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Por um punhado de dólares

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O modelo de sociedade neoliberal não é perverso apenas pela concentração de renda, ou por divulgar que um atleta olímpico, um idoso manco e um menino na primeira infância podem disputar a mesma corrida, em outras palavras, podem competir. Se você contrapõe que só há competição entre iguais, eles colocam todas as pessoas como recém-nascidas, onde umas venceram e outras perderam na corrida pela vida. Esquecem, pois não são especialmente ignorantes, os estudos sobre o capital cultural, que as desigualdades são construídas antes mesmo do parto.

 

Nesta crise, provocada pelo Covid 19, surgem várias reflexões que levam à mais contundente crítica do neoliberalismo. Tanto que, muitos defensores desta selvageria (ou não é uma lei da selva), não tendo como a defender, ressuscitam o comunismo, que nada mais é do que o neoliberalismo (globalizante, ideológico, centralizador, gerenciado por uma burocracia), com a diferença na distribuição do butim, para uns poucos ou para o Estado.

 

Notícias na televisão dizem que o aparelho respiratório para os infectados, em Nova Iorque, passou de 25 dólares, em janeiro de 2020, para 45 dólares atuais (28/03/2020). E há quem considere simplesmente uma “oportunidade de mercado”, ou seja, a vida humana exige um lucro excepcional para quem a tem sobre controle ou dela pode dispor.

 

Ouvindo o ministro Paulo Guedes, numa tela onde só há representantes do mercado, nome dado aos especuladores e aproveitadores das finanças desreguladas, fica-se com a impressão monárquica: um suserano e sua corte.

 

É o caso de fazer a pergunta, por tantos anos enunciada e repetida pela corajosa e combativa auditora fiscal Maria Lucia Fattorelli: que dívida é esta que não resiste a uma auditoria? É a farsa para transferir para bolsos privados o dinheiro público, e depois afirmar que a saúde e a educação não dispõem de orçamento para atender aos contribuintes, o cobertor só não é curto para os especuladores com dinheiro alheio.

 

Para o povo brasileiro, o povão desconhecido por todos governantes que combateram e combatem a Era Vargas, existe a Emenda Constitucional nº 95, de 15 de dezembro de 2016, a PEC do Fim do Mundo, que por vinte anos, uma geração, congela as despesas com a saúde e a educação. Mas para os financistas, a privilegiada casta dos especuladores, o Banco Central transfere, todo dia, milhões e milhões de reais nas Operações Compromissadas. Estas Operações (poderia chamar assaltos) destinam-se a remunerar as sobras de caixa dos bancos, um overnight sobre o saldo dos depósitos menos saques. Que, na verdade, é o dinheiro dos correntistas remunerando os donos dos bancos. Um furto legalizado.

 

Vejamos algumas notícias, informações do sábado, 28/03/2020.

 

A biderberguiana cnnbrasil, emissora que pretende tirar da Globo o título de órgão oficial do neoliberalismo, surpreende ao afirmar que a Rússia, com 146 milhões de habitantes e 17.098 mil km², teve 253 casos de Covid 19, sendo quatro fatais, enquanto Luxemburgo, com 628 mil habitantes em 2.586 km² apresentava 670 casos com oito mortes. Mas foi incapaz de dizer que se tratava de um Estado Nacional Soberano e de um Estado Mínimo, em todos os sentidos, inclusive moral. Vive da lavagem de dinheiro.

 

Leiamos, na sempre magnífica tradução da Vila Mandinga, o que o diplomata britânico Alastair Crooke escreveu na plataforma Strategic Culture Foundation.

 

Título da matéria: “Dinheiro de helicóptero”: o grande evento geopolítico do momento. “EUA e Reino Unido, para deter o Covid-19, adotam abordagem bem próxima de tempos de guerra, com níveis invasivos de intervenção na vida social; ao mesmo tempo esses governos – como corolário da quarentena – propõem ‘resgates’ massivos. À primeira vista, talvez até pareça sensível e adequado. Mas… calma! Querem resgatar o quê? Ora… Claro que querem resgatar os mercados financeiros; de fato, sobretudo e esses todos: a Boeing, a indústria norte-americana do petróleo de xisto, companhias aéreas, indústria do turismo e (nos EUA) todos os cidadãos, enviando a cada um/uma, pelo Correio, essa semana, um cheque de $1.000 ou de $2.000 – ou, como se discute em DC – um cheque desses por mês. Excelente! Faz de conta que é Natal”. Não é para rir, caro leitor; é para chorar!

 

Para conter a “pandemia”, tão a gosto dos neomalthusianos liberais, agora, por razão que talvez só os céus conheçam, atingindo mais ricos e classe média favorecida do que pobres e classe média baixa, mas sem prejudicar as receitas das “gestoras de ativos” só chovendo dólares.

