É uma pena o Brasil conhecer tão pouco o Brasil. E os brasileiros conhecerem menos ainda a sua própria História. As origens da nossa própria formação enquanto Estado são permeadas de múltiplos fatores que se bem estudados, à luz do real conhecimento, explicam parte de nossas características enquanto nação. Dentro em pouco entraremos na contagem regressiva para as comemorações, ou festejos do bicentenário da independência do Brasil. Afastamos desde já quaisquer veleidades de pretender explicar como chegamos até aqui e por quê (?) estamos contemporaneamente nessa encruzilhada entre a barbárie política e o processo civilizatório. Vamos nos ater apenas aos fatos históricos.

 

 

Ao contrário do sobejamente proclamado ao longo do tempo na maioria dos livros escolares a nossa ruptura com Portugal e de que resultou a Independência não foi um gesto de arroubo de um príncipe impetuoso às margens plácidas de um riacho paulista E que brandindo uma espada raivosamente vociferou contra Portugal rompendo os laços entre os dois reinos. E de pronto … o Brasil estava independente. !

 

 

O Brasil desconhece, ou quando o sabe a própria historiografia centrada no eixo do Centro-Sul do país minimiza ou ignora o fato de que houve um Guerra pela Independência do Brasil !. Uma guerra cruenta, que envolveu de lado a lado cerca de 10 mil combatentes, entre paisanos e civis, com batalhas terrestres e ataques navais, combates corpo-a-corpo e milhares de mortos. Uma guerra com heróis e heroínas, dois exércitos em confronto e frotas navais singrando os mares da Bahia de Todos os Santos trocando tiros de canhão e metralha. Essa guerra aconteceu numa determinada faixa do nosso território – o Recôncavo Baiano – com reflexos em outras províncias do Norte como o Pará e Maranhão. Ela começou antes do 7 de Setembro e terminou mais de ano após.

 

 

Nenhum país é livre com tropas estrangeiras ocupando o seu território. E Portugal resistiu à Independência; o seu exército, seus navios de guerra e suas tropas estavam e pretendiam ficar na Bahia para daqui dominar toda a região, que chamamos hoje de Nordeste, mais as capitanias do Norte. Objetivava com isso seccionar o Brasil, deixando ao Reino de Dom Pedro unicamente a região de Minas Gerais ao oeste e ao extremo-sul do Brasil.

 

 

É disso que trata o livro “O Processo da Independência do Brasil no Recôncavo Baiano (Política, Guerra e Cultura – 1820 a 1823)”, de Manoel Passos Pereira (Edfba,2021). Ele repõe a verdade histórica, pondo em debate todo o clima de conspiração que vicejou nas vilas do Recôncavo Baiano e a ebulição vivida nos tempos de guerra. Nesse transe a capital da Bahia foi a Vila de Cachoeira, sede do rebelde Conselho Interino de Governo da Bahia, estando a cidade de Salvador ocupada militarmente pelos portugueses. Por terra o exército brasileiro comandado por Pedro Labatut e posteriormente pelo General Lima e Silva fez o cerco e isolou Salvador. Pelo mar a mesma tática foi feita pelo Almirante Lord Cochrane e João das Botas, com suas frotas de embarcações, bloqueando inteiramente até a capitulação final o acesso a víveres e mantimentos. A cidade viveu dias de pânico e o comando militar português rendeu-se aos fatos.

 

 

Na madrugada de 2 de Julho de 1823 mais de uma dezena de barcos deixavam apressadamente a Baía de Todos os Santos. As tropas lusitanas, comerciantes e famílias inteiras de portugueses, e até padres, que não aceitavam a Independência, voltavam para Lisboa. Eram mais de 5 mil pessoas. Ao meio-dia o Exército Pacificador entrou na cidade conquistada. Foi aclamado pela população que em delírio festejou a libertação.

 

 

Manoel Passos destrincha no livro os fatos que antecederam a guerra, descreve as ocorrências da fase mais turbulenta do conflito e traça um panorama o mais completo possível de todo o fecho desse processo. O conhecimento profundo do tema permeia sua narrativa e a acuidade empresta-lhe a necessária compreensão da política, da guerra e da cultura histórica.

 

O Brasil precisa conhecer o Brasil. !

 

 

(*) Por Jorge Ramos, jornalista e pesquisador. Dirige o Museu Casa de Ruy Barbosa, da Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e é conselheiro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).