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Projeto “Esquerda Compra da Esquerda” explode no Facebook, lança selo e quer conquistar mais “corações e mentes”

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O angustiante ano de 2020, se encerra com uma pandemia sem precedentes no mundo, a Covid-19, doença causada pelo coronavírus, que já atingiu mais de 71,3 milhões de pessoas, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, a Covid-19 contaminou, até agora, 7,2 milhões de pessoas, levando à morte 187.322, segundo levantamento do Consórcio de Veículos de Imprensa, desta segunda-feira, 21. Termina, também, com um forte sentimento de desesperança, diante da ascensão do ultraconservadorismo e dos fundamentalismos.

 

No Brasil, este ano se encerra com mais desigualdades sociais e econômicas, novas perdas de direitos e privatizações, e com o povo sofrendo todos os males de um governo obscurantista, negacionista, antidemocrático, violento e necrófilo.

 

Mas, nem tudo está perdido. O ano termina com uma nova esperança: a possível construção de uma nova forma de produção e de consumo, capaz de fazer frente à selvageria do capitalismo. Trata-se do projeto Esquerda Compra da Esquerda (www.esquerdacompradaesquerda.com.br), surgido há cerca de um ano, e que, estruturado no mundo virtual, há dois meses, já reúne mais de 56 mil pessoas cadastradas no Facebook, a maioria brasileira, mas, residente em 381 cidades de 31 países.

 

Idealizado por Érica Caminha, artista plástica e militante dos Direitos Humanos, residente na Alemanha, desde 2013, o projeto iniciado por meio de uma cooperativa, migrou para as redes sociais e ganhou recentemente, grande reforço com o ingresso do especialista em negócios online, plataformas robustas de e-Commerce, Bruno Elói.

 

Eles se conheceram há pouco tempo, mas estão muito identificados com o projeto, que Bruno diz sonhar com ele, há pelo menos uma década. “O projeto começou, de fato agora, mas eu penso nele pelo menos nos últimos 10 anos. Trabalho com negócios online e sempre sonhei em adaptar aquele macro sistema em um micro sistema, sem os especuladores. É dentro dessa estrutura de valorizar o trabalho e o tempo das pessoas que o projeto inteiro está sendo pensado”, declara entusiasmado.

 

Como explica Érica Caminha, o projeto tem como alvo, pessoas que pautam suas vidas, emoções, escolhas e práticas em favor de justiça social, defesa do meio ambiente, democracia, solidariedade, sororidade e empatia. Segundo ela, a iniciativa visa, em primeiro plano, “valorizar o dinheiro e o tempo das pessoas da esquerda que produzem e que desejam ter uma postura política no campo econômico”.

 

“_ Esta ideia consiste de estimular pessoas de esquerda e progressistas a comprarem de outras pessoas do mesmo espetro político, que produzem e vendem serviços, produtos, artesanato e artes e que atendem demandas de outras pessoas ou grupos sociais”, afirma Caminha.

 

Para Bruno, “o boom vem da paixão por um mundo melhor e de podermos decidir onde aplicamos nosso poder de compra. As pessoas não pagam nada para encontrar seus consumidores, ou seja, tiramos o elemento invisível do mercado que nos escraviza que é o especulador”, reafirma.

 

Neste contexto, os idealizadores esclarecem que o site é 100% gratuito, não havendo taxa de inscrições, nem sendo permitido o recebimento de dinheiro ou de produtos e serviços. Em estágio de organização no campo jurídico, o projeto teve seu selo de verificação de boas práticas lançado no último dia 15 de dezembro. “Estas boas práticas são cobradas de quem compra e de quem vende. Em outras palavras, o selo é o uso das armas usadas contra nós, a nosso favor”, explica Bruno.

 

Um dos pontos do Esquerda Compra da Esquerda é o potencial humano, percebido pelos que ingressam nele, e que Bruno explica, didaticamente.

 

“_ Qual é o nosso principal ativo, enquanto seres humanos? É o tempo, que é totalmente ocupado pelo neoliberalismo, não restando tempo para pensar; só para produzir e pagar contas. O empreendedor, por exemplo, sem ter lei trabalhista que o proteja, questiona que poder ele tem, neste cenário neoliberal, com ameaças à democracia e ao contraditório. A resposta que ele encontra é o seu poder. E qual é o seu poder, se não for o de compra? Um poder de compra que lhe permite comprar de quem quiser”.

 

Outra percepção é o sentimento de pertencimento. Bruno fala sobre as histórias sociais de muitas pessoas que se percebem pertencentes ao grupo.

 

“_ Esse projeto é um baú de grandes histórias, para a gente aproveitar de alguma maneira. Mas, não é história de gente que ficou rica, e sim, de quem está vendendo pano de prato, bonecas de pano e de porcelana, cachaça caseira, ou livros; de profissionais de diversas áreas, que se sentem acolhidos, protegidos e valorizados”, relata.

 

Há, também a solidariedade. Como destaca Érica, o projeto não fala apenas de vendas, mas, também, de companheirismo, “da conquista de novas e prazerosas amizades, entre pessoas maravilhosas, com suas histórias de vida, dignas de estarem publicadas em livro”, como ela destaca. De fato, apenas em uma rápida passagem pela time line do facebook do Esquerda Compra da Esquerda, já dá a dimensão dele e das várias histórias de pessoas que já estão vivendo experiências exitosas e até mesmo revitalizando as esperanças.