 

E desta forma, Axel Christensen, estrategista-chefe de investimento na América Latina da BlackRock, pode enxergar maiores oportunidades de retomada aplicando em ações (!).

 

Oh Cristo! Será o caso de exorbitante cinismo, pois exorbitante já é o saque que esta gestora de ativos, que ao fim de 2019 apresentava-se com 10 trilhões de dólares estadunidenses em especulações pelas bolsas mundiais. Pois além de falidas – o que não era difícil prever desde a jogada geopolítica dos Estados Unidos da América (EUA) ao “descobrirem” sua “libertação” da dependência do petróleo árabe com as shale oil em seu território – a indústria do xisto só sobrevive por causa dos aportes estatais, sob as diversas denominações. A extração de petróleo dos folhelhos betuminosos não se sustenta, pelos custos e pela tecnologia disponível, frente à dos reservatórios “convencionais” de petróleo.

 

Mas o neoliberalismo, dos Estados Mínimos, da Lei da Selva, do projeto de extermínio de 2/3 da humanidade, também é o corruptor do judiciário, hoje desacreditado por pobres e ricos. Vamos ao exemplo da bilderberguiana cnnbrasil.

 

No noticiário noturno do sábado, 28/03/2020, ficamos sabendo que o Prefeito de São Roque (interior paulista), após frustradas negociações com o Hospital particular São Francisco, e com a autorização dada pelo Decreto de Calamidade Pública no Município, retirou e transferiu para Santa Casa sete respiradores. O prefeito, empresário Claudio José de Góes, é do PSDB, o mesmo partido do atual Governo paulista e que desde 1995 administra o Estado, além de ser dos maiores apoiadores do presidente Bolsonaro no Congresso.

 

A apreensão se deu após ser registrado o 38º caso de Covid 19 no município. Mas tanto as jornalistas da cnnbrasil quanto o entrevistado-consultor, que foi apresentado como médico, representante de hospitais particulares, acharam que o Hospital, que negociava com a vida dos munícipes, deveria ir à justiça contra o Prefeito. Aonde leva o neoliberalismo!

 

Alastair Crooke, sempre na tradução da Vila Mandinga, acrescenta:

 

“Na crise de 2008/9, o público ficou perplexo: o mundo financeiro parecia demasiado complexo para ser completamente compreendido. Só adiante apareceu quem percebesse que os bancos tinham sido salvos mediante a ‘socialização’ de seus erros e prejuízos. As perdas foram ‘socializadas’, vale dizer, transferidas para o balanço das contas públicas, e disseram que o povo esperasse austeridade e mais austeridade [“arrocho e mais arrocho”] – e cortes nos sistemas de saúde e bem-estar, para pagar por todos aqueles ‘resgates’ de 2008.

 

Dessa vez, não são os bancos, mas as empresas e sua respectiva dívida ‘podre’, que as autoridades esperam conservar em formol (como foi feito, antes, com os bancos). Em termos simples, o sistema permitirá que empresas super alavancadas assumam dívidas ainda maiores – tomando esses empréstimos agora avalizados pelo governo federal dos EUA.

 

Mas… será que público mais bem informado aceitará prontamente que a empresa Boeing mereça ser ‘resgatada’ com $60 bilhões, quando todo o dinheiro que hoje falta à empresa foi torrado ano passado para recomprar as próprias ações da empresa e pagar altos dividendos a eles mesmos?! Pode-se perfeitamente argumentar que, se o dinheiro é só papel impresso… ninguém mais precisa se preocupar com a tal ‘austeridade’ e os tais cortes.

 

Mas imprimir dinheiro oco dilui o potencial subjacente de compra do próprio dinheiro que havia antes da diluição. Quer dizer que, outra vez, os mesmos 60% pagarão os custos – outra vez.

 

Essa ‘neoausteridade’ será transferência clandestina de riqueza mediante a diluição do poder de compra das pessoas”

 

Mas as empresas, hoje, quase todas as negociadas nas bolsas de valores e outras de capital fechado – e isso é muito importante conhecer – após tantas crises fabricadas, pertencem ao BlackRock e seus colegas (concorrentes?) gestores de ativos: Vanguard, Wellington, Fidelity, State Street, PIMCO, Charles Schwab, Amundi, Morgan Stanley, Allianz e outras mais. Os cerca de 100 trilionários e bilionários sorvedouros da poupança mundial, para deleite e conforto de 0,001%, talvez menos, da população do planeta.

 

E quem as protege? Ouçamos um grande especialista, o primeiro civil a dirigir a Agência Central de Inteligência (CIA), dos EUA, Allan Dulles: “o serviço de inteligência é o veículo ideal para conspiração”. Inferimos que os gestores do MI6, do Mossad, e dos seus similares por todo mundo, não pensem e nem ajam diferentemente.

 

Pelo punhado de dólares, o neoliberalismo vende a senhora sua mãe. Prazerosamente.

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