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Porto Alegre mais negra que açoriana

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Devido à vinda de casais açorianos a Porto Alegre em seus primórdios, criou-se a “típica lenda urbana”: Porto Alegre é uma cidade açoriana.

 

Longe disso, pois o contingente de população negra na cidade salta aos olhos de quem pesquisa e estuda.

 

Quem lavava roupas nas límpidas águas do Guaíba?

 

Quem vendia no velho Mercado?

 

Quem trabalhava na carga e descarga dos barcos aportados no velho Cais?

 

Quem ergueu pedra a pedra para a construção do Mercado?

 

Fotos antigas falam por si só.

 

Mas há relatos dos trabalhadores (as) negros (as) nas pesquisas que realizei.

 

Os negros habitavam a Rua da Prainha, depois PantaleãoTeles, junto à zona de meretrício.

 

Os campos da várzea viraram Redenção.

 

Havia a Colônia Africana, como havia a Ilhota e o Areal da Baronesa.

 

Agora, vamos tentar achar algo parecido que tenha referência portuguesa ou açoriana?

 

Já no século XIX temos referenciais nos alemães, implementando o comércio e os serviços que se tornavam potentes.

 

Muitos portugueses que se tornaram nomes de ruas no Centro eram “de fora”, tendo lutado na Guerra do Paraguai, não necessariamente com papel na construção civilizatória da cidade.

 

Vejo que muitos de nossos historiadores foram comprando algumas teses e foram repetindo um quase senso comum. Longe de mim de me arvorar historiador da cidade, mas minhas pesquisas, escutas, observações, em especial pelo estudo das ruas da cidade, nominações em geral, vejo que houve uma inobservância do papel dos negros. Há 200 anos Saint Hilaire passa aqui 30 dias e fala mais de saraus do que qualquer outro aspecto, pouco do mundo do trabalho. Nas leituras que fiz acerca de nominações, dicionário de personalidades, nomes de rua, não vejo anotações críticas. Vejo repetições.

 

No Centro Histórico, temos apenas um nome de negro, José do Patrocínio, numa rua que começa neste bairro e adentra a Cidade Baixa. Quando leio sobre a Rua Washington Luiz, antiga Pantaleão Teles, sempre é referida como a rua do meretrício, mas na verdade ali moravam muitas famílias de negros.

 

Quando pergunto onde ficava a Colônia Africana, poucos sabem que foi no Bairro Rio Branco.

 

Pouquíssimas pessoas sabem da história do Príncipe negro, José Custódio Joaquim de Almeida, vindo do atual Benin, tendo morado na Lopo Gonçalves. Ele teve uma grande influência na cidade, tendo ligações com Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros.

 

Fica a dica para novos estudos, novas buscas, sobre nossas raízes. Mas já lhes asseguro que os negros tiveram mais influência local do que os açorianos.

Adeli Sell é vereador do PT na Câmara Municipal de Porto Alegre
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