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O poder tremeu, mas pode avançar para o Totalitarismo

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(Reflexões no 1º. de maio de 2020)

 

Antes de tudo, os artigos que se escrevem nos dias que correm, devem ser datados. Pois a velocidade das coisas no mundo líquido, além de nos causarem um mal-estar (pós-modernista), muitas vezes escapam no fluxo da memória, pois são de uma celeridade nunca antes vista. Lembro-me do fenomenal livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, do jornalista americano John Reed sobre a distante Revolução Russa.

 

Neste Primeiro de Maio de 2020, em que o trabalhar foi e está ressignificado, queiram alguns ou não, especialmente em função da Pandemia, me põe na obrigação desta reflexão mais aprofundada sobre os dias em que vivemos e tudo que é possível aprender com a História, com os legados do Iluminismo, da Ciência, da Filosofia, do estudo da Linguagem, do Saber.

 

Há dias escrevi um texto dizendo que o “o poder treme” ao tratar da briga Moro-Bolsonaro – http://adelisell.com.br/artigo/81-o-poder-treme-(adeli-sell)

 

Seguindo esta trilha de busca daquilo que se passa neste Brasil de 2020, convido vocês a ler o que escrevi para analisar as chamadas Jornadas de junho de 2013, onde o “Ovo da Serpente” começou a ser chocado: – https://www.sul21.com.br/colunas/adeli-sell/2015/11/as-mascaras-das-jornadas-de-junho-de-2013/

 

Com as posições de contraposição à ciência, às recomendações da OMS, àquela dos médicos aparece sempre a figura do presidente e seus leões (e leoas) de chácara, com chacais juntos (chocante), com víboras soltas e destilando veneno para propor carreatas da morte, ir aos quartéis e na frente do Palácio para afrontar a Constituição Federal, criando um caldo de cultura pró-fascismo com inimigos claramente escolhidos.

 

Em 1904, tivemos no Brasil a Revolta da Vacina, cujas quebradeiras e mobilizações são parecidas com as Jornadas de junho de 2013, com o apoio de uma facção política esclarecida daquela época, os castilhistas, então, imaginem agora que a facção é a mais retrógrada possível. Para entender é preciso ler “Os Bestializados” de José Murilo de Carvalho, cuja resenha e apontamentos fiz num texto: – http://adelisell.com.br/artigo/43-os-bestializados-(adeli-sell)

 

Olhando para as cenas de manifestações em curso no país, é preciso analisar como as democracias morrem. Isto me fez ler o livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, o qual resenhei e comentei: http://adelisell.com.br/artigo/63-“como-as-democracias-morrem”-(adeli-sell)

 

Hamilton, um dos construtores da democracia americana, disse: “A história nos ensinará que entre os homens que subverteram a liberdade de repúblicas, a maioria começou carreira cortejando obsequiosamente o povo, começaram demagogos e terminaram tiranos”.

 

Nada mais atual para os dias de hoje, pois o presidente cortejou o povo, fala de forma rebaixada e grosseira para ser um “igual”, e o povo – em parte – mais ou menos um terço da população, segundo pesquisas, ainda se deixa cortejar por este tipo de comportamento.

 

As atuais pesquisas mostram sua queda, ainda tímida. Portanto, cuidado, a besta continua solta e há outras tantas pessoas desnorteadas que a seguem de cabeça baixa, mesmo vendo o fantasma da morte à sua frente, o desemprego bater à sua porta, a fome rondar lares e lares.

 

Não pode ser esquecido a frase lapidar de Hannah Arendt, em se tratando de poder: “O poder nunca é propriedade de um indivíduo; pertence a um grupo e existe somente enquanto o grupo se conserva unido.”

 

Quando das manifestações contra a democracia, o presidente foi ao encontro da escumalha fascista e disse: “O pessoal geralmente conspira para chegar ao poder. Eu já estou no poder. Eu já sou o presidente da República”, disse Bolsonaro, que, em outro momento, afirmou: “Eu sou, realmente, a Constituição”.

 

Ele não é o Luis XIV, o mais longevo dos reis totalitários do mundo, que disse esta frase que simboliza o poder absoluto.

 

Esquece o presidente que não somos uma Monarquia. Nós somos uma República, torpedeada – é verdade – por ditadores, por populistas, oportunistas, mas que resiste, nos dando como Nação uma carta constitucional cidadã.

