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O pesadelo do qual não conseguimos acordar

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 Na semana anterior, as revelações tinham sido na terceira pessoa, feitas pela advogada Bruna Morato, em nome dos médicos denunciantes dos métodos assassinos nos hospitais da Prevent Senior, um horror praticado em benefício do corte de custos e do aumento de ganhos dessa empresa.

 

Nesta semana repetiu-se o horror, agora na primeira pessoa, com a revelação do ex-paciente Tadeu de Andrade sobre os dias a que conseguiu sobreviver num hospital da Prevent Senior, depois das tentativas de impor-lhe o “tratamento paliativo” que seria sua sentença de morte. 

 

Horror é uma palavra insuficiente para definir o tipo de experiência e de prática que a Prevent Senior conduzia, aproveitando para reduzir seus custos de UTI, que eram cortados juntamente com a expectativa de vida dos pacientes consignados ao tal tratamento paliativo, que a deontologia médica só admite em casos nos quais foram esgotados todos os recursos médicos para salvar a vida das pessoas. Não é sem razão, portanto, que os métodos da Prevent Senior sejam comparados aos do infame Dr. Mengele nos campos de concentração da Alemanha nazista.

 

Ao lado disso, outro horror, cuja revelação torna assustadora para qualquer pessoa a hipótese de ter de se internar num hospital em que os médicos são obrigados a cantar um hino de conotações e até de tom melódico e rítmico nitidamente de extrema direita e a observar uma palavra de ordem que exige, como o nazismo exigia, “obediência e lealdade”.

 

Além disso, toda a linguagem da organização é inspirada por noções como a de médicos chefes de unidades identificados como “guardiões” e a de um “Pentágono” como o posto de comando a ser obedecido.

 

Como um médico obedecer ao diretor leigo que impõe a suspensão do tratamento em UTI quando decorrido um prazo arbitrário que nada tem a ver com o estado do paciente e a evolução de seu caso? Como um médico pode ser obrigado a receitar um Kit Covid que inclui a cloroquina, mesmo depois de desautorizada pelos estudos científicos mais sérios? Como um médico pode ser proibido por seu “guardião” de usar máscara ao examinar um paciente?

 

Ao ouvir essas revelações era difícil a qualquer pessoa acreditar que tais coisas aconteciam de fato, mesmo num mundo enquadrado nos padrões do neoliberalismo em decadência e num pais submetido a um governo como o de Bolsonaro. Mesmo no Brasil de Bolsonaro, isso tudo é inacreditável.

 

A cumplicidade do governo com esse horror só demonstra que no Brasil o neoliberalismo de extrema direita ultrapassou todos os limites até aqui observados. Nem nos governos mais extremados da extrema direita contemporânea as coisas chegaram a esse ponto. Aqui, as noções, a insensibilidade, a estupidez, a boçalidade do governo transbordaram para a sociedade e permitem, por exemplo, que os dirigentes de uma organização como a Prevent Senior considerem normal e legal tudo o que fazem.

 

Desse transbordamento decorre também todo um cotidiano de outros horrores, tão diversos e múltiplos que o governo parece deliberadamente empenhado em atormentar a vida de um povo do qual espera a reeleição em 2022.

 

É o caso, por exemplo, do inexplicável veto presidencial ao projeto que mandava disponibilizar absorventes menstruais para adolescentes pobres. É o caso da suspensão em 2022 da compra da vacina Coronavac, do Butantan, que imunizou cerca de metade da população brasileira. É o caso da sequência ininterrupta de aumentos da gasolina e do gás de cozinha no momento em que pessoas pobres morrem de queimaduras tentando cozinhar com álcool e em que outras pessoas ainda em situação pior se acotovelam diante de restos de carne em busca de ossos e pelancas.

 

A propósito, o noticiário já registrou um caso de açougue que tomou a providência de avisar num cartaz: osso é para vender, não para dar. Essa degradação da vida coletiva é inédita no Brasil e reflete bem a que ponto chegamos, mergulhados, como aquele personagem do escritor James Joyce, num pesadelo do qual não conseguimos acordar.

 

(*) José Augusto Ribeiro – Jornalista e escritor. Publicou a trilogia A era Vargas (2001); De Tiradentes a Tancredo, uma história das Constituições do Brasil (1987); Nossos Direitos na Nova Constituição (1988); e Curitiba, a Revolução Ecológica (1993). Em 1979, realizou, com Neila Tavares, o curta-metragem Agosto 24, sobre a morte do presidente Vargas.

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