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O preço tarda, mas não falha

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O Brasil chega a este fim de semana com a vacinação anti-Covid paralisada em muitas de suas grandes cidades e de modo geral restritas a profissionais da área médica e pessoas com 85 anos ou mais. Essa situação deve ser debitada à conta do governo federal, tanto pela criminosa irresponsabilidade de Bolsonaro ao atrapalhar programas de importação e produção de vacinas como o do Butantan, quanto por sua cegueira a longo prazo diante dos retrocessos da economia brasileira em nome da antiqualha senil de sua cartilha neoliberal.

 

Como é que Cuba, com 11 milhões de habitantes, população menor que a da cidade de São Paulo (12 milhões), e com um parque industrial muito menor e menos diversificado que o do Brasil, já chegou aos testes finais de pelo menos uma vacina própria e tem três outras em andamento?

 

Os retrocessos e o processo de desindustrialização da economia brasileira não começaram com Bolsonaro, começaram com o governo Collor, logo depois que no governo Sarney o Brasil chegou ao domínio de ciclo completo do combustível nuclear. Como é que um país teoricamente capaz de produzir a bomba atômica não consegue, mais de trinta anos depois, produzir uma vacina equivalente à de Cuba e às outras que já se provaram eficazes?

 

O governo Bolsonaro teve um ano e não o aproveitou, para pelo menos pensar nisso à medida que recebia as notícias do que se fazia ao redor do mundo. Os ministros da Saúde anteriores, os médicos Mandetta e Teich, podiam ser fãs ardorosos do modelo neoliberal, mas pelo menos eram médicos e podiam avisar Bolsonaro de que estava comendo mosca. O atual comeu mosca junto e o Brasil paga um preço que tardou mas não falhou.

 

O governo Bolsonaro nos obriga a pagar esse preço inclusive por ter entregue o Ministério da Ciência e da Tecnologia a um oficial da Aeronáutica cujo único título de aptidão para o cargo era ter participado de um voo espacial em órbita da Terra. Incapaz de ficar quieto, esse ministro ainda brindou o país com o anúncio de um remédio milagroso contra a Covid: um vermífugo.

 

Esse mergulho numa atmosfera espessa e escura da ignorância mais arrogante acontece num país que já foi a sexta economia industrial do mundo, mas agora nem tem no próprio “mercado” que manda em tudo alguns porta-vozes que cobrem a retomada de uma política industrial capaz , entre outras coisas, de permitir a seus agentes ganharem  mais dinheiro do que já ganham.

 

Mergulhados nessa atmosfera, o governo, a grande mídia e a aristocracia financeira do país nem percebem o quanto está acontecendo fora do Brasil, o quanto a pandemia já começou a impor mudanças radicais na política econômicas de vários governos.

 

Em eleições na Nova Zelândia, a primeira-ministra Jacinda Ardern, da ala mais conservadora de seu Partido Trabalhista, consolidou sua maioria anunciando que vai estudar a redução da semana de trabalho de cinco para quatro dias, a fim de combater o desemprego. Nos Estados Unidos, o Presidente Biden tomou posse há um mês anunciando que vai aumentar o salário mínimo de 7,25 dólares por hora para 15 dólares, um aumento de mais de 100%.

 

No Brasil nem se cogitou ainda, apesar de pesquisas promissoras como a da Universidade Federal do Paraná, de uma vacina que não dependa de parcerias com oaíses e organizações estrangeiras.

 

Também nada se propôs para dar habitação digna e saudável aos milhões de brasileiros que vivem nas favelas, amontoados em casas mínimas, coladas umas às outras, sem ventilação e muitas vezes sem água. Tal situação não ameaça apenas a população favelada, ameaça cidades inteiras, e a Covid já mostrou que para proteger os mais ricos é preciso primeiro proteger os mais pobres.

 

Esse é outro preço que tardou mas já começa a ser cobrado.

 

Bolsonaro e a Petrobrás

Até a reação do “mercado” está demonstrando que Bolsonaro decidiu certo ao demitir o presidente da Petrobrás, Roberto Castelo Branco, que só pensava nos dividendos dos acionistas minoritários e privados, em prejuízo do país. E não devemos reclamar por ter escolhido para o cargo um militar, o General Luna.

 

A presidência da Petrobrás é perfeitamente compatível com a condução de militar de seu ocupante, porque petróleo é produto estratégico e tem tudo a ver com a segurança nacional, não é commodity, como pretendem abutres do “mercado” como o demitido Castelo Branco.

 

A reação vai ser forte, vamos ver até onde o Bolsonaro aguenta.

 

Só 130 votos, bem menos que um terço

 

Do total de 513 deputados, foi o que os defensores enrustidos do tal Daniel Silveira conseguiram na decisão da Câmara sobre a prisão desse agente provocador de extrema-direita. Até bolsonaristas de carteirinha votaram contra ele e nenhum ousou defende-lo, pretextaram votar em defesa da não-interferência de outro poder no Legislativo.

 

Terão percebido que as coisas mudaram e não são mais as mesmas?

 

De olho no mundo… 

 

O Partido Liberal Democrático, PLD, que governa o Japão, praticamente sem contestação, desde 1955, há mais de sessenta anos, decidiu este mês dar uma demonstração de que evolui para a igualdade de gênero em sua direção, uma comissão executiva de 12 membros, composta atualmente de dez homens e apenas duas mulheres.

 

Foi uma tentativa de compensar o caso criado por um de seus dirigentes, o ex-Primeiro-Ministro Yoshio Mori, que teve de renunciar à presidência do comitê dos Jogos Olímpicos de Tóquio depois de dizer em público que reuniões com a participação de mulheres eram intermináveis e tediosas porque elas falavam demais.

 

O secretário-geral do partido, Toshihiro Nikai, decidiu então que chegara a hora de dar maior presença às mulheres nas reuniões mais importantes da direção e um grupo de cinco mulheres foi convidado para a reunião subsequente. Elas foram avisadas de que na reunião teriam oportunidade de ouvir os debates e de ser vistas, mas não de falar e ser ouvidas.

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitíba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

 

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