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Os trabalhadores estão se reorganizando para enfrentar a crise pós-pandemia

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Mês passado um fenômeno de mobilizações trabalhistas cruzou o oceano pacifico. Na Coreia do Sul, meio milhão de trabalhadores deixaram seus empregos em uma greve geral, enquanto uma onda de greves varria os EUA no Striketober demandando melhores salários e saúde gratuita para todos

 

Do oriente ao ocidente: os Estados Unidos e a Coreia do Sul estão passando por enormes greves gerais, e você, trabalhador brasileiro, pode estar precisando de histórias de inspiração para passar por este momento sombrio de imobilismo social em que vivemos. Funcionários de diversos setores — de cinema, até terceiro setor — estão lutando por seus direitos.

 

 

As consequências da crise cíclica do sistema capitalista afetaram os trabalhadores durante a pandemia mais do que nunca — lembre-se que, pelo menos no Brasil, a maior parte dos “empreendedores” também são parte da classe trabalhadora. Mais de 700 mil negócios fechados, incluindo estabelecimentos históricos, piores condições de trabalho por conta da quarentena, diminuição nos salários. Tudo piorou. Em meio a isso, a maior greve-geral da história ocorreu: em novembro do ano passado, mais de 250 milhões de trabalhadores se uniram, apoiados por sindicatos e pelo Partido Comunista da Índia.

 

 

Este ano, milhares entraram em greve na Grécia em junho contra os planos do governo de reformar as leis trabalhistas que colocaram a conta da crise nas costas dos trabalhadores, ao fazerem com que eles trabalhassem mais, por menos. Os maiores sindicatos dos setores público e privado da Grécia realizaram uma greve de um dia que paralisou o transporte público e manteve as balsas atracadas nos portos. E agora, temos outros dois enormes movimentos: o Striketober, algo como outubro grevista, nos Estados Unidos, e uma greve geral massiva na Coreia do Sul.

 

Striketober: salário, assédio e saúde gratuita para todos

 

É oficialmente Striketober nos Estados Unidos. Equipes de TV e cinema de Hollywood, trabalhadores da fabricante de máquinas agrícolas John Deere, mineiros de carvão do Alabama, trabalhadores da empresa fabricante de biscoitos Nabisco, trabalhadores da Kellogg, enfermeiras na Califórnia, trabalhadores da saúde em Buffalo. Após um ano e meio de pandemia, a demanda por todos os tipos de bens e serviços caíram.

 

A escala da mobilização no setor industrial é notável. Dez mil trabalhadores da John Deere entraram em greve, mil e quatrocentos trabalhadores da Kellogg saíram, bem como uma greve ameaçada por mais de trinta mil trabalhadores da Kaiser Permanente, todos inflamados por uma profunda desconexão entre trabalho e gestão.

 

Muitos trabalhadores da linha de frente — após trabalhar tanto e arriscar suas vidas durante a pandemia — dizem que merecem aumentos substanciais: “Não estamos pedindo para ser milionários, estamos pedindo salários justos, uma pensão e assistência médica pós-aposentadoria”.

 

Com isso em mente e com uma miríade de empregadores reclamando de uma suposta escassez de mão de obra, muitos trabalhadores acreditam ser um momento oportuno para exigir mais e entrar em greve. A escassez de trabalhadores é questionável. Em um artigo para o jornal britânico The Guardian, o ex-secretário do Trabalho, Robert Reich, argumenta que não há falta de mão de obra, mas de condições dignas de trabalho. É necessário relembrar que diversos direitos que temos no Brasil — tratados como “regalias” pelas nossas elites e alguns parlamentares — não existem nos Estados Unidos, como um sistema de saúde universal. Uma das reivindicações da greve geral consiste na criação de alguma assistência médica para funcionários que se machucam ou ficam doentes no ambiente de trabalho.

 

Captura de tela do “Labor Action Tracker”, criado pela Universidade de Cornell. Por conta de uma disputa entre o número de greves contabilizado pelo governo e o número dito por trabalhadores, a universidade criou um site onde sindicatos e movimentos podem registrar, mostrando quantas greves existem atualmente no país.
Captura de tela do “Labor Action Tracker”, criado pela Universidade de Cornell. Por conta de uma disputa entre o número de greves contabilizado pelo governo e o número dito por trabalhadores, a universidade criou um site onde sindicatos e movimentos podem registrar, mostrando quantas greves existem atualmente no país.

