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“Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”

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Neste sábado (19), as redes sociais amanheceram e passaram o dia apresentando homenagens ao educador, filósofo, advogado, professor, pesquisador, pedagogo, pensador, escritor Paulo Freire. Se estivesse vivo, faria, neste 19/9, 99 anos. Para muitos, ele faz (e não faria). Apesar de combatido pelos adeptos do liberalismo e neoliberalismo, o legado é eterno e a própria figura do educador está viva como nunca.

 

Entre 14 e 19 de setembro, o Sinpro-DF mostrou, durante a Semana Paulo Freire – 99 anos, numa preparação para o centenário do educador em 2021, a atualidade da obra, do pensamento e do legado do educador. Nesta última matéria da série “Paulo Freire: vida e obra”, o sindicato apresenta a obra “Pedagogia do Oprimido”: a mais citada, estudada e colocada em prática mundo afora e também a mais combatida pelos empresários-políticos, banqueiros, latifundiários, escravocratas e fundamentalistas ultraliberais.

 

“Esta última semana foi muito importante porque a gente homenageou Paulo Freire, esse educador que dedicou uma vida a pensar uma educação que pudesse libertar não só na perspectiva da leitura, mas também na leitura de mundo”, afirma Berenice Darc, diretora do Sinpro-DF. Ela cita a “Pedagogia do Oprimido” como um dos clássicos do educador. “É o livro que mais teve repercussão mundial, em que chama professores e estudantes para a refletirem sobre seu papel no mundo”, lembra a diretora.

 

Pedagogia do Oprimido e o papel de cada um

 

Na obra “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire busca refletir acerca de como a educação escolar, especialmente a escola pública, está organizada para reproduzir os processos de dominação e de como a pedagogia e a metodologia de ensino desenvolvida nessa escola está a serviço da manutenção da realidade que o País vive, dos processos de dominação de classe, de opressão daqueles que tem menos recursos.

 

A professora doutora Olgamir Amância Ferreira, atual decana de Extensão da Universidade de Brasília (UnB), coordenadora do Colégio de Extensão da Andifes (COEX/Andifes), vice-presidenta do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas Brasileiras (FORPROEX) e professora aposentada da Secretaria de Estado da Educação do DF (SEEDF), explica o que é uma das obras-primas da educação: a “Pedagogia do Oprimido”.

 

Ela afirma que a escola executa essa dominação de uma forma, extremamente, sutil, por meio daquilo que Paulo Freire chama de educação bancária. “É exatamente uma educação na qual a relação entre as pessoas – entre professor e estudante – acontece numa perspectiva vertical. De um professor que tem saberes, conhecimentos, alguém que sabe tudo, e de um estudante que nada sabe, em que a experiência de vida e a perspectiva de vida do estudante não é colocada em movimento”.

 

Educação como instrumento de dominação

 

Na “Pedagogia do Oprimido”, Paulo Freire explica que a educação bancária existe no sentido de que, de um lado, está um professor que tem o domínio do conhecimento; e, de outro, um ser que não participa do processo, que seria apenas um receptáculo desse conhecimento, de forma passiva.

 

“A escola trabalha exatamente assim. Com essa relação de dominação, de transferência de conhecimento, ou seja, de um conhecimento que está, de um lado, e é passado para o outro desrespeitando tudo aquilo que as pessoas conhecem, que trazem de sua vivência, cultura, do seu ambiente, da sua realidade. Isso de fazer uma relação direta de um ser que sabe para um outro que não sabe, de forma passiva, é que ele chama de educação bancária. É o “método” usado nas nossas escolas para o processo de dominação”, explica.

 

Freire propõe exatamente o contrário. “Ele apresenta uma pedagogia dialógica, na qual o diálogo, a interação entre os sujeitos, acontece. Nessa interação gera transformações porque permite o confronto de conhecimentos, de saberes. Esse confronto de ideias possibilita o surgimento do novo, enseja conhecimentos novos. Permite colocar em xeque aquilo que está dado pela sociedade como uma verdade. As verdades são solapadas”, aponta.

 

Reforma do Ensino Médio retoma educação bancária

 

“Ora, o que isso tem que ver com a reforma do Ensino Médio? Tudo. Vimos trabalhando ao longo dos últimos anos para que a educação brasileira rompesse com essa lógica bancária, apática, passiva, de mera transmissão e se tornasse uma educação verdadeiramente crítica que envolvesse sujeitos com consciência da realidade e que, portanto, capazes de transformar essa mesma realidade”, afirma Olgamir.

 

Mas, com a reforma do Ensino Médio, em 2017, Lei nº 13.415/17, o Brasil retoma com toda a força a educação bancária. Olgamir explica que, “quando a reforma do Ensino Médio retira a autonomia dos sujeitos, quando reduz os tempos e a possibilidade do diálogo, quando ela rompe e institui itinerários, reduzindo o acesso ao conhecimento e não oportuniza o debate e o diálogo, está retomando aquilo que havíamos questionado antes, retomando outro patamar inferior de uma educação verticalizada. Também, no sentido de que se terá um Ensino Médio diferenciado, como Freire destacou no livro Pedagogia do Oprimido”.

