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O mundo pós-pandemia

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O surgimento de uma nova doença causa impactos na sociedade, que ultrapassam a saúde dos indivíduos atingidos. É necessário identificar sua causa, se há e qual é o agente etiológico (vírus, bactéria, fungos, protozoários etc.), os possíveis vetores, estabelecer protocolos de atendimento e de tratamento, pesquisar remédios, vacinas e formas de prevenção.

 

Quando uma doença infecciosa assume contornos de pandemia, ou seja, se espalha de forma sustentada em todas ou quase todas as regiões do planeta, os danos atingem mesmo quem não tenha sido contaminado. Desde os sistemas de saúde pública, a economia e as relações de trabalho, até as artes, os aspectoS culturais e mesmo os hábitos pessoais, enfim, toda a Humanidade é afetada, biológica, mental e socialmente.

 

A pandemia do coronavírus SARS-CoV-2 ainda está em franca propagação e os esforços de concentram, simultaneamente, em desenvolver uma vacina, encontrar medicamentos eficazes, abrir leitos e conseguir insumos médicos e equipamentos de proteção para os profissionais da saúde.

 

Mas como será o mundo pós-pandemia? Quais serão as mudanças – se é que haverá mudanças – na vida como a conhecemos até o início do mês passado? Vários cenários e conjecturas são possíveis, das mais otimistas às pessimistas e até niilistas. A História nos dá exemplos.

 

No século XIV, uma pandemia atingiu parte da Europa e da Ásia, incluindo o Oriente Médio, entrando para os livros de História com o nome de Peste Negra (peste bubônica). Causada por uma bactéria e tendo como vetor as pulgas de ratos, estima-se que a peste tenha matado mais de 200 milhões de pessoas no mundo. A população mundial sofreu um decréscimo de 25%.

 

A peste bubônica reduziu consideravelmente a mão de obra camponesa; senhores feudais aumentaram impostos, causando revolta entre os servos. Houve grande migração para as cidades, onde a burguesia já aumentava seu poder econômico e político. A venda de indulgências e as promessas de expiação dos pecados reforçaram o poder da Igreja Católica. Esses elementos colaboraram para a crise do feudalismo.

 

Os sintomas da peste foram descritos em trechos de “Decameron”, do italiano Giovanni Boccaccio, e pintores retrataram a “dança da morte” em suas obras.

 

Em 1º de novembro de 1755, Dia de Todos os Santos para os católicos, Lisboa foi praticamente toda destruída por um grande terremoto que, segundo estimativas atuais, teria atingido magnitude 9 na escala Richter. Ao terremoto, seguiu-se um tsunami com ondas entre 20 e 30 metros de altura. Além disso, incêndios destruíram igrejas, palácios, casas e outras edificações. Dezenas de milhares de pessoas morreram.

 

O grande terremoto de 1755 provocou mudanças, não somente na nova urbanização da cidade de Lisboa, mas na política portuguesa (fortaleceu a figura do Marquês de Pombal), na economia e na política do Brasil Colônia (de onde saíram ouro e impostos para as obras de reconstrução, provocando revoltas), na arquitetura (os novos prédios eram resistentes a abalos sísmicos e as ruas, mais largas), na filosofia (influenciando a obra de Voltaire e de Kant), na religião (a fé e a providência postas em dúvida) e na ciência (busca por uma explicação naturalística e racional, dando início dos estudos modernos de sismologia).

 

A gripe “espanhola” – na verdade, oriunda de uma fazenda no estado do Texas – teria ajudado a decidir a I Grande Guerra em favor dos Aliados (França, Rússia, Grã-Bretanha, EUA, entre outros). Porém, o alto número de mortes de jovens adultos, causadas pela guerra e pela pandemia trouxe uma grave crise econômica e a “geração perdida” dos loucos anos 20.

 

No Brasil, a gripe que vitimou cerca de 35.000 pessoas, entre elas o Presidente Rodrigues Alves, foi pretexto para o mais animado e despudorado carnaval até então, o de 1919, após o fim da pandemia.

 

Qual será o legado da primeira grande pandemia do século XXI? No curto prazo, mudanças de hábitos, como o cuidado com a higiene pessoal e o uso de máscaras, este já incorporado ao cotidiano cosmopolita dos países asiáticos.

 

Já nos parece ultrapassada, ainda no meio da crise, a ideologia neoliberal de

um Estado Mínimo, pouco intervencionista e regulador. Desde a visível importância de sistemas públicos e universais de saúde (como o inglês NHS e o brasileiro SUS), até a inversão industrial, passando pela regulação de venda de medicamentos e máscaras. Acrescente-se o necessário – e já atrasado – aporte de recursos públicos na proteção da população em estado de vulnerabilidade e na ajuda financeira a pequenas e médias empresas.

 

Afinal, a mão invisível do deus-mercado não é suficiente sequer para distribuir álcool em gel com eficiência. Será o caminho de volta ao Estado de Bem-Estar Social?

 

Nas relações internacionais, embora neste momento pareçam prevalecer nacionalismos e até pirataria de insumos médicos, impossível desconhecer a relevância das agências internacionais de cooperação, como a Organização Mundial de Saúde e a ONU. Por outro lado, está evidente o problema da dependência em relação à China, parque industrial do mundo.

 

O mundo pós-pandemia nos aguarda com mais cooperação ou competição? Individualismo ou solidariedade? Simplificação da vida ou correria pelo tempo perdido? Um modelo econômico que melhor distribua a riqueza produzida pelos trabalhadores ou que a continue concentrando no 1% mais rico?

 

Ivo Anselmo Höhn Junior é Juiz Federal

(Publicado no jornal O Imparcial, de São Luís, em 09.04.2020).

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