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Por que deram este nome à minha rua?

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Em tempos de necessárias contestações, perguntar não ofende: por que deram este nome à minha rua?

 

Não estamos propondo sair derrubando estátuas nem trocar nome de rua a rodo.

 

Um grupo de professores, juristas, militantes dos direitos humanos e de combate ao racismo lançaram um Manifesto no qual questionam a profusão de nominações ao Barão do Cotegipe país afora –  https://www.facebook.com/Manifesto-Contra-o-Racismo-na-Rua-100553431718348

 

Na capital temos a Rua Barão do Cotegipe que vai da curva da Marcelo Gama – poeta simbolista – cruzada pela Karl von Koseritz, jornalista teuto-brasileiro, também combativo deputado – a Felicíssimo de Azevedo – primeiro prefeito da capital, pós República e republicano – e a Dom Pedro II – aquele que lhe deu o título de Barão – para servir de entrada à Sogipa – Sociedade Ginástica Porto Alegre.

 

Quem foi este Barão que dá nome a uma rua tão importante do Bairro São João, nos costados do Bairro Higienópolis?

 

Ele denomina município de colonização italiana – ao lado de Erechim – e de onde vem a erva mate, chamada Barão.

 

Foi senador da República entre várias atividades, tendo ocupado Ministérios do segundo reinado, chegando a Primeiro Ministro.

 

Ele aceitou do Gabinete anterior (Saraiva) o projeto de libertação de escravos aos 60 anos (1885), a propalada lei do sexagenário, conhecida como Saraiva-Cotegipe.

 

Na escola dos meus tempos era uma lei festejada.  Mas convenhamos: aos 60 anos o “escravo era um bagaço”. Era uma lei para escravagistas, pois assim se livravam de alguém que não era mais útil.

 

João Maurício Wanderley era seu nome e de origem nobre de Pernambuco, estudou na Bahia. Vinha da família holandesa “van der Ley”. Lembram que Maurício de Nassau mandou pela região por tempos.

 

Foi um dos 5 senadores a votar contra a libertação dos escravos em 1888.

E pelo que lemos, não é agora que Koseritz cruza a Barão do Cotegipe, pois disse o combativo deputado liberal gaúcho que o Barão se pronunciara contra a imigração de alemães para se tornarem pequenos proprietários, evidenciando seu papel de líder escravocrata.

 

Segundo Koseritz, o Barão de Cotegipe não almejava cidadãos, mas apenas mão-de-obra para as grandes propriedades: “quer trabalhadores, mas não quer cidadãos; quer braços, mas não quer cabeças…”

 

Principal líder da bancada escravagista, o senador Barão de Cotegipe (BA) discursou:

 

— Tenho conhecimento da nossa lavoura, especialmente das províncias de São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Bahia, e afianço que a crise será medonha. A verdade é que haverá uma perturbação enorme no país durante muitos anos.

 

Além disso, foi mais longe, pois havia a decisão imperial de trazer europeus, pois os alemães já estavam aqui há mais de meio século, expôs seu viés escravocrata:

 

. — O elemento servil é o único trabalho organizado em quase todo o país, inclusive na extensa e rica zona das margens do Rio Paraíba, que tem sido nestes últimos 50 anos a oficina da riqueza nacional.

 

Ou seja, ela era contra a vinda dos elementos europeus, e tinha razão, porque os anarquistas foram importantes na organização do movimento sindical, e o Barão queria trabalho e submissão.

 

Por isso, é importante observar a posição de Karl von Koseritz. Este, além das perseguições que os castilhistas lhe fizeram (o que ajudou acelerar sua morte, por desgosto) representava a alma do imigrante alemão, lutador e que desmaiou de fome na rua, portanto sabia do que falava, para aqui fazer um destacado papel de homem público na defesa do povo.

 

Para se ter a clareza dos resultados nefastos da escravidão, dos republicanos militares, dos primórdios da República, sugiro leitura de um resumo de Os Bestializados – http://www.adelisell.com.br/artigo/43-os-bestializados-(adeli-sell).

 

Por essa razão, estamos nos juntando ao questionamento de muitas pessoas, para saber, antes de tudo, o que pensam as pessoas que moram nesta rua, cuja nominação não é nada agradável.

 

Por isso, nosso pedido também aos sogipanos, cuja entidade-instituição é fruto do trabalho do imigrante bem recebido aqui, pergunto até porque perguntar não ofende: é justo ter este nome ‘Barão de Cotegipe” na sua entrada?

 

Mas é só para pensar, por enquanto.

 

Sintam-se, porém, orgulhosos que um teuto-brasileiro-gaúcho cruzou por ele na vida e no embate de ideias para a História lhe dar a graça de cruzar por ele na nominação destas ruas.

 

Mas pensemos no “nicho” histórico dali: começa com os suaves e sonoros versos do simbolista Marcelo Gama, passa pelo primeiro prefeito a ter soldo, passa pelo homem que disse tudo de si, passa pelo rei que lhe deu o título de Barão, mas apenas chega à Sogipa.

 

O senhor-senador-barão nunca passou de um escravocrata.

 

É… pergunto: por que razão não iríamos falar (d)estas verdades?

 

Leiam o Manifesto.

 

Pensando já em trocar o nome? Não é simples. Tem Lei. Nós temos regras a seguir.

 

Vereadores (as) podem desde que cumpram a Lei, consultando seus (suas) moradores (as), propor mudança de nome. Vejam que a Praça da Matriz já foi Dom Pedro II, para ser Benjamin Constant e ser Praça Marechal Deodoro.

 

Adeli Sell é vereador em Porto Alegre

 

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