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Por que não temos uma vacina anticovid-19 brasileira? (II)

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No dia 1º de abril de 1970, os militares do governo ditatorial cassaram os direitos políticos de dez dos principais cientistas do então Instituto Oswaldo Cruz (hoje Fundação Oswaldo Cruz).

 

Sem nenhum aviso e nenhuma prova de terem cometido algum delito, esses cientistas foram impedidos de trabalhar em suas pesquisas e em outras instituições federais. Eram acusados de serem corruptos, subversivos e conspiradores.

 

Foram perseguidos, alvos de inquéritos (civil, militar e administrativo), e punições. Seus laboratórios foram fechados e suas equipes desfeitas. A interrupção de suas pesquisas causou grande prejuízo à ciência brasileira.

 

Cada um deles trabalhava com turma de alunos iniciantes em pesquisa. O médico Haity Moussatché, na Divisão de Fisiologia e Farmacodinâmica, por exemplo, dirigia uma equipe de vinte estudantes.

 

Os estudantes também foram expulsos e impedidos de entrar na instituição. O episódio ficou conhecido como “O massacre de Manguinhos”, em referência ao bairro onde se localizava o IOC.Um massacre semelhante ocorreu na Faculdade de Medicina da USP, com todo tipo de repressão aos pesquisadores, desde aposentadoria compulsória, até prisão, tortura e assassinatos.

 

O célebre parasitologista Samuel Pessoa faleceu pouco tempo depois de ter sido encapuzado e submetido a interrogatório, aos 77 anos de idade. Outras instituições da USP também foram alvo da repressão.

 

Em 22 de abril de 1974, a professora Ana Rosa Kucinski Silva, de 32 anos, saiu para almoçar com o marido, o físico Wilson Silva. Nenhum dos dois voltaria a ser visto. Em 1993, soube-se que foram levados à chamada Casa da Morte, em Petrópolis (RJ), onde foram torturados e mortos.

 

Pelo menos outros seis pesquisadores do Instituto tiveram o mesmo destino. Todas universidades e centros de pesquisa do país sofreram perseguição a professores, cientistas e estudantes.

 

Vários grupos de pesquisa foram desestruturados na UFRJ, na UnB e na UFPE, entre várias outras. Comissões internas, de professores apoiadores da ditadura, apontavam os que discordavam da ditadura militar.

 

O Museu de Astronomia e Ciência Afins (MAST), localizado no Rio de Janeiro (RJ), uma das principais instituições que cuidam da história do desenvolvimento científico do país, realizou um levantamento dos cientistas perseguidos na época, no qual identificou 471 pesquisadores, professores e alunos de pós-graduação que tiveram suas carreiras interrompidas ou prejudicadas pelo Golpe de 1964.

 

Mas o número real, segundo cientistas da época, pode chegar a mil. A ditadura militar teve um impacto terrível sobre o desenvolvimento científico brasileiro. Por ironia da história, muitos dos cientistas perseguidos foram trabalhar em outros países, em especial, os EUA, onde encontraram acolhida e apoio para suas pesquisas. Os EUA, o mesmo país que apoiou, ou exigiu, o golpe militar de 1964 no Brasil.

 

(*) Geraldo Lucchese é doutor em saúde pública, membro da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco)

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