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O que fazer após a pandemia?

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“Tudo o que temos somos nós mesmos. Mesmo isolados, precisamos nos aproximar dos outros e construir a maior resistência possível, porque tudo está em risco”. (N. Klein)

 

Que lutas cabem aos movimentos de esquerda durante a pandemia de Covid-9? E o que fazer depois?

 

Para refletir sobre estas questões, a Rising Majority – coletivo que surgiu em 2017 e que engloba organizações e movimentos de vários setores na busca de construir uma esquerda comprometida com a democracia radical, anticapitalista e antirracista – realizou, em 2 de abril, o debate online agora publicado pela Editora Boitempo.

 

O encontro discutiu os rumos da globalização durante e após a pandemia de Covid-19 e como a doença atinge principalmente os pobres, os negros e as mulheres ao redor do mundo. Além de Angela Davis e Naomi Klein, a conversa, mediada por Thenjiwe McHarris, contou com a participação dos ativistas Cindy Wiesner, Maurice Mitchell e Loan Tran.

 

Sobre a relação entre a pandemia e as falhas do capitalismo atual, e quais as ameaças contidas nas soluções propostas pelo “capitalismo do desastre”, Klein aponta que o capitalismo é o desastre, pois a pandemia é resultado da guerra contra a natureza, possibilitando a migração do vírus de animais selvagens para o nosso organismo. Assim como o Covid-19 ataca sistemas imunológicos enfraquecidos, diz que o sistema econômico capitalista enfraqueceu nosso sistema imunológico coletivo.

 

“Degradou os sistemas de saúde públicos, privilegiou os sistemas privados lucrativos, propiciou as condições em que os trabalhadores são considerados descartáveis e favoreceu a destruição ambiental para o fortalecimento do lucro”, resume. Naomi aponta ainda os ataques à democracia, com as manobras autoritárias do húngaro Victor Orban, do estadunidense Donald Trump, do israelense Netanyahu e do infelizmente brasileiro Jair Bolsonaro.

 

Angela Davis destaca a importância da conexão entre as pessoas que se sentem sozinhas durante o isolamento social como forma de fortalecimento e energização mútuas, principalmente para as populações mais vulneráveis, como o povo palestino e outros sujeitos a formas de repressão. E ressalta a importância da luta abolicionista voltada para a população carcerária, inclusive os imigrantes, para quem o confinamento “pode ser equivalente a uma sentença de morte”. Desencarceramento, diz ela, é uma importante estratégia abolicionista, não apenas para os que estão atrás das grades, mas pela saúde de todos.

 

Numa situação inversa, mas igualmente precária, está quem não tem outro local para se abrigar a não ser a rua. Como brasileira, penso imediatamente na numerosa população sem-teto de nossas cidades, largada ao frio, à chuva, à violência urbana, sem comida nem condições mínimas de higiene. A que milhares de distância se encontram essas pessoas de qualquer conexão com o outro, que na maioria das vezes sequer as considera suas semelhantes!

 

Diante deste panorama de desigualdade e injustiça, o que nos cabe fazer? Klein aponta que, quando o capitalismo produz suas próprias crises e tais injustiças são expostas ao mundo, é criada uma grande oportunidade para a esquerda. Neste momento, ela diz, eles (os capitalistas) têm medo de impormos nossas exigências, como as prisões vazias e moradias para todos. “É hora de dizer: se as grandes empresas, que controlam as atividades mais poluentes do planeta, companhias de gás, de petróleo, fábricas de automóveis, companhias aéreas, estão pedindo socorro, isso tudo nos permite assumir a propriedade desses setores, que estão em guerra contra a vida na Terra, e cuidar dos seus trabalhadores”, abrindo a porta da transformação radical pelo maior tempo possível. Lembra que a crise econômica global de 2008 levou as pessoas a ocuparem as praças e daí surgiu o Podemos na Espanha (hoje Unidas Podemos, no governo em coalisão com o PSOE).

 

É o momento, diz Klein, da classe trabalhadora que está na linha de frente no combate ao vírus, seja na prestação de serviços, nas funções de cuidados da Saúde ou como produtora e distribuidora de alimentos, dar-se conta de sua importância para manter o mundo girando. E cabe a nós, da esquerda, apoiar esses trabalhadores de todas as formas possíveis.

 

Para Angela Davis, o racismo, a falta de moradia, as prisões, bem como as questões de trabalho precário nas linhas de frente no combate ao vírus são todas questões feministas. Domésticas que perderam o emprego, cuidadoras de idosos, vítimas da violência de gênero ou de abuso infantil confinadas com seus abusadores, também são questões feministas, acrescenta.

 

E o que está por vir?

