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O mito sem máscara

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Um fantasma assombra a humanidade: a liberdade. Mas o que é a liberdade?

 

Não iremos tratar de filosofia, mas do cotidiano das pessoas, da vida que tomou outro rumo a partir da última década do século XX, a Era da Banca.

 

O mundo ocidental moderno pode ser dividido no período pré-1914, a era dos impérios coloniais nacionais, no período 1914-1989, a era da industrialização, e no período pós 1989, em que se subdivide a Era da Banca, na dos capitais tradicionais e na dos capitais anônimos, com forte presença dos ilícitos.

 

Antes de 1914, e por 500 anos, tivemos o regime colonial das potências imperiais. Um regime que sofreu alterações de colonizadores, mas manteve as seguintes características: impor o idioma e cultura dos impérios sobre as dos colonizados/nativos, impedir o desenvolvimento tecnológico e a industrialização fora da metrópole, e fazer da colônia um país/região exportador de produtos primários, extrativos e agrícolas. Poderíamos dizer que transformavam o mundo em: dos senhores e dos escravos. Liberdade era um luxo dos senhores, de reduzida parte dos habitantes dos impérios.

 

Em 1914, a guerra, que historiadores chineses denominam guerra civil europeia e nós de I Guerra Mundial, mudou esta colonização. Passamos à era da indústria, que ofereceu dois modelos: industrialização capitalista e industrialização socialista. Na primeira era colonial prevaleceu o modelo mercantil financeiro, nesta segunda era colonizadora vai prevalecer a exportação de produtos e tecnologias.

 

Mas existe uma diferença mais profunda nesta nova sujeição. O desenvolvimento da industrialização tornou necessária a ampliação do mercado consumidor e, em consequência, a afluência de maior número de pessoas aos bens comercializados. A industrialização amplia a classe média e dá melhor condição econômica aos operários, aos que trabalham diretamente com a produção e o comércio. E, com isso, reduz o lucro financeiro, o ganho do investimento monetário, a especulação com as moedas.

 

A classe financeira, rentista, proprietária naqueles cinco séculos não fica, obviamente, satisfeita com esta nova situação da escravidão mundial à produção em massa. E, como é óbvio, às consequências psicossociais desta mudança.

 

Passamos a observar novos modos de interpretar a industrialização, sendo o primeiro e mais permanente, a “agressão” à natureza; como se a devastação dos ecossistemas, produzida na fase anterior, a morte física e cultural de etnias humanas, a extinção de espécies animais nada significassem.

 

O fantasma da liberdade continuava a assombrar, em especial pela existência de áreas onde os ganhos industriais eram divididos para benefício de toda população: o mundo socialista.

 

Surge a terceira fase: a da dívida, da escravização pelo dinheiro que terá duas vertentes: uma que acompanha a industrialização e o consumismo no mundo capitalista e outra do puro rentismo no que denominamos da Era da Banca. Ela se forma inicialmente do “capital tradicional”, denominação para diferenciar do “capital anônimo”, que inclui o “capital marginal”, e que surge no mundo do poder a partir de 1991.

 

E é aqui que retiramos a máscara deste mito da liberdade, do individualismo, da igualdade competitiva, do empreendedorismo, da defesa da natureza, dos identitarismos financiados por grupos, instituições e por pessoas que lucram com a miséria dos outros, da quase totalidade dos habitantes do planeta, e que também agem no sentido malthusiano da redução da população, da morte em massa dos seres humanos. Ou a covid 19 seria apenas um infeliz acaso?

 

O golpe das finanças nas industrializações é perpetrado nos anos 1980 e tem a denominação de “desregulações”, ou seja, nenhum controle sobre os depósitos e movimentações do capital financeiro será efetuado.

 

Apenas entre 1972 e 1989, mais de uma dezena de institutos e fundações são constituídos, somente nos Estados Unidos da América (EUA), para agir como centros de divulgação e de estudos para a tomada e manutenção no poder pelo capital financeiro. São exemplos o Heritage Foundation, o Institute for International Economics e o World Resources Institute, em Washington, o Institute for Contemporary Studies, em São Francisco (Califórnia), o Rockford Institute, em Illnois, e o Institute for East-West Studies, em Nova Iorque.

 

Dos mais importantes “think tank” do sistema financeiro internacional, como doravante abreviarei por “banca”, está o Council for Foreign Relations (1921).

 

Estes capitais trazem uma versão do velho liberalismo, aquele que deu suporte às agressões coloniais, substituindo as missões evangelizadoras dos séculos XV e XVI, no mundo submetido aos impérios. É o neoliberalismo que hoje nos oprime.

 

O neoliberalismo se caracteriza pela fraude, daí a intensa utilização das máscaras. Ou alguém, em sã consciência, diria que o pagamento de juros aos rentistas é mais importante do que o da comida aos milhões de miseráveis? Que devem ser cortados dos orçamentos públicos os gastos com a saúde e a educação da população de um país para que os poucos financistas acumulem cada vez mais volumosa riqueza?

 

A máscara deste mito neoliberal, trazido pela Era da Banca, acaba por se expor com a pandemia que se espalha pelo mundo. E muitos países que fizeram a redução da presença do Estado com as privatizações, as estão cancelando, estão colocando o Estado assistencial em ações onde sua presença é indispensável e única garantidora do saneamento básico, do transporte de qualidade e da saúde para todos.

 

E mesmo no Brasil, onde a banca controla praticamente toda comunicação de massa, já há quem se desperte para necessidade de o Estado, representante do toda Nação, promover e garantir a vida e a saúde das pessoas.

 

Cai a máscara deste mito, da liberdade que assusta ainda e sempre os poderes não populares e democráticos.

 

Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

 

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