da pedagogia colonial aplicada pelos novos donos do poder, após 1990: as finanças apátridas, residentes em paraísos fiscais, às quais não faltam capitais marginais, cada vez mais presentes nas decisões. 

 

Por isso, é uma dívida inauditável, porque, uma vez esquadrinhada, mostrará ser artificial, fruto de corrupções, dentro e fora do Brasil. Mas é esta dívida que dirige nosso País e serve de pretexto para não termos saúde, educação, habitação e transporte, como a imensa riqueza do Brasil nos permitiria. 

 

O filósofo franco-russo Alexandre Kojève (1902-1968) afirmava que “falar de uma coisa sem poder defini-la é, no fundo, falar sem saber do que se fala”. Nós tratamos de um bem público, do que interessa a todos os brasileiros, e que tem portanto a característica nacional. A primeira qualidade do projeto, seja para qual área se destine, é sua identidade nacional. Nada de cópias, nenhuma submissão às ideologias e soluções estrangeiras. Precisamos ter coragem, não ficar se espreguiçando como o gato no sofá. 

 

Portanto, estudar o Brasil, com afinco, para entender nossas raízes e, portanto, quem somos, de onde viemos e para onde podemos ir, é o primeiro passo para a libertação da pedagogia colonial. Devemos ser justos com nossos antepassados. Os fundadores da Escola Nova ergueram um modelo nacional, que os mais velhos, aqueles que estudaram nas escolas públicas dos anos 1940 e 1950, podem ter aproveitado, assim como os alunos dos Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), nos Governos de Leonel Brizola, na escola de tempo integral de Darcy Ribeiro (1922-1997). Foram as duas exceções, nos 521 anos de Brasil! 

 

Anésia Maria Costa Giglio, em artigo sobre sua dissertação de mestrado em educação, na Universidade Federal Fluminense (UFF), alerta: “além de a escola ignorar os estudantes como portadores de memória social e tudo o mais que essa dominação acarreta, ainda são as questões administrativas e os simulacros curriculares, com conteúdos fragmentados, descontextualizados e sempre fiéis ao livro didático, que mais tempo ocupam da formação dos professores”. E, mais adiante, no mesmo artigo escreve que “os jornais insistem em mostrar que muitos jovens estão prostituindo-se, drogando-se, traficando ou pichando. A grande maioria, porém, está buscando realização emocional e profissional” (Anésia M. C. Giglio, As “terceiras intenções” – ideologias – que marcaram e marcam a educação brasileira, Pesquisa em Educação, nº 1, EdUFF, Niterói, 2001). 

 

Como um jovem pode receber uma doutrinação em tudo oposta à realidade de seu cotidiano e desvinculada das necessidades nacionais? É óbvio que a educação Banco Mundial, para manter um país submisso e colaborador, no mínimo, será alienante. E só vai acrescentar mais dívida ao montante que já escraviza o país financiado aos interesses das potências anglo-euro-israelense-estadunidenses, que dominam, em nome dos capitais apátridas, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, a Organização Mundial de Comércio e congêneres. 

 

Em passado recente, o capital financeiro criou “crises”, um modo midiático de convencer os Estados Nacionais a transferirem recursos dos seus tesouros e mesmo de instituições privadas nacionais para o sistema financeiro internacional. 

 

Vejam, por exemplo: havia, nos anos 1970, falta de petróleo ou se vislumbrava alguma carência a curto e médio prazo? Muito ao contrário. Mas havia necessidade de colocar este insumo energético fundamental, o combustível fóssil, sem equivalente a qualquer outro, no rol dos bens manipulados economicamente por papeis, ou seja, por derivativos e não pelas quantidades físicas negociadas. Daí as “crises do petróleo”. 

 

E as crises de 1987 (Bolsa de Nova Iorque), 1990 (Japonesa), 1992 (Sistema Monetário Europeu), 1994 (México), 1997 (Sudeste Asiático), 1998 (Rússia), 1999 (Brasil), 2000 (Bolha da Internet), 2001 (Argentina), alguma diferença do que estes países e atividades faziam e fizeram antes das crises? Ou continuariam a fazer depois? Não, claro que não. Apenas o pretexto para transferir, por privatizações ou por dividas dos respectivos tesouros, recursos que dessem maior poder ao sistema financeiro internacional que acolhia, pelas desregulações e com o fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), os capitais das drogas, dos contrabandos, das prostituições e dos crimes em geral. 

 

Mas houve um aspecto verdadeiramente malévolo para todas as sociedades nacionais, inclusive as dos países que promoveram estas e outras crises: o desfocar da realidade e o mergulho no abismo da hipocrisia, das farsas, dos significados diversos para os vocábulos, em seus respectivos idiomas. 

 

E a religião, que andava um tanto afastada pelo desenvolvimento industrial e consequente sociedade de consumo de massa, ressurgiu na pior feição, da inquisição medieval, do obscurantismo, da teologia da prosperidade neopentecostal. Hoje vemos no Brasil a escolha do “tremendamente evangélico” para ocupar o posto que exige a qualificação de defensor, senão ao menos aberto, à “sociedade plural”, o que explica o descalabro em que se encontra o Ministério da Educação (MEC). 

 

Estes extremos são a saída para o emparedamento ou para glorificação, independente de méritos; pelo simples posicionamento, sempre muito oportunista, pois não há conhecimento nem vontade de questionar as convicções. De antepor a consciência à ignorância, a especulação à produção, o nacional ao apátrida, como se fossem apenas circunstâncias do momento, não decorressem de interesses e caracteres distintos. 

 

Então, o fantasma do comunismo é mais uma vez evocado para justificar a agressividade do capitalismo. Onde grita o medo, sai a razão, que demonstraria o caráter nacionalista e não ortodoxo do maior país contemporâneo que reivindica o marxismo-leninismo, a República Popular da China (RPC). É, na verdade, o nacionalismo, que o megaespeculador apátrida George Soros, identifica ser seu maior inimigo, e que as finanças e o neoliberalismo atacam. Ele sabe que comunismo é bicho papão, e as finanças não estão na primeira infância.   

 

(*) Felipe Maruf Quintas, doutorando em ciência política
(**) Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado. 

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