 

Como aponta Reich, “o que está acontecendo é descrito com mais precisão como falta de salário mínimo, falta de subsídio de risco, falta de creche, falta de licença médica remunerada e falta de saúde”.

 

“A menos que essa falta seja corrigida, muitos americanos não vão voltar para trabalhar em breve”, conclui o autor.

 

Sindicalize-se

 

 

Ao falarmos da classe de trabalhadores que não teve oportunidade de trabalhar em casa durante a quarentena, mas também não recebeu aumentos ou uma maior segurança no ambiente de trabalho, é necessário falar do setor de serviços. Trabalhadores da rede McDonald’s estão organizando uma paralisação contra o assédio sexual contínuo de funcionários e uma campanha para que os trabalhadores da rede se sindicalizem.

 

 

Funcionários em pelo menos dez cidades pretendem fazer greve em resposta ao alegado estupro de um trabalhador do McDonald’s de quatroze anos em Pittsburgh por seu gerente, e outras acusacoes de assédio em franquias da empresa. Em abril, a empresa anunciou novas diretrizes globais focadas em várias áreas, incluindo a prevenção de assédio, discriminação, retaliação e violência no local de trabalho. A partir de janeiro do ano que vem, os restaurantes dos Estados Unidos serão avaliados com base na realização dos treinamentos necessários sobre essas questões, na definição de procedimentos para que os trabalhadores façam reclamações e em outras medidas.

 

 

Jamelia Fairley é uma funcionária da rede e é a principal demandante em uma ação coletiva que alega que a empresa criou um ambiente de trabalho hostil que permite o assédio sexual e viola direitos civis. “Eu acredito que estamos em um momento em que os trabalhadores estão defendendo mais seus direitos”, disse Fairley em uma entrevista na semana passada. Ela também afirma que conheceu outros colegas que passaram por assédio sexual, e que a formação de um sindicato impedirá que isso ocorra.

 

 

O momento para os trabalhadores norte-americanos é mais oportuno que nunca: uma pesquisa mostra que cerca de 68% da população atual dos Estados Unidos apoia greves-gerais e sindicatos, o maior número em décadas. Também é o maior número entre todas as demografias, mostrando que até republicanos estão apoiando movimentos trabalhistas.

 

 

Meio milhão de trabalhadores sul-coreanos abandonam empregos

 

Em fevereiro de 1996, o apoio popular ao governo sul-coreano estava caindo rapidamente após uma série de incidentes. Então, o governo de Kim Young-sam decidiu alterar a legislação trabalhista como uma “carta de conversão”. Até o momento, as expectativas da população eram altas com o anúncio do governo de que mudaria o paradigma das relações de trabalho. No entanto, quando a emenda foi anunciada pela primeira vez, chocou os trabalhadores.

 

 

Haviam emendas como a abolição da proibição sindical e um projeto de lei permitindo funcionários públicos e professores de terem direitos trabalhistas, mas algo que causou comoção entre todos os trabalhadores: esta nova Lei do Trabalho tornaria mais fácil e legal para as empresas demitir trabalhadores, aumentaria a jornada legal de trabalho em doze horas e permitiria que as empresas proibissem o pagamento durante greves. Após isso, sindicatos sul-coreanos organizaram uma das maiores greves da história do país. Tudo começou em janeiro, com uma passeata de cem mil trabalhadores de montadoras, trabalhadores do metrô de Seoul, capital do país, funcionários dos dez maiores hospitais da capital e milhares de outras categorias.

 

 

Em vinte de outubro deste ano, pelo menos meio milhão de trabalhadores sul-coreanos deixaram seus empregos em uma greve geral. Os setores da construção, serviços e transportes foram somente alguns dos diversos setores paralisados. A greve está sendo organizada pelo maior sindicato do país, a Confederação Coreana de Sindicatos, com mais de um milhão de membros, e está se alastrando pelos centros urbanos e rurais com a ambição de organizar toda a população para janeiro.

 

 

As quinze detalhadas demandas dos grevistas podem ser resumidas a três áreas específicas. 1) Abolir o “trabalho irregular” — meio período, trabalho temporário ou contratado com poucos, ou nenhum benefício — e estender a proteção do trabalho a todos os trabalhadores; 2) Dar aos trabalhadores poder nas decisões de reestruturação econômica em tempos de crise; e 3) Nacionalizar as indústrias-chave e socializar os serviços básicos, como educação e habitação.

