Bem feito. O chicote volta ao lombo de quem mandou dar. O STF está agora comendo o pão que o diabo amassou. Bolsonaro sabe porque está agredindo a mais alta corte de (in)justiça e ela também sabe perfeitamente porque está apanhando. Afinal foram os juízes do Supremo que assinaram embaixo do golpe neoliberal de 2016 contra Dilma e no do que promoveram contra Lula em 2018, não o deixando candidatar-se presidente. Era disputar democraticamente e levar. Porém, suas medíocres excelências preferiram abaixar as calcas para o general comandante do Exercito Villas Boas que os ameaçou se concedessem habeas corpus ao ex-presidente petista.
Bolsonaro, ao consagrar-se nas urnas, graças aos fakenews, diria ao comandante que sem o apoio dele não teria chegado aonde hoje está. O que aconteceu de fato que somente os dois podem partilhar entre si?
Armação antidemocrática
Foi, portanto, armação do poder militar com poder judiciário para impedir Lula presidente. Essa conta ficou cara para a população brasileira que quer ir à forra em 2022. Os atores do drama anti-democratico estão perfeitamente conscientes do papel(sujo) que desempenharam. Ao encarar os juízes, nesse momento, com toda sua desfaçatez, ameaçando os ministros Luís Barroso e Alexandre de Moraes, contestando a urna eletrônica e reagindo ao inquérito em que passa a ser envolvido na CPI das CPI das Fakenews, Bolsonaro se mostra, aparentemente, disposto romper com as instituições. Saiu, claramente, dos trilhos da democracia para apoiar possíveis golpes. E se, ainda por cima, falar a verdade nua e crua da submissão do STF aos homens de farda, para configurar a verdadeira realidade, isto é, a desmoralização do poder civil constitucional que suas excelências rasgaram, heim?
Falando fino

O presidente Fux, no seu discurso de retomada dos trabalhos legislativos, ao qual disse que daria tom duro contra o presidente, em resposta as suas agressões aos ministros do STF, acabou, na verdade, miando. Bolsonaro, nem ai pra ele, seguiu em frente, agredindo e aterrorizando a corte, como está, abertamente, falando, nessa semana, pintando retrato de crise institucional no país. O STF, em resposta, sairia, simbolicamente, no braço contra seu claro agressor? Hoje, Fux falou grosso e ameaçou o presidente. Se mais uma vez falasse fino e não avançasse firme, poderia perder espaço e se desmoralizar. Como primeiro sinal de reação enérgica, suspendeu reunião entre representantes dos três poderes, prevista para acontecer, nessa semana. Na pratica, Bolsonaro cutuca o judiciário com vara curta, dando evidente chega pra nele, sem medo de maiores consequências.
Freio à judicialização política

O titular do Planalto visa, com sua agressividade verbal, arrefecer investidas dos juízes na judicialização do processo politico diante do recuo do Legislativo, nos últimos tempos, quando se abastardou frente às suas próprias prerrogativas. A valentia do Judiciário está sendo confrontada por Bolsonaro, seguido, agora, pelo presidente da Câmara, deputado Arthur Lira. O líder do Centrão, no comando do Legislativo, já produz seguidas admoestações aos ministros do Supremo cheios de empáfias, destituídas, como diria Napoleão, de nenhuma divisão forte o suficiente para encarar tanto ele como o capitão presidente. Lira alerta que não aceitará freios à decisão do Legislativo referente ao debate sobre urna eletrônica x voto impresso. Do mesmo modo, quer barrar STF em enquadrar o chefe do Executivo na defesa das suas posições, claramente, autoritárias contra poderes da República. Bastaria, então, apenas, um cabo e um soldado, como sentenciou o deputado Eduardo Bolsonaro, para empastelar o STF? O fato é que Lira ameaça que não mais vai aceitar interferência do Supremo em decisões do Legislativo. A guerra, portanto, está aberta entre os visíveis podres poderes da abalada República brasileira, na atual fase histórica nacional.

Nova correlação de forças em cena

Verifica-se nova correlação de forças. Lira soma-se a Bolsonaro contra o Supremo e cria novo fato politico, embora precise agir com cautela, porque, como se sabe, ele é réu confesso do STF. Quanto a Bolsonaro o que ainda o faz tremer é a CPI da Covid. Aqui a barra está pesada para o titular do Planalto, pois as evidências contra ele de que está atolado no barro da corrupção são cabeludas e cumulativas, contra as quais perde, junto com seus aliados militares, forças para reagir. Piora tudo para o presidente boquirroto a situação econômica marcada por desemprego, fome, concentração de renda, desigualdade social e fuga de capital. Com o orçamento ultraneoliberal que corta suas pernas e mãos não terá sucesso em ampliar gastos sociais, salvo se mandar para o espaço o garrote do teto de gasto, imposto pelo mercado financeiro no golpe neoliberal de 2016. Mas, se a predisposição do capitão presidente for, mesmo, partir para o confronto, qual seria a reação da oposição senão jogar todas suas fichas nas mobilizações populares para garantir calendário eleitoral de 2022 que ele quer adiar, receoso da sua fragilidade frente às pesquisas que indicam sua derrota para Lula? A radicalização, portanto, ganha corpo diante das evidentes ameaças à democracia pelo governo militarizado baleado pela CPI da Covid.

https://noticias.r7.com/…/fux-reage-a-ataques-de…

https://www1.folha.uol.com.br/…/bolsonaro-insiste-em…

(*) Por César Fonseca, jornalista e editor do site Independência Sul Americana
Texto postado, originalmente, no Facebook de César Fonseca