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O “X” da questão

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A Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), em conjunto com O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), lançou a campanha “Sinal vermelho” contra a violência doméstica. Em vídeo, a presidenta da AMB, Renata Gil, afirma que o mote para o lançamento da campanha foi o aumento de quase 50% nos casos de violência contra a mulher pelo país durante o período da pandemia da Covid 19. A campanha visa prestar solidariedade às mulheres que estão confinadas em suas residências com seus agressores e que precisam de ajuda para denunciar e se livrar dos atos de violência.

 

As farmácias serão, em princípio, as principais parceiras dessa campanha por conta de serem reconhecidas como local neutro, amistoso e de fácil acesso. As equipes das farmácias estão sendo orientadas para reagirem com tranquilidade quando se depararem com qualquer mulher que tenha um “X” em vermelho desenhado na palma da mão. Essa é a senha de um pedido de socorro silencioso. O primeiro passo é buscar proteger a vítima em um local reservado na farmácia e, em seguida, comunicar à polícia militar pelo 190. Caso a mulher precise sair do local, o seu nome e endereço devem ser anotados para ser repassado à polícia.

 

No momento atual, a campanha é uma ótima ideia. Ela é mais um instrumento que visa atender a demanda que diz respeito ao combate da violência contra a mulher. O Brasil sempre teve o péssimo hábito de replicar a cultura machista de que os homens têm o poder de dispor sobre a vida das mulheres. Reside aí a principal causa da violência doméstica. Neste sentido, toda e qualquer campanha ou propaganda que ajuda a combater essa cultura é sempre bem-vinda, pois ajuda a fIxar a mensagem de que os homens precisam urgentemente PARAR de agredir as mulheres.

 

O Brasil figura como o 5º país no ranking de violência doméstica mundial, o que nos mostra como esse é um problema relevante e presente no nosso cotidiano. Precisamos de fato tratar do X da questão, que é a origem desse problema. Precisamos enfiar as mãos nas entranhas do sistema patriarcal e entender como de fato ele funciona, para que possamos, assim, superá-lo, e, junto com ele, todos os seus males.

 

A forma como criamos nossos meninos, a liberdade que damos para eles, os fazem acreditar que são superiores, podendo dessa forma fazer o que quiserem com quem bem entenderem. É o contrário do que fazemos com nossas meninas, aquelas a quem ensinamos a falar baixo, a não se impor, a colocarem sua própria vida em segundo plano em troca de um marido e filhos. Aquelas a quem ensinamos que quando um menino implica muito com elas, é por que ele “está a fim”. Ensinamos nossos meninos a verem meninas como objetos descartáveis, enquanto as meninas são ensinadas que violência é sinônimo de amor. E é aí que a coisa desanda.

 

Não se pode, também, ignorar o passado escravocrata e extremamente violento sobre o qual os pilares do nosso país foram erguidos.  Herdamos uma sociedade racista. O inaceitável cenário de violência contra a mulher se torna ainda mais grave contra as mulheres negras. Enquanto lidamos com todas as consequências que resultam nesse quadro de violência doméstica contra a mulher, precisamos ficar atentos a todo o conjunto de causas. Esse será o caminho para poupar vidas e caminhar na direção do fim desse mal. A campanha que começa pelas farmácias pode em breve se estender por todas as empresas e ruas do nosso país. O sinal vermelho já está ligado.

 

Mariana Carvalho Nunes tem 16 anos e é aluna do 2° ano do ensino médio da escola Crescimento (marianacnx@gmail.com)

 

(Publicado originalmente no jornal O Estado do Maranhão).
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