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O relatório e as responsabilidades

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Por mais devastador que tenha sido, o relatório final da CPI da Covid não conseguiria reconstruir com a mesma força os depoimentos mais dramáticos que ela ouviu e que revelaram um quadro de horror sem precedentes e verdadeiramente inacreditável.

 

A leitura do relatório ocorreu num momento em que, sem alarde e sem destaque, o noticiário registrava uma afirmação do Vice-Presidente Hamilton Mourão, suscitada por alguma pergunta que lhe tinha sido feita ou por alguma reflexão que tivesse ouvido. Qualquer que tenha sido a razão, a frase do Vice valeu por si mesma e deu uma indicação resumidíssima mas suficiente do possível denominador comum do que o Brasil está vivendo e do contexto mais amplo do que o mundo vive.

 

Em seguida, outros acontecimentos, como a crise do teto de gastos, puseram na sombra a afirmação de Mourão e ela foi para o arquivo morto das ideias esquecidas.

 

Segundo o General Mourão, a questão social é responsabilidade do governo, não do mercado. Essa visão, que isenta o mercado e suas empresas de qualquer responsabilidade social, isenta-os também de qualquer responsabilidade ética e faz da busca do lucro uma busca sem freios que pode conduzir a horrores como os praticados pela Prevent Senior e revelados na CPI.

 

A Prevent Senior impunha a seus médicos procedimentos que violam os códigos de ética profissional e até os mais elementares deveres éticos do ser humano. Algumas de suas práticas, como a palavra de ordem “obediência e lealdade”, caberiam no modelo de qualquer organização nazista pré ou pós Terceiro Reich.

 

Se o “estilo” Prevent Senior transbordasse ou já tivesse transbordado para outras empresas, estaríamos próximos de ingressar num modelo econômico de plena barbárie ou já imersos nele, muito além do que o próprio capitalismo neoliberal pretendia ser. A verdade, porém é que alguns “empreendedores” do Brasil atual, organizados ou não em empresas, praticam esse estilo em seu campo de ação.

 

É o caso, por exemplo, do blogueiro Alan dos Santos, que é investigado pelo Supremo e teve a prisão preventiva decretada pelo Ministro Alexandre de Moraes. Seu trabalho de proselitismo político de extrema direita não se esgota na conquista de corações e mentes para suas causas e não dispensa a monetização que lhe engorda a conta bancária. (Só o canal do You Tube conhecido como Terça Livre, de Alan, faturou 1,7 milhão de reais de 2019 até agosto deste ano.

 

Alan é, no fundo, um empreendedor bem-sucedido, que também não se limita ao Brasil e está envolvido nas investigações do Congresso norte-americano sobre a invasão do Capitólio em janeiro, quando o Senado contava os votos do colégio eleitoral que confirmaria a derrota de Trump e a vitória de Biden na eleição presidencial de novembro.

 

Da mesma forma, Alan tem vínculos com o novo esquema de redes sociais que Trump acaba de lançar, uma vez que não consegue ser readmitido no Facebook e outras redes que o baniram. Noticiou-se até que esse empreendimento de Trump teria como diretor financeiro um brasileiro, o príncipe e deputado Luís Filipe de Orleans e Bragança.

 

Trump pode tentar desvencilhar-se – mas não conseguirá – de suas ligações com Steve Bannon, que acaba de ser denunciado à Justiça por decisão da Câmara dos Representantes, por desacato ao Congresso ao não atender a uma convocação para prestar depoimento na comissão investigadora daquele ataque. Assim como Bannon, Alan também pode ser alcançado por essa investigação, com a agravante de ser um estrangeiro envolvido em ação política e, pior, criminosa, em território norte-americano.

 

Enrolado em duas situações complicadíssimas, Alan declarou publicamente na sexta-feira que vai defender seus direitos de residente nos Estados Unidos, embora seu visto seja apenas de turista, e que se apresentará preso à Interpol assim que esta aceitar a ordem de prisão. Não é por respeito à lei que Alan faz isso. É que assim tem mais presença em suas redes sociais e a cada acesso a elas fatura um pouco mais.

 

É a isso que leva a ingênua ideia do Vice Mourão de que a questão social é responsabilidade apenas do governo, não do mercado. Tanto uma empresa do porte da Prevent Senior quanto um empreendimento como o de Alan dos Santos integram o mercado. Como integrantes do mercado, são obrigados pelo menos a obedecer às leis e as leis regulam precisamente as relações sociais. Uma vez isentos dessa responsabilidade, tanto a Prevent como Alan ficam autorizados a fazer o que fazem e o que fizeram.

 

Aliás, tudo que nela se revelou tem a marca de uma permissividade contrastante com a resistência do pensamento conservador ao que chama permissividade nos costumes.

 

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

 


 

 

 


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