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Quando a China compra mais dos Estados Unidos que do Brasil

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A notícia pode ter passado despercebida pelo noticiário político: a China, num curto período, aumentou em 320% suas importações de soja dos Estados Unidos, ao mesmo tempo em que caíam muito as importações do Brasil.

 

Culpa do desdém com que o Brasil tem tratado a questão ambiental? Não, até porque, segundo a senadora Kátia Abreu, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, o agronegócio brasileiro até que não se tem comportado mal em suas práticas agrícolas. Culpa, sim, dos cacoetes ideológicos do governo, agora tolhidos pela saída do incrível Ernesto Araújo do Ministério das Relações Exteriores.

 

Desde o começo do governo, no qual durou também incríveis dois anos e tanto, Ernesto Araújo pôs em prática sua convicção ideológica e religiosa, de que o Brasil devia orientar sua política de comércio exterior por critérios que qualificava de “espirituais”, ou seja, pela identidade de valores filosóficos.

 

O Brasil, portanto, não devia estimular o comércio com a China, governada por um partido comunista, embora seja o maior comprador das exportações brasileiras e siga hoje um modelo econômico em que o capitalismo dispõe de largo espaço e de tais garantias que há anos é, no mundo, o país que mais atrai investimentos estrangeiros privados. O Brasil devia, sim, dar preferência ao comércio mais cristão com os Estados Unidos, naturalmente, naqueles momentos, os Estados Unidos de Trump.

 

Dando força a seu então ministro, Bolsonaro hostilizou a China, culpou-a pelo coronavírus e atrapalhou o quanto pôde a vacina chinesa que o Instituto Butantan desenvolvia e hoje atende a mais de 80% de nossa lenta campanha de vacinação. Felizmente falou mais alto a paciência que a milenar civilização chinesa aprendeu a praticar o governo e as empresas da China entenderam que Araújo e o próprio Bolsonaro não passavam de fenômenos passageiros e a longo prazo um país do tamanho, da população e das potencialidades do Brasil não pode ser deixado de lado.

 

Na mesma linha de estupidez, Araújo e Bolsonaro partiram para hostilizar a Argentina assim que a dupla Alberto Fernandez e Cristina Kirchner venceu as eleições presidenciais. Nem o fato de que a Argentina é o maior comprador das exportações industriais do Brasil, as de maior valo agregado, impediu que Bolsonaro se intrometesse na campanha eleitoral argentina, contra os candidatos que vieram a vencer.

 

Como cabo eleitoral, aliás, Bolsonaro não se limitou a ser derrotado na Argentina. Foi derrotado também nos Estados Unidos, com o despejo de Donald Trump. Ainda bem que o Centrão forçou o afastamento de Ernesto Araújo ou hoje o teríamos compelido por coerência a pedir o desestímulo ao comercio, agora menos espiritual, com os Estados Unidos de Biden.

 

Como os Estados Unidos de Biden não ignoram a escala e a importância econômica e geopolítica do Brasil – sobretudo agora, em face da disputa deles próprios com a China – a situação promete que só fiquemos provisoriamente na berlinda, mas que  nada de mais grave ou de grande consequência ocorra a longo prazo.

 

Na semana que passou, Bolsonaro foi tratado como merece na conferência de cúpula sobre o clima. Deixaram-no para o fim e nem Biden nem a Vice Kamala Harris permaneceram em seu lugar para ouvi-lo. Foi um gesto de indiscutível desdém com ele, mas não com o Brasil. Que ele prove de seu próprio veneno, sem interlocução com as duas maiores potências do planeta.

 

Ele agora tem de contentar-se, entre os maiores países do mundo, com parceiros como seu amigão da India, Narendra Modi, ambos produto das alquimias eletrônicas de Steve Bannon, o estrategista e pregador da nova cruzada espiritual que pretendia levar o mundo de volta a um passado medieval de intolerância e fechamento de horizontes.

 

Como o Brasil tem vivido uma história reflexa, em que certas coisas só acontecem aqui depois de ter acontecido em outros quadrantes do mundo – caso, por exemplo, da abolição da escravatura – parece que teremos de esperar ainda algum tempo para despertar do pesadelo.

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

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