 

Na obra, Freire denunciou, claramente, que há, no Brasil, uma educação para uns diferentes de uma educação que é oferecida para outros. No entendimento da professora Olgamir, “a reforma do Ensino Médio, além de eliminar a possibilidade de crítica, de reflexão consciente da realidade, também estabelece níveis diferentes de aprendizagem e de possibilidades distintas a partir dos itinerários”.

 

Com isso, os estudantes com melhores condições sociais cumprirão mais itinerários e, portanto, terão uma formação mais acabada. Os menos abastados, das classes populares, por sua vez, ficarão fora do sistema ou dentro do sistema, contudo, completamente fragilizados, com pouquíssimos itinerários na sua formação, o que não lhe permitirá o pensamento crítico e a chance de modificar a sua realidade, e sim apenas capazes de sobreviver na realidade que está aí instituída.

 

“É importante destaca que a reforma do Ensino Médio não é neutra. Com ela, o governo fundamentalista neoliberal promove uma a divisão entre concepção e execução, que é outra crítica que Paulo Freire faz na “Pedagogia do Oprimido, que ele diz que tem uma educação distinta para quem é o opressor e para quem é o oprimido. Ele aponta e demonstra essa diferença”, esclarece Olgamir. A professora afirma, ainda, que, na reforma do Ensino Médio, a partir dos itinerários, é feita essa diferenciação. “Ou seja, quanto se tem o Ensino Médio de tempo integral com muitos itinerários para um grupo diferente do outro. Voltou essa divisão da educação como se tem visto ao longo da história”.

 

Freire convida o(a) professor(a) para esperançar o mundo

 

“Na Pedagogia do Oprimido, Freire chama o professor a ser mediador na descoberta da liberdade pelos seus estudantes e, os estudantes, por sua vez, ele chama para serem libertadores de si mesmos na perspectiva do olhar a sociedade na qual ele é sujeito ou para que ele se torno sujeito e a sociedade que, nas perspectivas do Brasil, na época do livro e ainda hoje, é uma sociedade opressora, cujos espaços entre aqueles que dominam e os que são dominados são bem delimitados”, explica Berenice Darc, diretora do Sinpro-DF.

 

Ela informa que a ideia dele era a de que professores e estudantes se percebessem como tal e, a partir da percepção de dominado, pudessem se libertar. “Até mesmo se libertar da perspectiva que a própria pessoa tem de achar que é dominante: ‘Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor’. A ‘Pedagogia do Oprimido’ é um livro lindo”, assegura a professora e diretora do sindicato.

 

Para Berenice, é importante finalizar a semana afirmando a importância dele. “Paulo Freire vive! Em 2021, faremos um grande evento e espero que possamos estar em outras condições, livres da pandemia do novo coronavírus, para que nos encontremos, pessoalmente”, promete. Em Recife, 2021, no centenário de Paulo Freire, haverá o Encontro Latino-Americano em sua homenagem. “Espero que a gente possa fazer, lá, uma grande festa para este educador que tanto possibilitou a gente abrir os olhos no sentido de liberdade de expressão, de cátedra, do fazer pedagógico para levar nossos estudantes à reflexão de que eles podem transformar a realidade a partir da escola”.

 

Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro-DF, destaca a importância, no término desta Semana Paulo Freire, da atualidade do educador. “São 99 anos de Paulo Feire e, certamente, ele ainda vive entre nós todos os dias e, neste momento, em que a gente tem a classe dominante oprimindo, Paulo Freire é muito vivo”. É o momento de a gente relembrar mesmo e adotar seu legado. É o momento de a gente relembrar que a educação tem um papel significativo e forte, que é resistir à dominação. É por isso que agridem ao Paulo Freire e a educação libertadora, que ele pensou para a sociedade e fez em livros, em ações”.

 

Para finalizar a Semana Paulo Freire – 99 Anos e a série “Paulo Freire: vida e obra”, o Sinpro-DF convida a todos e todas, sobretudo professores(as) e orientadores(as) educacionais, a lerem a obra consagrada “Pedagogia do Oprimido”.

 

Confira, no site do Sinpro-DF, as matérias da série “Paulo Freire: vida e obra”, da Semana Paulo Freire – 99 anos (clique sobre os títulos das abaixo).

 

Sinpro-DF inicia Semana Paulo Freire com série sobre vida e obra

 

Paulo Freire cria método e alfabetiza adultos em 45 dias

 

Atualidade de Paulo Freire na pandemia do novo coronavírus

 

As raízes de Paulo Freire no Distrito Federal e no Brasil

 

Paulo Freire inspira lançamento da Conape 2022 nesta sexta-feira (18)

 

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