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São Paulo: não há o que comemorar

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A maior cidade da América do Sul, São Paulo, completa 467 anos nesta segunda. Só que o presente mais esperado pela população da capital e do estado está longe de chegar. Espetacularização e disputas nos âmbitos estadual e federal não viabilizam a vacinação contra a Covid-19. A imunização caminha a passos lentos, ante a marcha forçada do vírus.

 

Não adianta ir aos postos de saúde, ainda não há vacina sequer para atender aos profissionais. E a quantia disponível está sendo mal distribuída, com destaque para a falta de priorização dos profissionais de saúde que trabalham na linha de frente, em contato com o vírus. Essa questão já está com o Ministério Público de São Paulo, na pessoa da promotora Dora Strilicherk, que exige do governo Dória explicações para o Hospital das Clínicas ter 60% do seu quadro de 40 mil funcionários imunizados (24 mil), segundo apuração do Sindsaúde-SP, incluindo trabalhadores dos setores administrativos e trabalhadores em home office (trabalho em casa). Além de outros segmentos que também passaram à frente desobedecendo às regras estabelecidas de profissionais de saúde, idosos, indígenas e quilombolas.

 

Prefeito Bruno Covas e governador João Dória, ambos do PSDB, com o presidente Jair Bolsonaro (18/11/20),
que agora brigam pelo espaço da direita, mas já foram aliados, como mostra o Instagram do prefeito.

 

Longe anos luz do papel de “herói” da vacina, o descaso da gestão Dória para com a população paulista não para aí. O Decreto nº 65.463, publicado no Diário Oficial de 13 de janeiro de 2021, suspende até 31 de dezembro na administração direta e autarquias os concursos públicos e não coloca o setor Saúde como exceção, em plena pandemia. Enquanto isso, trabalhadoras e trabalhadores da saúde morrem, adoecem e são sobrecarregados. E resgate-se ainda o corte de aproximadamente 800 milhões da Saúde para o orçamento de 2021, aprovado em 17 de dezembro, na Assembleia Legislativa.

 

O Estado de São Paulo soma 51.502 mortes por Covid-19, até o dia 24 de janeiro. Embora se intitule em estabilidade, a cidade volta a exigir rigores parciais de lockdown (o protocolo de isolamento), com exigência de fechamento do comércio em geral, às 20 h durante a semana e fechamento total nos finais de semana.

 

A arena de disputa de marketing pela vacina nas duas esferas de governo, apaga o protagonismo dos reais heróis e heroínas. Os cientistas que se debruçam dia e noite na busca da vacina, com destaque para a China, que fornece os insumos para a vacinação em todo o mundo e os Institutos brasileiros Oswaldo Cruz e Butantan, dentre outros, que mesmo com quadros reduzidos, tem profissionais que se desdobram para receber a transferência de tecnologia da China e prontamente adaptá-la às necessidades de atendimento à saúde das brasileiras e brasileiros.

 

O Brasil tem expertise e um histórico honroso de vacinação imunizando a população, tanto em campanhas de rotina, em doenças sazonais, quanto casos mais graves, como por exemplo, em 2010, quando da vacinação da H1N1, em que mais de 80 milhões de brasileiros foram imunizados em apenas 3 meses.

 

Um encontro virtual de ex-ministros da Saúde dos governos dos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, organizado pelo deputado Alexandre Padilha, contou ainda com a presença de Luiza Trajano e de Nelson Teich, ex-ministro do atual governo. Nas palavras de Teich “tem de ter estratégia, planejamento, liderança, coordenação, formação, execução boa e comunicação. Se falhar uma delas, principalmente se falhar muito, vai ter dificuldade. A Covid é uma doença que sobrecarregou os sistemas de saúde do mundo e vai sobrecarregar o nosso PNI (Programa Nacional de Imunização) também”.

 

O que falta, então, de entendimento a este governo? O momento que o Brasil vive é dramático. Um país como este, com a capacidade de produzir saúde, ciência e tecnologia de ponta, está à reboque, atrás da África do Sul que produz sua própria vacina, atrás de Cuba que mesmo em meio ao embargo americano (extinto no governo Obama, mas imposto novamente pelo governo Trump), já está prestes a aprovar sua vacina própria e até mesmo atrás de países como o Butão, no Himalaia, com menos de 1 milhão de habitantes, mas que produzirá sua própria vacina. O Brasil está na lanterna dos afogados, como em Jubiabá, a cidade de pescadores de Jorge Amado, cujas mulheres desesperadas aguardavam por seus maridos com lanterna e esperança.

 

O histórico de lutas do movimento social, sindical, sanitarista, dos parlamentares, de uma nação que contribuiu para o avanço na legislação na Constituição de 1988 e fez surgir o conceito de Seguridade Social em Saúde, Assistência e Previdência Social, originando um espetacular modelo de atenção à vida, copiado por vários países, o Sistema Único de Saúde. Esse SUS assegura o modelo de atenção por níveis de complexidade, da atenção básica, média à alta complexidade e ainda é o que salva o povo brasileiro – muito embora esse mesmo povo tampouco o reconheça. Ainda assim tivemos mais de 217 mil vidas desperdiçadas nessa pandemia, que tinha data e local marcados para acontecer, enquanto o brasileiro assistia estupefato às milhares de mortes no mundo. Lamentavelmente as mortes ao chegarem aqui, foram tratadas com escárnio, desdém e dia após dia assistimos a asfixia do povo brasileiro, diante dos olhares perplexos do seu povo, que agora reage.

 

Somente no sábado, dia 23, movimentos de trabalhadores e movimentos sociais saíram às ruas em quase 100 manifestações que explodem em todo o país. Uma Plenária reúne dirigentes e representantes das organizações das Frentes Brasil Popular Povo sem Medo, Fórum das Centrais, e das Campanhas Fora Bolsonaro e Brasil pela Democracia, exigindo urgência na entrega das vacinas e o impeachment de Bolsonaro, uma indignação crescente e que se soma à estupefação do restante do mundo diante das barbáries deste governo. Para se inscrever nessa plenária, clique aqui.

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