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Quando a solidariedade é o negócio – Entrevista com Celso Athayde, da Central Única das Favelas

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Em vez de lamentar dificuldades e limitações, Celso Athayde partiu para realizar seus próprios sonhos e os de milhares de moradores das favelas do Brasil. Foi com este espírito motivador que ele e os rappers Nega Gizza e MV Bill criaram, há vinte anos, a Central Única das Favelas (CUFA).

 

E assim, Celso Athayde resume seus princípios: “Onde eles [os pessimistas] veem carência, eu vejo potência; onde eles [os pessimistas] veem tristeza, eu vejo solidariedade; onde eles [os pessimistas] veem ameaça, eu vejo reação”. Por isso, a CUFA e a Favela Holding, presidida por ele, sustentam, com sucesso, seus negócios comunitários em todo o território nacional.

 

Celso Athayde nasceu no dia 28 de fevereiro de 1963, em Nilópolis (RJ – Baixada Fluminense), onde viveu até os seis anos. Aos 16, ele já havia morado em três favelas, abrigos públicos e na rua. Foi criado na favela do Sapo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Hoje é casado e tem três filhos.

 

Athayde é um autodidata, apesar de ter feito apenas o antigo curso primário noturno, é autor de sete livros, dos quais três são best sellers. Entre eles estão: Falcão – Mulheres, Tráfico; Falcão – Meninos do Tráfico; Cabeça de Porco e Um País Chamado Favela. Ele se desligou da CUFA em agosto de 2015 para fundar um grupo de empresas focadas nas favelas e seus moradores: a Favela Holding, a primeira empresa social de que se tem notícia. Atualmente, Celso é CEO da holding que detém mais de 20 empresas, todas com ações em favelas e periferias.

 

Apesar de não ter cursado universidade, Celso já palestrou em algumas das mais importantes faculdades do mundo, como a London School Economic, Harvard, MIT, Columbia University, entre outras.

 

Celso criou e liderou ações que se transformaram em referência, como o Prêmio Anu, realizado pela CUFA para destacar vários tipos de ações ocorridas dentro de favelas brasileiras e que contribuam para o desenvolvimento humano e social da comunidade.

 

Entre 2000 e 2003, Celso produziu o Festival Hutúz, realizado no Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro. A partir de 2004, passou a ser realizado no Canecão, mas em 2009 foi encerrado. O Prêmio Hutúz premiava os destaques do rap, tendo se tornado o maior evento de hip hop da América Latina.

 

A seguir, a entrevista concedida por Celso Athayde ao Jornal Brasil Popular:

 

 

Qual é a história da Central Única das Favelas (CUFA)? E qual é o seu ramo de negócios por meio da Favela Holding?

 

A CUFA é uma organização brasileira reconhecida nacional e internacionalmente nos âmbitos político, social, esportivo e cultural que existe há mais 20 anos. Foi criada a partir da união entre jovens de várias favelas, principalmente negros, que buscavam espaços para expressarem suas atitudes, questionamentos ou simplesmente sua vontade de viver. Criei a instituição junto com os rappers Nega Gizza e MV Bill.

 

Com o passar dos anos, a CUFA realizou diversos projetos ligados à cultura, à música e ao esporte. A fim de viabilizar financeiramente essas ações, criamos a Favela Holding, primeira holding social voltada para fomentar a economia das favelas. Hoje o grupo conta com mais de 20 empresas, que operam desde o comércio de passagens aéreas e pacotes de viagens para moradores de favelas até de logística de entregas de produtos de beleza em comunidades, feitas por egressos do sistema prisional, passando pela maior agência de live marketing em favelas do país.

 

Qual o seu cargo na CUFA e como a central está organizada nacionalmente? Como funciona a sua estrutura nacional e nas regionais? Vocês têm alguém em Brasília?

 

Hoje sou um voluntário da CUFA, como milhares em todo o Brasil. A CUFA está presente em mais de cinco mil favelas, nos 26 estados da federação e no Distrito Federal. Cada uma dessas favelas tem uma liderança da CUFA, que fica responsável por operar as ações da instituição, naquele território.

 

Estamos presentes em Brasília e o presidente da CUFA-DF é Bruno Kesseler.

 

Como funciona a comunicação entre as diversas CUFAs?

 

Temos um grupo de whatsapp com representantes da CUFA de todo o Brasil, com representantes de todos os estados e o DF. No período de pandemia, estamos fazendo reuniões semanais por videoconferência, com todos os representantes.

 

Como sobrevive a entidade? Doações? Convênios?

 

Através de parcerias e patrocínios das ações que implementamos em todo o Brasil. Além, de parte do faturamento da Favela Holding, que é a principal mantenedora da CUFA.

 

Como é garantida a independência da CUFA em relação a governos e partidos políticos?

 

A credibilidade da CUFA, construída ao longo de todo o tempo, garante essa independência. Obviamente, nesses mais de 20 anos, contamos com ajuda do poder público, em algumas de nossas ações, nos âmbitos municipal, estadual e federal. Mas, durante todo esse tempo, nunca fizemos campanha política nem subimos em palanque com político nenhum, em nenhum canto desse país. A credibilidade e a história da Central Única das Favelas falam por si só.

 

Quais são os principais projetos da CUFA neste momento, e quais você considera os mais relevantes?

 

O grande carro-chefe da CUFA, há tempos, é a Taça das Favelas, a maior competição de futebol entre favelas do mundo e acontece em todo o Brasil.. Tivemos que paralisar o projeto, por conta da pandemia. Já que, só no Rio de Janeiro, o torneio mobiliza 96 mil jovens anualmente. No momento implementamos o CUFA Contra o Vírus que leva doações e mantimentos para moradores de favelas, de todo o Brasil, que estejam passando por dificuldades, durante o período do confinamento. Além do Mães da Favela, que, pra mim, é o mais relevante do momento, também criado no período de pandemia, que fornece Vale Mães, no valor de R$ 120, para milhões de mães-solo moradoras em favelas de todo o Brasil e que enfrentaram dificuldades para sustentar seus lares durante a pandemia.

 

Como a CUFA fez para com conseguir recursos para sustentar esses programas durante a pandemia?

 

Pela primeira vez na sua história, a CUFA pediu doações. Devido à sua história, foi prontamente atendida recebendo muitas doações de pessoas físicas e realizando parecerias com grandes empresas, que viabilizaram essa ajuda humanitária a mais de cinco mil favelas de todo o território nacional.

 

Qual a papel da CUFA na organização dos movimentos sociais nas comunidades mais vulneráveis?

 

Imenso. Na Taça das Favelas, por exemplo, cada liderança mobiliza centenas de garotos e garotas, para montar a seleção de futebol da sua favela. Dando protagonismo social a esses jovens.

 

A CUFA tem algum projeto educacional?

 

A CUFA tem projetos educacionais em suas bases em todo o país. No Rio de Janeiro, por exemplo, embaixo do Viaduto de Madureira, em tempos de normalidade, temos oficinas de teatro, dança, contação de história, skate, percussão, basquete, futebol, DJ, informática, corte e costura, artesanato, entre outras atividades.

 

Fizemos parceria com o Facebook, em diversas ocasiões, e capacitamos milhares de empreendedores em favelas de todo o Brasil, em marketing digital, para usarem as redes em prol dos seus negócios. Em breve teremos outra grande parceria com o Facebook.

 

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