 

O presidente ao ser desconcertado por decisão do STF a respeito da sua indicação para a Polícia Federal atacou o Ministro que decidiu em contrário a seu desejo, para depois se justificar:

 

“Fiz um desabafo hoje de manhã. Não ofendi ninguém, nem nenhuma instituição. Tenho convicção disso. Apenas me coloquei no lugar do Ramagem”!

 

Ele fala por ele e pelos amigos, pela família, pelos seus cães de aluguel, jamais

fala pelo povo, pela representação do status de presidente da República.

Para comprovação, eis a fala do Presidente dos seus:

 

“O crime dele, o errado, foi participar da minha segurança”, ironizou, lembrando que Ramagem foi chefe da segurança dele. “Ali nasceu uma amizade. Assim como você tem com a pessoa que trabalha na sua casa, na sua empresa. Ele tomava café comigo. Acho que ele foi num casamento de um filho meu.”

 

Estas bravatas não se coadunam nem com a realidade fática, pois a ação da Corte para barrar nomeações está longe de ser um consenso no meio jurídico. Poderia ter sinalizado para um Ministro seu apontar estas contradições, mas todo projeto de ditador tem que ter um ou alguns inimigos os quais ataca como se repetisse um mantra; e quem fala é ele, o ser absoluto, quase sempre de forma rebaixada, ofensiva, vulgar, mas que seja compreendido.

 

Ditadores adoram a corja, tem satisfação com a bajulação, não se incomodam

com a baixaria, com populismos e puxa-saquismos. É a personificação das escórias.

 

Como me escreveu uma amiga: “É um líder dos horrores! Ele fala uma linguagem cruel e comum em uma grande parcela povo! A simplificação que alguns dos nossos líderes fazem sobre ele é um dos piores erros.”

 

Voltando novamente a Hannah Arendt e seu brilhante “Eichamnn em Jerusalém” vimos ali um sujeito pacato, simples, uma figura meio que oposta a esta do atual presidente, mas que cometeu as maiores atrocidades do mundo. É preciso entranhar o âmago das questões e da mente para entender a Banalidade do Mal. Tanto o serviçal de plantão como o mandante de ocasião, mais silente ou mais fanfarrão são a personificação do que o ser humano é capaz de fazer: levar pessoas em trens para a Câmara de gás ou levar pessoas a se infectar de um vírus que é de uma letalidade só vista há um século com a gripe espanhola.

 

Deve-se estar atento à linguagem, pois como já debati – noutros momentos – que não é tão simplista querer diferenciar governo de poder, e o presidente diz: “Eu já estou no poder”.

 

Ele está no governo da República. Ele está no poder de certa forma, mas seria ele a Constituição? Não. Ele é e deve ser seu guardião e não é; deveria incrementá-la e ele a tolhe e ataca.

 

Voltando a Hannah Arendt para entender as pessoas. Eichamnn se colocava como um burocrata servindo a um governo. Mas um servidor tem discernimento entre o que é uma função administrativa e um crime contra a Humanidade. Ele não agia assim fora daquele contexto social, ele era ali a irmanação do poder absolutista do Führer, palavra que não apenas significa “líder”, mas “guia”; sendo que um guia se segue para não se perder (o poder).

 

Só para lembrar a História e compreender os passos do atual presidente, ao nomear o chefe da Polícia Federal e o Ministro da Justiça:

 

Após a aprovação da “Lei de Concessão de Plenos Poderes de 1933”, que concedeu poder total a Hitler, o ditador suprimiu o escritório do então presidente alemão Paul von Hindenburg e tornou-se o seu sucessor”.

 

Isso violou a própria Lei de Concessão de Plenos Poderes e Hitler não usou o título como “presidente”. Ele se autodenominou “Führer e Chanceler do Reich” (chanceler é o título dado ao chefe do Poder Executivo alemão).” – https://www.significados.com.br/fuhrer/.

 

 

Os que se elegem num processo democrático, como apontam os autores de “Como morrem as democracias”, como também nos ensina Umberto Eco em “O fascismo eterno”, eles sempre assumem que tem seus inimigos – PT-STF- mídia – e impingem aos outros o que eles são de fato: “acabou a época da patifaria” e gritou palavras de ordem como “agora é o povo no poder” “não queremos negociar nada”.

