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Professor da ESG vê como graves recomendações de ONG e acadêmicos dos EUA sobre o Brasil

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O Portal do Bonifácio entrevistou, na semana passada, Ronaldo Carmona, professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), que comenta o “policy paper”, divulgado, nesta semana, pela “U.S. Network for Democracy in Brazil” (Rede nos Estados Unidos pela democracia no Brasil), intitulado “Recommendation on Brazil to President Biden and the New Administration” (Recomendações sobre o Brasil para o presidente Biden e o novo governo dos EUA). Carmona vê com gravidade os termos do relatório e ressalta não falar em nome da instituição à qual é vinculado.

 

A Rede nos Estados Unidos pela Democracia no Brasil (USNDB), na sigla em inglês. Foi criada em 2018 em uma conferência na prestigiada Faculdade de Direito da Universidade Colúmbia. E reúne centenas de acadêmicos e ONGs de 234 faculdades e universidades de 45 estados norte-americanos. Confira a entrevista do Portal Bonifácio.

 

 

Professor Ronaldo Carmona, da Escola Superior de Guerra, aponta o documento “Recomendações sobre o Brasil para o presidente Biden e o novo governo dos EUA” como grave interferência nos assuntos internos do Brasil.

 

Portal Bonifácio: Esta semana veio a público um relatório de uma rede de ONGs e acadêmicos baseados nos Estados Unidos com recomendações ao novo presidente Joe Biden sobre as relações com o Brasil. Como o senhor viu este relatório?

 

Professor Carmona: É muito grave o que se lê neste relatório, que não deve ser subestimado. Afinal, suas teses principais têm aderência ao que pensa um setor importante do Partido Democrata americano, que agora retorna ao poder com Biden.

 

Com Biden retorna ao centro da política externa norte-americana um ativismo em torno de uma agenda que eles chamam de promoção da democracia e dos direitos humanos no mundo – obviamente um ativismo seletivo, como se vê historicamente.

 

Hoje, o foco desse ativismo é a luta contra o que eles chamam de regimes autocráticos, em especial a China e a Rússia. Engana-se quem acha que há diferença substancial de conteúdo entre Trump e Biden nesse consenso estratégico americano.

 

O relatório, que inicia já em seu primeiro capítulo falando em desprezo (disregard) pela democracia no Brasil, sugere que nosso País seja incluído nessa lista de “autocráticos”.

 

Assim, não descartaria que, no limite, repita-se um cenário parecido com o que já vimos no governo Jimmy Carter, ao qual o presidente Ernesto Geisel respondeu com firmeza e altivez.

 

Brasil e Estados Unidos são tradicionalmente países amigos, mas em geral as administrações democratas têm tido uma agenda de confronto com os interesses brasileiros. Aliás, a última tensão de grande porte nas relações biltaerais se deu quando viera a público o monitoramento das comunicações telefônicas da presidência da República, no escândalo da NSA, no período de Dilma Rousseff. Aliás, essa constatação é importante, uma vez que não importa se estão à frente do governo brasileiro forças de esquerda ou de direita.

 

Além disso, é absolutamente lamentável que o relatório seja assinado por acadêmicos brasileiros baseados nos EUA, que agem como verdadeiros quinta-colunas contra seu próprio País. Naturalmente que é direito deles se oporem ao governo Bolsonaro, mas daí a proporem ações da maior potência mundial contra o Brasil é absolutamente inaceitável. Aliás, recentemente uma parte da esquerda brasileira já tinha apoiado a denúncia do presidente Jair Bolsonaro ao Tribunal de Haia, uma instância de ingerência imperialista utilizada de forma seletiva pelos países europeus contra governos soberanos. Os problemas brasileiros, seus dilemas e diferenças devem ser resolvidos pelos próprios brasileiros, não por qualquer agente externo.

 

 

O documento da Rede pela Democracia legitima as ações imperialistas dos Estados Unidos no Brasil.

 

Portal Bonifácio: O segundo capítulo do relatório aborda a questão do desmatamento e sua vinculação às chamadas mudanças climáticas. Como o senhor vê a questão?

 

Professor Carmona: É bastante grave o fato de a administração Biden agora se somar aos europeus na pressão contra o Brasil tendo como pretexto a questão amazônica. Por que pretexto? Porque essencialmente utiliza-se o tema das queimadas para organizar boicote às exportações agrícolas brasileiras, numa clara ação de natureza protecionista.

