Publicidade

São 90 dias e muitos ensinamentos, mas a luta continua

  • em


Quem não passa no amor, aprende na dor… mais de quarenta e cinco mil (45.000) mortos no Brasil! Pelo menos, até agora.

 

Há exatamente três meses, um domingo de sol forte e praia lotada no Rio de Janeiro. Era fim de verão. Assim foi primeiro fim de semana da quarentena estabelecida por um decreto pelo governo do Estado.

 

Um ponto facultativo indicava o início do isolamento social como forma dos cariocas enfrentarem o contágio da Covid-19. Segunda-feira, 16 de março, carros dos bombeiros começaram a estacionar nas praias pedindo que as pessoas voltassem para suas casas. As escolas suspenderam as aulas – primeiro as estaduais e logo em seguida as municipais e as particulares.

 

A vida havia mudado no Rio, no Brasil, no mundo. Uma chuva de decretos estaduais buscava garantir o isolamento social, seguidos de alguns decretos municipais. Na semana seguinte à do dia 16, as mortes começaram a acontecer no município do Rio de Janeiro. No início, dezenas.

 

A ausência de ações coordenadas começou a ser sentida pela população carioca. Ações claras e objetivas não tinham harmonia entre o Estado e o município. Em relação ao governo federal, era como se nada de anormal estivesse acontecendo. As três esferas de poder – municipal, estadual e federal – não se coordenavam nem se entendiam.

 

Na terceira semana já existia uma campanha diuturna para convencer as pessoas a cumprir o distanciamento social como forma de prevenção, evitando aglomerações que favorecessem o contágio. Sabia-se que no Rio, por questões peculiares e históricas, o sistema de saúde pública não comportaria uma pandemia. Portanto, naquele momento ganhar tempo para as instalações dos hospitais de campanha era crucial.

 

Foi no meio da terceira semana que uma bomba se abateu no Brasil, cujos efeitos colocaram o Estado do Rio com o maior índice de letalidade do país e um dos maiores do mundo.  Não era só o coronavírus que teríamos que enfrentar. O presidente Bolsonaro declarou ao mundo que tudo não passava de uma “gripezinha” e nada de isolamento social. Que se danem as pessoas, o importante era a economia. “Vão morrer mesmo!!

 

Estava decretado o caos que hoje, três meses depois daquele ensolarado domingo de sol do fim do verão, coloca o Brasil como campeão de mortes por Covid-19, somente atrás dos Estados Unidos.

 

O Estado do Rio de Janeiro caminha para 8 mil mortes registradas. É certo, porém, que esses números oficiais são subnotificados. Imaginemos o Estádio Nilton Santos (Engenhão) cuja capacidade máxima é de 46 mil pessoas. Sim, é esse o número de pessoas mortas do Brasil pela tal “gripezinha”. E olha que a tal curva ainda continua subindo.

 

O número de mortos no Rio de Janeiro, seria capaz de lotar o Estádio da Conselheiro Galvão – o do Madureira cuja capacidade é para 7 mil.

 

Mas certamente, o genocídio no Brasil poderá chegar a ser do tamanho de um Maracanã lotado com 80 mil pessoas – ou mortos em se tratando do coronavírus. No Rio de Janeiro, podemos chegar a 20 mil pessoas mortas, o que seria a capacidade do estádio de São Januário, quando os reais números vierem à tona.

 

Neste fim de semana, notícias dão conta de que no Rio de Janeiro o número de pessoas com os anticorpos para o Covid-19 aumentou bastante. Por exemplo: em um universo de 7.286 pessoas que doaram sangue para o HemoRio, 28% delas foram identificados os anticorpos para a Covid-19.

 

Essa pode ser, sem dúvida, uma notícia maravilhosa a acalantar nossos corações. Afinal, os cientistas e pesquisadores da Fiocruz, UERJ e UFRJ consideram que o pico da doença no Rio pode ter ocorrido no final de maio e o início de junho.

 

A informação acima é importante e deve estar sempre acompanhada da manutenção do distanciamento social, do uso das máscaras e da necessidade de higienização com álcool em gel etc.

 

Isto pode ser um passo para a flexibilização da quarentena, como indicam e afirmam os cientistas. Pode ser, mas tudo ainda é cedo. Não deve ser o fim dos cuidados e da diminuição da circulação como arma de combate ao vírus. Afinal, o vírus só pode ser considerado neutralizado após a descoberta da vacina.

 

Foram noventa dias para termos alguma notícia boa após a proposta de quarentena, que podia ter durado 15 dias se tivesse sido respeitada. Mas aconteceu o contrário. Foi combatida pelo Governo Federal e por um setor obscurantista da nossa sociedade, que pela fé no lucro desprezam a vida.

 

Mas quais são as vidas cabíveis de desprezo?

 

Tudo como dantes no quartel d’Abrantes! Os primeiros casos de Covid-19 no Estado do Rio foram registrados em Copacabana e na Zona Sul. A primeira morte registrada no Estado foi de uma senhora de 62 anos, em Miguel Pereira, mas ela contraiu o vírus de uma pessoa recém-chegada da Itália e moradora da Zona Sul que sobreviveu, diferente do destino maldito da pobre empregada doméstica.

 

E em todo decorrer da pandemia no Rio de Janeiro e até agora a lógica do primeiro evento não foi modificada. Ao ponto que em determinada semana todos os jornais estampavam que enquanto Copacabana tinha o maior número de casos, Campo Grande, na Zona Oeste da Cidade, tinha o maior número de óbitos por Covid-19.

 

As vidas desprezíveis e que poderiam ter sido poupadas foram as mesmas que sempre são descartáveis, e vivem nos territórios sempre renegados desta cidade. Foram mais uma vez os mais pobres que morreram sem os hospitais de campanha, e que ficaram literalmente largados e sem ar. Enquanto a minoria mais rica que trouxe a doença para cá eram contrários ao isolamento social e sobreviveram nas suas UTIs e CTIs garantidas pelos planos de saúde caros.

 

Bônus – Os jornais também mostravam que na cidade do Rio havia uma relação interessante. Os bairros em que a “gripezinha” – lembra nosso outro problema? – tinha tido mais votos eram também onde havia o maior número de casos de Covid-19. Mas sempre mantendo a relação (Copacabana maior número de casos – Campo Grande maior número de mortos. Barra da Tijuca maior número de casos – Ilha do Governador maior número de mortos).

 

A verdade é que todo povo e nação quando passa por uma grande dificuldade como a atual, tende a se unir em esforços para lutar e defender vidas, e sair maior da adversidade. Isto acontece até mesmo em esforços de guerra contra outras nações (guerra que sempre é ruim e pressupõe eliminar vidas), mas nós saímos menores se é que saímos.

 

Somos menores em quantidade de brasileiros, e somos menores em qualidade de Nação. A pandemia deixará veias abertas e o Brasil combalido pelo câncer covarde que ataca todo corpo quando este tem baixa imunológica, e sufocado pelo câncer do fascismo.

 

As instituições brasileiras precisam de uma pulsão enérgica e rápida, e o pulmão do Estado Democrático de Direito de uma pleurodese para prevenir novos fluídos ou ares ruins de ditadura que não cabe mais no espaço da nossa história!

Danilo Firmino, do coletivo “Fala Subúrbio”, é compositor e líder comunitário.

 

  • Compartilhe