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O rabo que ficou de fora

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Em “O gato deixa o rabo de fora” demonstramos a irrealidade da economia nas mãos das finanças, o que foi obtido com a ideologia neoliberal e outras falácias, vendidas com intensidade pelo mundo, na segunda metade do século XX, e que chega ao poder na última década daquele século.

Veremos agora alguns dos males trazidos por esta fabulação e suas consequências para a sociedade. Na área econômica, a elevação da dívida ao patamar de objetivo maior da política e da economia. Ora, caros leitores, a dívida sempre foi usada para o desenvolvimento. A pessoa física contraía dívida para ter seu imóvel residencial, bens de uso domésticos, mais caros do que os salários e remunerações pudessem adquirir à vista, e assim ia formando o patrimônio, com juros suportáveis para suas disponibilidades. Foi como os Estados Unidos da América (EUA) se constituíram na mais rica nação do planeta.

A reversão desta situação ocorreu em 15 de agosto de 1971, quando, unilateralmente, os EUA romperam com o Acordo de Bretton Woods. Foi um tiro no pé, pois os EUA passaram a necessitar da guerra para manter seu protagonismo. Mas este é outro capítulo, que poderemos tratar posteriormente. A dívida como escravidão foi a arma anglo-judaica para submeter, no Reino Unido (UK), toda população, inclusive com a industrialização, e outros povos na ampla colonização, a partir do século 18, que o UK espraiou por todo mundo.

Observemos a instituição criada em 1956, em Washington (EUA), que será usada para a escravização pela dívida, denominada Corporação Financeira Internacional (IFC), um órgão do Banco Mundial (WB).

A IFC atua em cerca de 90 países, “voltada para o fortalecimento do setor privado”, “oferecendo consultoria, administrando ativos e investimentos”, para o que dispõe de capital da ordem de US$ 2,5 bilhões. No relatório de seu ano fiscal encerrado em 30 de junho de 2019, retiramos que seus compromissos de longo prazo, com recursos próprios, atingiram US$ 8.920 milhões, uma alavancagem de mais de 3,5 vezes (!).

Porém, a era da escravidão exclusivamente por dívida já é passado. As finanças, aí incluídas as significativas parcelas de origem marginal, ilícitas, criminosas, têm agora por objetivo a nova pedagogia colonial, que não escraviza o bolso, mas a consciência, o fulcro da existência individual e social. A escravidão pelo bolso sempre é limitada pela finitude de recursos materiais e monetários. A escravidão pela consciência não, é tão infinita e ilimitada quanto ela.

Como nossos cultos leitores sabem, a pedagogia colonial é o instrumento secular de manutenção do poder nas sociedades humanas. Um exemplo bastante conhecido é o da religião católica, na Idade Média, submetendo inclusive monarcas, nobres e senhores de terras, o que se dirá da população pobre, analfabeta e supersticiosa. Não negamos, contudo, a importância do catolicismo, naquele período, para a manutenção da unidade espiritual em tempos de fragmentação política e para a preservação da filosofia grega e das instituições romanas, bases da civilização ocidental.

Vejamos como a IFC se credencia na área educacional, com base em seu próprio texto, em tradução livre:

“O primeiro empréstimo do Banco para um projeto de educação foi feito em 1962. Desde então, tem se expandido tanto o volume de seus empréstimos educacionais, quanto a gama de atividades assistidas. O Banco ajudou a construir ou melhorar uma ampla variedade de instituições e de escolas primárias”.

“O Banco apoia três formas de treinamento: geral para redução de desempregos no mercado de trabalho; treinamento nos setores rural e urbano dentro de projetos de desenvolvimento urbano ou rural; e para universidades e formação de professores. Educação básica, incluindo programas de alfabetização, tem recebido mais apoio nos últimos anos. O Banco apoiou o projeto vocacional e de treinamento agrícola”.

“Igualmente desenvolve assistência para rádio educacional e televisão; para unidades educacionais móveis; para estudos educacionais; e para produção e distribuição de livros e materiais didáticos e equipamentos. Muita ajuda foi dada para melhorar o planejamento e a avaliação de programas educacionais”.

“O Banco agora está como um dos maiores fornecedores de assistência e ajuda para o desenvolvimento educacional e formação. Investimento em pessoas é de importância fundamental no desenvolvimento dos países. Produz altos retornos para desenvolvimento econômico de longo prazo”. (The World Bank & International Finance Corporation, Washington, D.C., U.S.A., First printing: June 1983).

Analisemos, com a maior das boas vontades, este projeto banqueiro de educação. Primeiro é necessário entender o que seja educar. É ter bons modos à mesa? É saber como se vestir e proferir frases delicadas e respeitosas com terceiros? É estar bem adestrado e conformado para produzir o máximo durante o maior tempo, com a menor retribuição possível? É repetir o que ouviu com muita fé e pouco entendimento?

Tudo isso é encontrado nas respostas sobre o que é educação, quando a pergunta é dirigida a pessoas que não são da área do ensino. Mas, curiosamente, também a ouvimos de professores e, em especial, de religiosos que se arvoram em educadores.

Educar, de acordo com manifestações de grandes brasileiros, educadores e políticos, é:

“O brasileiro não crê em si, nem no poder do trabalho, e daí vem que ele só se educa para a vida passiva de empregado” (Manoel Olympio Rodrigues da Costa, 1872);

“Num país onde o ensino não existe, quem disser que é conservador em matéria de ensino volteia as costas ao futuro e desposa os interesses da ignorância” (Rui Barbosa, 1883);

“Três princípios da Escola Nova: o primeiro princípio, porque constante em todos os sistemas renovados, é o respeito à personalidade do educando ou o reconhecimento de que deverá ele dispor de liberdade. O segundo resulta da compreensão funcional do processo educativo, quer sob o aspecto individual, quer social. O terceiro princípio abrange a compreensão da aprendizagem simbólica em situações de vida social” (Manuel Bergström Lourenço Filho, 1963);

“Existem diversas forças e tendências em jogo na crise educacional vigente. De um lado, temos o desejo positivo da população por mais educação escolar e a imposição das necessidades de local e de tempo para esta educação melhor, mais eficiente e variada. De outro, temos nossa pobreza de recursos a buscar por uma falsa filosofia de educação, fundada em resíduos de uma teoria de treino da mente por estudos abstratos ou livrescos, reduzir a escola a turnos excessivamente curtos e o programa a disparatados exercícios intelectuais, transformando (o ensino) em puro formalismo ou farsa” (Anísio Teixeira, 1969).

Por seis décadas, o Banco Mundial vem impondo seu projeto educacional na África: que melhoras ocorreram nas sociedades da Guiné, do Senegal, de Serra Leoa, Tanzânia e toda a área do Sahel (faixa de 5.400 km ao sul do Saara, composta, ao menos parcialmente, por 16 países) onde a IMF e o WB alocam recursos? Apenas a manutenção da exploração e da pedagogia colonial.

A prioridade do pagamento da dívida, nas administrações dos países, obriga à educação que os escraviza. No final das contas, toda dívida financeira precisa ser vista pelo devedor como uma dívida espiritual, cujo pagamento, sempre insuficiente do ponto de vista do credor, induz novas e mais complexas formas de espoliação.

 

(*) Felipe Maruf Quintas é doutorando em Ciência Política.

(**) Pedro Augusto Pinho é administrador aposentado.

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