 

Desde 2019 o Brasil é um dos epicentros das tensões geopolíticas globais com a interferência europeia em relação à Amazônia. Com Biden, essa tensão deve escalar recrudescendo, com ameaças à soberania e à integridade territorial brasileira na sua parte mais sensível, a Amazônia.

 

Cabe destacar, aliás, a forma correta com que o vice-presidente General Mourão vem liderando o Conselho da Amazônia, buscando efetivamente recompor os meios para conter as queimadas ilegais, ao mesmo tempo em que busca enfrentar questões estruturais na temática amazônica, a começar do fomento à bioeconomia e à biotecnologia.

 

A Amazônia é a questão mais sensível da geopolítica brasileira, ontem, hoje e amanhã. Por isso os brasileros devem se unir em torno de sua defesa, não permitindo a intromisisão imperialista venha de onde vier.

 

Portal Bonifácio: No quarto capítulo, o relatório propõe que Biden reveja o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST), que viabiliza a exploração comercial da Base de Alcântara, no Maranhão. Há riscos nesse sentido?

 

Professor Carmona: Sem dúvida. Aqui, mais uma vez acha-se o “pretexto perfeito”, a chamada questão quilombola, para uma ação cujo sentido de fundo é bloquear o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro. Não é de hoje, afinal, que grandes potências agem no sentido de sabotar nosso Programa Espacial, que, como sabemos, é dual, por definição.

 

A aprovação do AST em 2019 foi de grande importância uma vez que oferece proteção à propriedade intelectual de tecnologias embarcadas em satélites e lançadores que se utilizarão das vantagens geográficas sem igual que Alcântara oferece. Ou seja, o AST viabilizou a exploração comercial de Alcântara, permitindo abrir uma grande janela para o desenvolvimento do Arco Norte do território nacional.

 

Especificamente quanto à população da Zona Rural de Alcântara, uma das regiões com menor IDH do País, o que se pretende é justamente articular um conjunto de ações, para tirá-los do século 19, provendo educação de maior qualidade, atendimento médico universal, rede de saneamento e água potável, além de qualificação profissional para que os alcantarenses capturem as oportunidades surgidas com o desenvolvimento do CLA. Isso sim é efetivar os direitos humanos dos quilombolas, objeto precípuo do Plano de Desenvolvimento Integral (PDI) de Alcântara, atualmente em elaboração por uma comissão interministerial com a participação de atores diversos do Maranhão.

 

Por isso é preciso ter em conta que se trata de “guerra de informações”, na qual o “pretexto quilombola” entra como uma luva para objetivos geopolíticos inconfessos. O Programa Espacial, que como disse por definição é dual, é instrumento de Poder Nacional, a começar do científico e tecnológico. Isso que se objetiva, antes que nada, bloquear.

 

Cabe ressaltar que o governo Biden tem inclusive no seu Ministério uma deputada democrata que fez campanha contra a aprovação do AST. A deputada em questão, inclusive, é eleita por Estado que abriga um decadente centro de lançamentos, o Roswell Space Center, que concorre diretamente com Alcântara.

 

Novamente, assim como na questão amazônica, no tema Alcântara o que se vê na superfície é bem diferente do que efetivamente é na sua essência.  Por isso a urgência dos brasileiros, novamente, descontruir estes mitos, que repetidos à exaustão, tornam-se “verdade”.

 

Portal Bonifácio: Quais os desafios que se apresentam para o Brasil diante do novo cenário geopolítico surgido com a presidencia de Biden?

 

Professor Carmona: Mais do nunca os brasileiros devem ter consciência de que a construção de seu projeto nacional deve se apoiar nas suas prórprias forças.

 

O Brasil tem como destino tornar-se uma potência entre as nações. Para isso, está posto o desafio de fortalcer as diversas dimensões do seu Poder Nacional nas esferas política, econômica, científico-tecnológica, psicossocial e militar. Nesse desafio não cabe ingenuidade: as grandes potências, de forma direta ou indireta, buscarão bloquear ou mesmo sabotar esse projeto de potência. Por isso nós brasileiros devemos ter consciência de que precisaremos nos apoiar nas nossas próprias forças.

 

Publicação, na íntegra, do Portal Bonifácio

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