 

Embasado na linha do estudioso Paulo Freire, o projeto busca trabalhar “no micro para fazer diferença e mudar o macro”, como explica Caminha, reconhecendo, no entanto, que o macro é um campo de difícil possibilidade de mudanças, tendo em vista ser o lado onde estão as forças do sistema opressor, no caso, o Poder Judiciário, os militares, os ultra religiosos (pentecostais), a máquina pública, os armamentistas e o mercado.

 

Na visão de Érica, o poder aquisitivo das pessoas de esquerda e progressista é muito desvalorizado pelo mercado, apesar de ser um segmento que movimenta bilhões por ano, só no Brasil. É neste cenário de desvalorização do poder aquisitivo da esquerda, que ela enxerga alternativa para se sonhar com uma nova forma produção e de consumo.

 

“_ A única língua que este campo entende é a do dinheiro. No momento que a gente conseguir criar uma sociedade de consumo em que se compre e se consuma de quem respeita pelo menos os direitos humanos, a gente poderá lutar um pouco mais contra a barbárie que está tomando conta do Brasil”, defende a ativista

 

Neste sentido, ela marca o campo onde o projeto se firma: “Nossa meta é transferir o poder de compra dessa parcela da sociedade para uma bolha à esquerda, no âmbito da economia”. Caminha é reforçada por Magrão, outro integrante do projeto, que, contrariando orientações de especialistas da comunicação digital, de que “é preciso furar a bolha”, defende que o mais importante neste projeto “é ampliar a bolha, envolvendo cada vez mais pessoas da esquerda”. Bruno, finaliza a questão, afirmando: “Nossa ideia é sair de uma bolha que não nos pertence”, referindo-se ao mercado.

 

À esquerda se pode identificar como bolha, a legião de esquerdistas e progressistas no Brasil e em vários países do mundo, que, fugindo de uma conjuntura de crises – econômica, social, sanitária e política – se encontram e se identificam em um espaço virtual e passam a fazer seus negócios, vendas e projeções.

 

 

Nova sociedade de consumo?

 

Impossível prever a possibilidade do surgimento de uma nova sociedade de consumo, apenas a partir do agigantamento do Esquerda Compra da Esquerda. Todavia, essa é a intenção dos seus idealizados, que o apresentam no site como “Uma ideia simples que se transformou em projeto de uma sociedade de consumo, que privilegie nosso campo político”.

 

Mesmo assim, comedido, Bruno esclarece que o projeto visa, inicialmente colocar lado a lado ofertas e demandas, sem os especuladores, que fazem do tempo do trabalho commodities. “Em um segundo momento, queremos criar um pequeno bloco econômico, formado por produtores e consumidores de serviços, produtos e conteúdos e em que nosso poder de compra retroalimente nossa dignidade pelo trabalho”, acentua.

 

Na perspectiva de crescimento do projeto, Érica antecipa outros atrativos que deverão movimentar a plataforma virtual futuramente, tais como escambo, doações de objetos e animais, criação da seção de carros e até o cantinho de flertes entre participantes.

 

Alguns Sinais

 

De acordo com Érica Caminha, hoje, já há consumidores de esquerda que optam por não comprar em lojas de direita e que já procuram empresas de pessoas de esquerda.  No Brasil, podem ser destacados exemplos de consumidores que deixaram de comprar em lojas e supermercados de marcas fortes – Pernambucanas, Americanas e Riachuelo – e passaram a comprar no Magazine Luíza, cuja proprietária, a empresária Luiza Trajano, se posiciona ao lado de lutas sociais, por justiça, igualdade e oportunidade entre raça e gênero.

 

O caso mais recente dessas manifestações se deu com o assassinato do negro João Alberto Silveira Freitas, espancado até a morte por seguranças e policiais de um supermercado da rede Carrefour, em Porto Alegre. O crime, visto por milhões, nas redes sociais, gerou uma onda de indignação, com manifestações, críticas e boicotes ao supermercado.

 

Mas é bom que se diga, que essa divisão entre esquerda e direita no campo econômico não é uma construção só de progressistas. Do lado da direita, um exemplo pode ser identificado na frase de um card, atribuída ao proprietário das lojas Havan, Luciano Hang, defensor contumaz do presidente da República. Ideologizado, o texto do card, que circulou nas redes sociais, em novembro, diz: “Quem não gosta de Bolsonaro não deveria entrar em minhas lojas, para não deixar mal cheiro nos produtos expostos”, como exemplo claro da divisão de classe social e de raça.

 

Mais “corações e mentes”

 

A idealizadora de Esquerda Compra da Esquerda elenca pelo menos dois fatos políticos, ocorridos nos últimos anos, que têm gerado desesperança em progressistas e esquerdistas: a execução de Marielle Franco, vereadora do Psol/RJ, e a prisão do ex-presidente Lula, sem provas, por determinação do ex-juiz Sérgio Moro, que durou 580 dias.

 

Mas, otimista, Érica enxerga saída à desesperança e aponta que ela será pela esquerda: “Se a esquerda consegue se unir em torno de um projeto que beneficie a todos, neste momento tão difícil, (…), é possível ela se cuidar e se empoderar, para sairmos desse estado deplorável que vive o Brasil, superando o lodo produzido pelo bolsonarismo”, anuncia.

 

Para ela, um dos caminhos é, sem dúvidas, o projeto Esquerda Compra da Esquerda, que quer conquistar mais “corações e mentes” de quem defende questões humanas, justiça social e proteção ambiental, para se expandir em nível mundial. Para tanto, o próximo passo, segundo Bruno, é migrar essa grande feira de negócios para dentro da plataforma virtual.

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