 

Para Cindy Wiesner, ativista da Grassroots Global Justice, ou quebramos o neoliberalismo global ou deixamos para a direita a oportunidade de impor um futuro de autoritarismo e fascismo. “Ou imaginamos a reorganização da sociedade em nível global, ou veremos aumentos da repressão, militarização e perda de direitos”. Temos ainda, lembra, que nos posicionar contra a guerra, pelo fim das invasões territoriais e das sanções a países como Cuba, Venezuela, Irã, Coreia do Norte, Palestina e Zimbabue. E de analisar as oportunidades que os movimentos sociais apresentam na produção alternativa de alimentos, que contribui para o equilíbrio climático. De defender uma economia feminista e regenerativa capaz de salvar o planeta, em oposição ao sistema capitalista, colonialista, patriarcal e racista imposto por Trump, Bolsonaro e outros.

 

É hora de lembrarmos, nós brasileiros, a atuação do MST não só na produção de alimentos orgânicos para a comercialização, como também na sua distribuição para a população carente das periferias de nossas cidades neste momento de pandemia e de ausência de políticas públicas de amparo aos mais vulneráveis. Sem esquecer a luta constante do MTST na construção de moradias para a população sem-teto.

 

Os aspectos relativos às campanhas eleitorais dos partidos de esquerda foram abordados por Maurice Mitchell, do Working Families Party. A principal adaptação necessária por parte dos movimentos organizados foi a necessidade de abandonar o contato pessoal, desde as conversas cara a cara, porta a porta, aos grandes comícios, devido à necessidade do isolamento social para evitar o contágio.

 

Mitchell destaca como estratégias de mobilização neste momento o engajamento em todos os meios de comunicação, os telefonemas, as mensagens de texto e os contatos virtuais (as lives tão populares no Brasil atualmente, por exemplo). Além disso, recursos como o uso de cores nas portas e janelas, as vozes, as músicas, as panelas. E daqui do meu canto faço a pergunta: por que cessaram os panelaços e gritos no Brasil, logo agora que a ofensiva fascista cresce em ousadia?

 

Mas voltando às reflexões de Mitchell, ele diz que a lógica do capitalismo neoliberal perdeu o sentido, mas que farão o necessário para sustentar o sistema, ainda que seja propiciar subsídios a algumas pessoas (lembremos os nossos magros seiscentos reais). Ele também ressalta a importância dos movimentos sociais, e das pessoas provenientes desses movimentos no panorama eleitoral, concorrendo a cargos políticos. “Os trabalhadores devem conquistar todos os níveis de poder – eles simplesmente não possuem nenhuma outra ferramenta a não ser as ferramentas eleitorais”. Acrescenta que as eleições não são a única estratégia do momento. Greves de trabalhadores essenciais como entregadores de comida e produtos, recusa de pagar os aluguéis e hipotecas são outras ações possíveis, além da ajuda mútua, que tem crescido muito (inclusive no Brasil, é importante lembrarmos). São manifestações “inspiradoras e acalentadoras para quem precisa desesperadamente delas”, diz, para que a democracia continue e a sociedade civil floresça.

 

Lembra Mitchell que o tempo é frágil e incerto e que os autoritários de todo o mundo seguirão uns aos outros, e este não é o momento para as pessoas da esquerda falarem apenas com a própria esquerda. Considera-o como uma oportunidade para as soluções de esquerda inspirarem todo um país.

 

Representando o Southern Vision Alliance, Loan Tan destacou o discurso anti-asiático que acompanhou o surgimento da pandemia como uma manifestação do capitalismo racial que tem como alicerce a supremacia branca. Atinge igualmente negros, muçulmanos, pardos e indígenas. “A culpa não é do povo asiático, nem dos negros, dos migrantes, das mulheres nem da classe trabalhadora”. E resume: o Sars-Cov-2 é o vírus; o capitalismo, a crise e nossa organização e solidariedade são a resposta.

 

Para finalizar, Klein lembra o poder transformador de uma crise com a experiência argentina de 2001, quando a falência, e o abandono das fábricas pelos empresários, possibilitou a reconstrução a partir dos escombros, quando elas foram ocupadas pelos trabalhadores e transformadas em cooperativas. Haverá novamente o colapso das pequenas empresas. A organização digital é outro ponto a levar em conta, pois ela lembra que o direito à internet, que é um bem público, está nas mãos de poucas empresas. “Precisamos nos encontrar sem a permissão de Mark Zuckerberg”. E Davis apontou a obsolescência do estado-nação como uma oportunidade para criarmos uma organização duradoura rumo a um futuro melhor.

 

Com estas palavras alentadoras da mediadora Tenjiwe McHarris encerrou-se a conversa: “Nossa cura é a comunidade, é o amor. O que nos ajudará nestes tempos é saber quão poderosos somos”.

 

Serviço:

Livro: Construindo movimentos – uma conversa em tempos de pandemia
Autores: Angela Davis, Naomi Klein e outros
Tradução: Leonardo Martins
Editora: Boitempo, 2020

 

 

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