 

Uma das manchetes que leio neste dia: “Bolsonaro chama Globo de ‘lixo’ e ameaça não renovar concessão em 2022”

 

Em qualquer fala do presidente há ataques aos governos do PT (“patifaria”), como fonte de todos os males, ataques – como vimos – acerca da nomeação de Ramagem e ataques “ao lixo da Rede Globo”.

 

O presidente como qualquer projeto de ditador – é preciso repetir – arma, monta, inventa inimigo(s). No caso, ele se pauta pelo tripé: PT-STF-mídia!

 

E seus asseclas repetem isto o dia inteiro em redes sociais, seja como robôs, seja como “militantes”. Sim, o bolsonarismo tem uma grande rede de militantes, muitos deles mais bilontras do que bestializados, para lembrar José Murilo de Carvalho.

 

Creio que falta para as esquerdas em geral, para os democratas, operadores do Direito, mais leituras amplas, menos ortodoxas, texto para compreender o Brasil, como Raízes do Brasil, Os Donos do Poder, O povo brasileiro, só para citar alguns clássicos.

 

Claro, claríssimo, evidente, isto não é a fala de um “idiota da Corte”; é de um candidato a “führer”, pois os outros são os patifes, quando, na verdade, a corja

que o cercava era, repetindo, a escumalha da sociedade, pronta como víboras soltas para dar o bote e mergulhar na noite escura do fascismo.

 

Os partidos políticos seguem um rito formalista diante de temas diversos, complexos e até de natureza de segurança nacional, pois o ato tresloucado do presidente de ir ao encontro de um bando de fascistas atenta contra a Segurança Nacional, o que mereceria outras posturas, unidade na busca de uma denúncia internacional puxada por parlamentares e partidos, organizações de Direitos Humanos, OAB, pedidos de impedimento coletivos, ações conjuntas de governadores com suas casas legislativas; mas o que se vê é cada qual querendo fazer “a sua parte”, demarcar política e ideologicamente, a cada momento, sem entender o que está em jogo: continuidade do Estado (Democrático) de Direito.

 

Sabemos como a divisão entre os sociais democratas e comunistas em 1933 na Alemanha abriu caminho para o Führer.

 

Foi só colocar numa rede que o Ministro do STF Alexandre de Moraes

suspendera a posse do tal delegado Ramagem que a malta viesse com postagens impublicáveis sob todos os pontos de vista. Mas registradas; pois, algumas ações certamente chegarão aos Tribunais.

 

Estamos diante de um momento complexo que exige ações ousadas, não simplistas. E aí vem a pergunta: a oposição a Bolsonaro está preparada para este embate que se passa na antessala do fascismo¿

 

Não é sensato agir pura e simplesmente para se livrar da desastrosa figura de Bolsonaro. Ele é apenas um indivíduo, mesmo capaz dos piores estragos como vimos. Não age sozinho. Esteve e está escorado pela escória do seu círculo de maldades (e espertezas) e parvadezas (bestializados) aparentes. Eles são mais maus que bestas. Tudo isto, todas as ações deste grupo foram mais do que nefastas ao povo desde que ele se elegeu com mentiras a Presidente da República, em especial acerca do combate à pandemia, nos dias em que vivemos.

 

Assim, o foco dos sensatos, dos que creem na ciência, na vida, no Estado (Democrático) de Direito continuará sendo o combate à doença, pela saúde para todos, com as medidas sanitárias recomendadas pela OMS e pelos cientistas.

 

Hora de combater nos quatro cantos deste país a crendice, a sandice fascista, os enganadores de almas.

 

Por isso, insistimos que o poder tremeu com a saída do Moro, com a suspensão do Ramagem, com os questionamentos do minion Ministro (Jorginho) da Justiça, pois tudo é diminutivo neste governicho. Mas o poder quer mais poder, para se manter precisa de mais poder, aí vai sendo construído o totalitarismo.

 

É preciso construir uma grande união progressista em defesa do Estado (Democrático) de Direito, da Constituição – guardiã de Direitos – surgida da vontade soberana do povo.

 

Adeli Sell é bacharel em Direito e vereador líder da Bancada do PT em Porto Alegre

 

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