Boaventura de Sousa Santos acaba de publicar um artigo onde cita um sociólogo mexicano que  se refere  aos colonialismos internos. É algo a ser explorado (opa, visto) para entender a exploração de uma região sobre outra e suas teias.O autor português cita publicações que defendem virtudes do velho colonialismo.Sempre haverá uma caneta ou um teclado pilotado por alguma alma vendida para defender formas de exploração.

 

O colonialismo pretérito e presente segrega. E a segregação se expressa na atualidade nas cidades.Estas são fruto da ação humana. Em quaisquer tempos e territórios. Porto Alegre não é diferente. Negros e negras, nos primeiros escritos de quem falou da cidade, são citados sempre num espaço de labor primário, de exigência de força braçal, seja o descarregador do barco nos velhos trapiches do cais ou as lavadeiras com suas trouxas de roupas, a serviço dos mais abonados.

 

Luciana de Abreu deve ter sido a primeira negra a furar sua camada étnico-racial, pois apesar de ser posta na roda dos enjeitados da Santa Casa, fora criada por família branca da Praça do Portão, no século XIX.Luciana foi uma professora de destaque. Sinto-me feliz de falar nela, pois a escola que dera aula ficava onde hoje moro e de onde escrevo, no Centro Histórico.

 

Já no século XX, Wilson Tibério, filho de costureira/lavadeira, nasceu na barranca do Guaíba, pois sua mãe deu a luz ali,na labuta. Ele se tornou um gênio das artes plásticas, foi estudar em Paris elá morreu idoso, em 2005. Aqui, a segregação é tanta que nada se fala dele. Graças a Oliveira Silveira, nosso poeta já falecido, que ficamos sabendo dele.

 

A segregação está espelhada nas poucas nominações de logradouros públicos.Luciana de Abreu foi o primeiro nome de mulher, de mulher negra, dada a uma rua. E num bairro nobre, o Moinho de Ventos. No Centro Histórico temos apenas o nome de José do Patrocínio numa das vias que inicia neste bairro para terminar na Cidade Baixa.Em meu livro Certas Ruas de Porto Alegre traço um quadro parcial das nominações femininas, com as Ruas das donas, as Ruas da mulheres do povo.

 

No início os negros estavam pela Quitanda, atual Praça da Alfândega, depois na Paraíso, hoje Largo Glênio Peres/Praça XV de novembro, na beira do Guaíba. Moravam em casebres, muitos na Rua da Varzinha, atual Washington Luiz, ou no piso térreo das casas de seus senhores.De 1884 em diante quando o Rio Grande do Sul se adiantou e libertou os negros da escravidão foram para os campos da Redenção, tanto que dali se forma o núcleo do Areal da Baronesa, a Colônia Africana, ali pela Cauduro, no Bom Fim e se alastra pelo Rio Branco e Mont Serrat, para depois serem pressionados para  se mandar para o Partenon e nos anos 60 e 70 Célio Marques Fernandes e Telmo Thompson Flores, a manu militare, jogarem pessoas e apetrechos em caminhões e largar na Restinga.

 

Os negros não podiam morar nos becos, tinham que dar lugar ao progresso, à cidade que tinha que se modernizar, a qualquer custo. Foi assim que foram feitos com os casebres do Oitavo,muitos deles de prostitutas, onde é hoje a Praça Raul Pilla e a Rua Des. André da Rocha. Ou seja, a cidade não aceita o diferente, os pretos, pobres,prostitutas tem de dar espaço.Assim, caminhou Porto Alegre ao longo dos anos, vendendo a lenda de uma cidade açoriano, iniciada pelo boníssimo Jerônimo de Ornellas. Mas, na verdade, os dados põe por terra este mito, pois Porto Alegre é mais negra que açoriana. Lembrando que o Mercado Público de 1869 feito por escravos.

 

Lembrando os negros que o Vigário José Inácio não queria mais dançando e cantando na Catedral. E eles descem o topo da cidade para fazer a sua Igreja do Rosário para depois ser botada abaixo.Até pouco tempo atrás a cidade não tinha uma dimensão do Bará do Mercado, pois ele deveria ficar restrito a negros/as. Mas a expansão do batuque aqui fez com que ele brotasse ali como ponto central das quatro entradas do Mercado.Com a proposta da privatização do Mercado, o significado e importância do Bará do Mercado se espalhou pela cidade.Ficamos sabendo mais dos negros, do Príncipe Custódio,das floras, das entradas, dos caminhos que o Bará nos abre.Estamos no rumo aos 250 anos da capital, mais uma razão para fazer uma arqueologia de sua verdadeira História. Este é nosso propósito aqui. – #poa250

 

(*) Adeli Sell é escritor, consultor e bacharel em Direito – www.adelisell.com.br – adeli13601@gmail.com – whats 999335309