 

 

A Coreia do Sul é um dos países mais desiguais do mundo, além de ter péssimas condições de trabalho — ambos fatores são questionados pelos manifestantes. Por exemplo, mais de 40% de todos os trabalhadores sul-coreanos estão em trabalhos “irregulares”, grande parte em aplicativos dos gigantes da tecnologia e do setor de serviços. Além de ter o terceiro lugar em horas de trabalho e em mortes no ambiente de trabalho, a economia do país é dominada por conglomerados corporativos, conhecidos como chaebol. 10% dos mais ricos do país possuem mais de 40% da renda total.

 

 

As explorações trabalhistas estão nos setores privados e públicos. No setor de tecnologia, uma das áreas econômicas mais fortes do país, existem diversas histórias de exploração. No início deste ano, a equipe de limpeza da LG acampou do lado de fora do arranha-céu da empresa por cento e trinta e seis dias durante os meses mais frios do inverno para protestar contra demissões em massa e as péssimas condições de trabalho — e a empresa contratou indivíduos para despejar água nas tendas dos trabalhadores enquanto eles dormiam. Já os mineiros de carvão da Korea Coal, empresa estatal de mineração de carvão, estão sofrendo diversos problemas de saúde por respirar poeira de carvão e excesso de trabalho em condições extremas.

 

 

O meio milhão de trabalhadores sul-coreanos que estão abandonando seus empregos exigem a abolição de todas as formas de trabalho “irregular”. Eles também exigem o fim das lacunas nas leis trabalhistas que permitem que os empregadores enganem seus empregados quanto aos direitos básicos, como o direito de organização, acesso a benefícios e compensação por acidentes de trabalho. Os grevistas também afirmam que, diante a pandemia, as consequências climáticas e de um esforço do governo sul-coreano para construir uma economia “digital”, é necessário que trabalhadores participem de decisões de reestruturação econômica. Eles não estão apenas exigindo que o governo faça mudanças para eles, eles estão lutando por mais poder para determinar essas mudanças.

 

 

Outra demanda, surpreendente para muitos do ocidente que desconhecem a força do movimento trabalhista no país, é a nacionalização de setores que vem dispensando trabalhadores em massa- entre eles, setores de aviação civil, fabricação de automóveis e construção naval.

 

 

Reação ao neoliberalismo

 

Isso vem após décadas de políticas econômicas de austeridade. Durante a ditadura de Chun Doo-hwan na década de 80, reformas neoliberais abriram o mercado do país e recursos para investidores estrangeiros — e tudo estava bem, até a crise financeira de 97. Com a falência financeira, o país foi forçado a pedir ajuda ao Fundo Monetário Internacional (FMI). O empréstimo veio, mas com restrições: as políticas de ajuste fiscal e estrutural desmantelaram as proteções aos trabalhadores, empresas públicas foram privatizadas e mercados domésticos foram abertos para o capital estrangeiro. Em 2004, mais de 40% da capitalização total do mercado de ações sul-coreano pertencia a estrangeiros, principalmente dos Estados Unidos, União Europeia e Japão.

 

 

Lee Jeong-hee, diretor de políticas da Confederação Coreana de Sindicatos lembra que, constantemente,“o governo usa o dinheiro do contribuinte para socorrer empresas com problemas. Deve desempenhar um papel mais importante para garantir a justiça e proteger as pessoas comuns.”

 

 

As consequências da austeridade fizeram com que a Confederação Coreana de Sindicatos desafie o Estado a assumir a responsabilidade e garantir moradia, saúde, assistência social e educação para todos. As demandas da organização por reformas sociais incluem o aumento de unidades habitacionais públicas de 5% para 50% de todas as moradias disponíveis no país. Além disso, os grevistas também querem que aulas pré-vestibular sejam gratuitas para todos, e que o Estado contrate pelo menos um milhão de cuidadores para garantir assistência social gratuita aos idosos do país.

 

 

Os trabalhadores sul-coreanos lançaram o desafio e todos devemos prestar muita atenção. Embora a dinâmica em jogo na greve da Confederação Coreana de Sindicatos seja particular da cultural do país, a situação dos trabalhadores precários sob o peso do neoliberalismo é uma luta global. Enquanto as lutas trabalhistas abalam a Coreia e o mundo neste “Striketober”, surgem oportunidades para construir um movimento global contra as explorações trabalhistas que se aprofundaram ainda mais nesta pandemia.

 

 

 

(*) Por Sofia Schurig, editora da revista O Sabia
Texto publicado na revista Jacobin Brasil, em 3/11/2021

 




 

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