Poetas homenageiam a revolução de Cuba no Dia da Rebeldia Nacional Cubana – 26 de Julho

 

 

Vários poetas brasileiros se reuniram hoje, 26 de Julho, online no Facebook, para ler poesias em Solidariedade à Revolução Cubana. O recital foi organizado por Cláudio Daniel e os Três Mal-Amados.

 

De todos os belos poemas recitados, publicamos aqui três poesias das brasilienses Angélica Torres, Maria Lúcia Verdi e Luciana Barreto. Além dos poemas da cubana Mirta Aguirre (18/10/1912 – 8/8/1980), traduzida por Angélica Torres e Hélio Doyle; do cubano Miguel Barnet (28/1/1940), traduzido por M. L. Verdi, e de Roberto Fernández Retamar (9/6/1930), traduzido por Tradução de Jeff Vasquez.

 

Essa é uma justa homenagem à Revolução Cubana no momento em que os Estados Unidos redobram seus esforços para tentar destruir o que resta da economia de Cuba. Após 60 anos de resistência e dezenas de Resoluções aprovadas na ONU contra os embargos econômicos estadunidense, o povo cubano continua recebendo solidariedade dos brasileiros.

 

 

A seguir, os poemas escolhidos:

 

Caribenha

Angélica Torres

Epifania no mapa
das minhas crenças
: a Ilha sob o fogo
violeta do planeta.

Cuba Velha
Havana Bela
descaso do mundo

Nuvens se esgarçam
sobre suas luzes.
Asas que me trazem
de volta arrastam
para ela meu olho.

Em meu peito incendiado
por sua luta à liberdade
o crepúsculo ecoa.

(Poema de 1997, publicado no livro O Nome Nômade, em 2015)


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Canção Antiga a Che Guevara

Mirta Aguirre

Onde estás, cavaleiro Bayardo,
cavaleiro sem medo e sem mácula?
— No vento, senhora, na fenda
que aciclona a chama em que ardo.

Onde estás, cavaleiro bonito,
cavaleiro sem mácula, destemido?
— Na flor que à minha vida consinto:
no cardo, senhora, no cardo.

Onde estás, cavaleiro o mais puro,
cavaleiro o melhor cavaleiro?
— Acendendo a tocha guerrilheira
no escuro, senhora, no escuro.

Onde estás, cavaleiro o mais forte,
cavaleiro da aurora incendida?
— No sangue, no povo ferido,
na morte, senhora, na morte.

Onde estás, cavaleiro já inerte,
cavaleiro já imóvel e andante?
— Naquele que tem meu escudo
e a sorte, senhora, a sorte.

Onde estás, cavaleiro de glórias,
cavaleiro entre tantos primeiro?
— Na saga da morte que morro
fazendo História, senhora, História.

(Tradução de Angélica Torres e Hélio Doyle)


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Isla Infinita

Maria Lúcia Verdi

Cuba que me povoa, me tira o sono
Me alerta, me questiona
Essa Cuba que me desperta
essa ilha, esse espaço de sonho que desconheço
onde lutei por liberdade em 59
Esse território ancestral, atávico, além do limite da ilha,
a isla infinita de que falou Cíntio Vitier
Desde o meio da noite me pergunto
sobre esse espaço de luta

E por fim escuto vozes, ecos distantes
Escuto vozes que desde sempre clamam
Em todas as línguas, o mesmo
Vozes que não silenciam
Que repetem o mesmo grito
E compreendo:
essa ilha infinita está na fala que exige por lá
e em toda parte
soberania, justiça, autonomia

Em Cuba lateja um desejo,  universal desejo
Latejando lá, lá onde os símbolos resistem


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Che

Miguel Barnet

Che, tu sabes de tudo
As curvas e meandros da Serra,
A asma sobre a grama fria
A tribuna
As ondulações na noite
E até de que são feitos
Os frutos e as parelhas de bois
Não é que eu queira trocar tua pistola
Por uma caneta
Mas és tu
O poeta

(Tradução de M. L. Verdi)

 


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1959

[Em solidariedade a Cuba]

Luciana Barreto

Por vezes a travessia não transcorre
em deserto-mares-miragens
mas em solo
em selva
em serra
na marcha-a-marcha resoluta
no brado audaz de homens bons

Por vezes travessias alcançam
aquele ponto do mapa e do          atlântico
aquela ilha riscada a faca
(as margens são firmes
as muradas, magníficas
e as ondas rebentam dentro)

Ali no gesto-a-gesto destemido
o coração rubro da revolução
a fuga rasteira do tirano
E nos ombros da latina América
o aceno largo
a flor-mariposa
a guitarra antiga
a alegria há tanto guardada

Em azul, blanco y rojo
o milagre possível
incandesce comovido
: el Tocororo
– enfim –
reacende o canto
estende as plumas
recobra o voo
e – em paz –
tolda o mundo.

 (*) Tocororo é o pássaro-símbolo de Cuba.


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Felizes os normais

Roberto Fernández Retamar

Felizes os normais, esses seres estranhos,
os que não tiveram mãe louca, um pai bêbado, um filho delinquente,
casa em lugar nenhum, uma doença desconhecida,
os que não foram reduzidos a cinzas por um amor devorador,
os que viveram os dezessete rostos do sorriso e um pouco mais,
os cheios de sapatos, os arcanjos com chapéus,
os satisfeitos, os gordos, os lindos,
os rintintin e seu séquito, os que “como não, por aqui”,
os que ganham, os que são queridos dos pés à cabeça,
os flautistas acompanhados por ratos,
os vendedores e seus compradores,
os cavalheiros ligeiramente sobre-humanos,
os homens vestidos de trovões e as mulheres de relâmpagos,
os delicados, os sensatos, os finos,
os amáveis, os doces, os comíveis e os bebíveis.
Felizes as aves, o estrume, as pedras.
Mas que deem passagem aos que fazem os mundos e os sonhos,
as ilusões, as sinfonias, as palavras que nos destroem
e nos constroem, os mais loucos que suas mães, mais bêbados
que seus pais e mais delinquentes que seus filhos
e mais devorados por amores calcinantes.
Que lhes deixem seu lugar no inferno, e basta.

(Tradução de Jeff Vasquez)


 

 

Publicado, originalmente, em Brasiliários