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Sábado tem Café Cultural com lançamento do livro Vadândora, de José Carlos Peliano

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A Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) lança neste sábado, 31/10, às 17h, em seu Café Cultural, o livro de poema Vadândora, de José Carlos Peliano.

Thiago de Mello, na Carta Prefácio: “…Num momento em que poetas de sua geração parecem empenhados em construir versos impenetráveis, poemas que eu simplesmente não consigo entender nem alcançar o que eles pretendem dizer, eis que você nos entrega este admirável livro, com poemas bonitos e muito bem construídos, e que nos dizem coisas, muito bem ditas.”

 

A atividade virtual pode ser acompanhada pelo Facebook e pelo Youtube da ABED. O livro pode ser adquirido por R$ 40 no site da editora – clique aqui – ou pelo Facebook e Instagram da Editora Patuá.

 

A capa desta edição é da artista gráfica Adriana Peliano. A Carta Prefácio é do poeta Thiago de Mello, que transcrevemos abaixo:

 

“Santiago, 22 de março de 1994.

 

Querido José Carlos,

 

Recebi hoje de tardinha e agora, noite na cordilheira, já li todinho e reli vários lindos poemas do seu Vadândora. Em voz alta, como pedem a cadência e a melodia dos seus sonetos. Estou feliz. Não pelo prêmio que você ganhou, por muito merecido que seja. Pela qualidade mesma de sua poesia, cujo poder de encantação alcança tanto a sensibilidade quanto a inteligência (acho que já lhe disse que a inteligência também tem sentimento).

 

Contente também porque os seus poemas são construídos com imagens e metáforas que permitem o acesso às suas intimidades. Num momento em que poetas de sua geração parecem empenhados em construir versos impenetráveis, poemas que eu simplesmente não consigo entender nem alcançar o que eles pretendem dizer, eis que você nos entrega este admirável livro, com poemas bonitos e muito bem construídos, e que nos dizem coisas, muito bem ditas.

 

Contente ainda porque este seu livro, posto que todo de sonetos, revela uma simplicidade de linguagem que só se conquista com muito trabalho. Escrever difícil, José Carlos, é fácil; difícil mesmo é escrever simples. Só o talento não basta para a construção da beleza poética. Você foi capaz dessa humildade que exige o trabalho. Estou orgulhoso de ser seu amigo.

 

Dos seus sonetos sem verbos, o melhor que posso lhe dizer é que nem me dei conta, durante a leitura deles, de tal proeza. Mas cuidado: não caia na tentação do malabarismo nem da acrobacia no seu amoroso convívio com as palavras. As palavras da poesia, você sabe, não gostam de circo.

 

Vou lhe mandar uns decassílabos contando um momento de felicidade de uma aranha lá da floresta. E vamos comer feijão verde com a carne regada a manteiga de garrafa e banhada pela ternura de Heliana. Muitas bênçãos para a sua casa.”

 

Conheça aqui alguns dos poemas de José Carlos Peliano:

 

Reverberação

 

Passo a passo um passado, uma aventura,
câmera lenta, rumo ao movimento,
um viajante comum, jornada dura
bagagem de alegria e sofrimento.

 

Bruma, muita paixão, muita loucura,
água viva no mar do sentimento,
em desordem o peito, ruptura,
salto à frente, mergulho atrás, tormento.

 

Coração trapezista pela rua
cada olhar mil mistérios ou nenhum
sob as tintas do sol e o giz da lua.

 

Entre os diversos sonhos sem jejum
somente uma certeza nua e crua:
conjugação suspensa e verbo algum.

 

O olhar

 

A paisagem que olho a olho ajeita,
não pelo olho, mas pela paisagem,
na visão mesma da esquerda e direita,
leva o ato encenar toda a mensagem.

 

Pelo olhar que as visões vão à sondagem,
a forma que o espírito aproveita
para atingir crescente aprendizagem,
composição de espectros é feita.

 

Faz-se pouco o infinito em toda imagem,
muito vai dar em nada em cada espreita,
pelas visões que exprimem a linguagem
de os olhos desejarem a colheita,
de os desejos olharem a montagem
da ilusão virtual e rarefeita.

 

O voo

 

Pelos céus se esquecer e se esquecer,
aos ares se lançar impunemente,
lograr um corpo eólico e demente,
invadir os limites de ascender.

 

Atrás do azul ir pela corrente
dos bons ventos que abraçam todo o ser,
no espaço aberto as asas distender
e deslizar completa e calmamente.

 

Alcançar outros pássaros sem rumo
e vagar devagar na imensidão
como um alegre bando vagabundo.

 

Lá de cima atirar o fio e o prumo
que equilibram a dor que o coração
sofre diante dos males do mundo.

 

Pedra

 

Arquitetura alguma te fez pura,
plural, intransitiva, indecifrável.
O infinito na tua face dura
com o universo em ti impenetrável.

 

Tens do tempo o silêncio inabalável
como sangue talhado ou noite escura
e a magia de ser imponderável
ao dançar pelo espaço em partitura.

 

Pedra filosofal, pedra angular,
pedra mármore, pedra de moinho,
qual segredo é o teu pedra, de onde vem?

 

Desde o musgo que em ti acha lugar
aos templos que sustentas em teu ninho
levas a vida muito mais além.

 

Pássara

 

Por entre as tuas coxas, delicada
e carinhosamente as coxas tuas
de mãos postas em prece abençoada
ao redor da paixão de fé das duas.

 

Feminina a paixão e bem cuidada
sob todos os sóis, chuvas e luas,
cativa em meio à concha desejada
por ondas sensuais de praias nuas.

 

Concha ardente com pele de veludo
na proteção do mar da cor da vida
de curso exato ao barco circundante,
atrás da tentação sem fim e em tudo
pérola do prazer sob medida
por mim, teu marinheiro navegante.

 

Enigma

 

Vem a ser,
mas não há,
quem viver
saberá.

 

Antever
só não dá,
esquecer
perderá.

 

Pelos anos
sobre os céus
vai pairar.

 

Sem enganos,
mesmo véus,
vai reinar.

_________________

 

Biografia

 

José Carlos Peliano é poeta e escritor de Juiz de Fora, economista, mestrado Vanderbilt/EUA e doutorado na Unicamp, mora em Brasília. Foi no IPEA técnico e coordenador setorial, no CNPq diretor de Instituto de Pesquisa e na Câmara dos Deputados assessor de economia e C&T. Membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia (ABED) e ANE (Associação Nacional dos Escritores).

 

Obras do autor:

 

Passagem de Nível, poesia, Galilei/Bsb, 1979.
A Faca no ar, poesia, edição do autor/Bsb, 1988 – Prêmio Raimundo Correa, menção honrosa ao poema de mesmo nome, Shogun/RJ, 1983.
Tetraedro e Águas Emendadas, poesia, Prêmio Jorge de Lima, menções honrosas, UBE/RJ, 1993.
Vadândora, poesia, Prêmio Jorge de Lima, UBE/RJ, 1994.
Os Pireneus e os Outros Eus, poesia, aceito Lei Rouanet, Relume-Dumará, RJ, 1996.
Dois Oceanos, poesia, Barbara Bela editora/Bsb, Prêmio Sec. Cultura/DF, 1999.
Brasilice, miniconto, Prêmio Sociedade Lewis Carroll do Brasil/SP, 2010.
Degrau por degrau, romance, Kazuá/SP, 2017.
A Casa Voadora, história infantil, Patuá/SP, 2019.
Instagram: #poemativo e blog www.janeladepoemas.blogspot.com
Poesias e contos em antologias, mídias sociais e imprensa escrita.

 

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