Desde o início, o atual governo anunciou que veio para destruir. Portador de uma ideologia que considera todos os avanços sociais do país ao longo de séculos como a própria causa de sua fraqueza, busca destruí-los com políticas aparentemente errantes e desdém às missões da máquina pública.

 

Defendendo a crença de que toda e qualquer menção aos Direitos Humanos, Direitos Sociais ou até mesmo aos Direitos Fundamentais não passa de “mimimi”, tenta manobrar com parte significativa de uma população que ao longo dos anos se sentiu à parte da república, que cresceu vivendo o sonho americano e torcendo pelos heróis e super-heróis produzidos pela indústria cultural e ideológica do Império.

 

Trata-se de encontrar os culpados pelo fracasso. E não existe nenhum culpado mais fácil de atingir do que a esquerda, sempre atacada pelos meios de comunicação dominados pela direita; e, nesta esquerda, o alvo preferido é o Partido dos Trabalhadores, único partido que rompeu com o bloqueio histórico e conseguiu chegar ao governo federal.

 

O comportamento aparentemente errático do atual presidente da república, visto por muitos como vacilante e sem propósito, é, na verdade, uma tática para enviar sinais trocados à população. Ao mesmo tempo que a sonda com políticas limites, alimentando suas redes de apoio, recua para evitar uma caracterização que o poderia prejudicar pela ação das instituições de controle e contrapeso ao exercício tirânico do poder – os Poderes Legislativo e Judiciário.

 

O objetivo de destruir a educação nunca foi segredo. Colocou os quadros mais adequados para isso na gestão do MEC. O principal obstáculo à sua estratégia é que a Educação Básica é atribuição dos Estados e Municípios e espaço de lutas sindicais dos educadores. Sobre a Educação Superior aplica todas as armas que tem para nomear dirigentes alinhados à sua política de destruição nos Institutos Federais e nas Universidades Federais. Nestas últimas, ataca seus pilares, tentando controlar ideologicamente o Ensino, deixando a Pesquisa à míngua e tirando os recursos da Extensão.

 

Nas Relações Exteriores, ao colocar um chanceler que reproduz teorias conspiratórias da internet de forma pública e orienta a diplomacia ideologicamente, transformou o país em alvo de chacota, desacreditando a nossa política externa baseada até agora na defesa da soberania e da autodeterminação dos povos, na busca de um mundo multipolar fora do contexto de luta entre comunismo e capitalismo, base da campanha do grande irmão do norte e seus acólitos para manter as intervenções nos países sob o pretexto de lutar pela “Liberdade”.

 

Em todas as áreas de ação do Estado brasileiro as estruturas estão sendo sucateadas e destruídas, com ataques diretos e contundentes contra o serviço público e seus servidores, exceto pelo tratamento dado à elite das Forças Armadas. Portador de um projeto de “Redenção Nacional” que presume a superação do “atraso provocado por séculos de poder da esquerda”(?), o atual governo configurou o palácio do Planalto e suas estruturas de comando nos ministérios como uma Junta Militar, que controla o país, acumula informações estratégicas e prepara, a partir de aproximações sucessivas, a tomada definitiva do poder. É para este objetivo que se orientam, no melhor estilo de Goebbels, a comunicação interna e externa do governo federal.

 

 

Na comunicação interna, o fracasso é apresentado como sucesso. Milhões de pessoas acompanham em suas redes sociais um “governo que luta contra o comunismo que está instalado na máquina pública do Brasil”. Um governo que, para cumprir sua radical plataforma eleitoral, anuncia políticas que são repercutidas em sua base e, depois, recua como se fosse vítima dos outros poderes da República. Com isso mantém a sua base fiel e preparada para defender a “intervenção militar”, o “impeachment e fechamento do STF” e o fechamento do Congresso Nacional. Na comunicação externa apresenta um presidente vigoroso, debochado e autoritário, o Mito que enfrenta, destemido, qualquer um que tente apresentar uma narrativa que não seja na linha da apresentada em sua comunicação interna. Não aceita qualquer meio de informação que coloque em risco sua narrativa golpista.

 

 

A gestão da pandemia na área de saúde é usada para enfrentar com princípios eugenistas a ideologia de sobrevivência dos mais fortes. Na visão do governo “é uma gripezinha” que só mata velhos e doentes, não atingindo a população economicamente ativa. Ou seja, todos os discursos, a destituição dos ministros e a fala de que “todos vamos morrer um dia”, aliada à narrativa nas redes de apoio ao governo de que a “pandemia é uma criação da China e dos comunistas para dominar o mundo” e a existência de tratamentos e medicações preventivas, entre outras, visam a justificar as mortes de milhares de pessoas como necessárias, bem como a combater frontalmente qualquer medida que coloque em risco a economia. A gestão caótica da Saúde é proposital e os discursos das autoridades centrais do poder Executivo provam isso.

 

 

Mas, por fim, para que serve um governo do quanto pior, melhor?

 

 

Ora, o caos gerado na saúde pública e na economia pela pandemia está levando à instabilidade social. Milhões de pessoas passando fome e clamando por uma ação do governo, hospitais lotados, cemitérios tendo que abrir novos espaços, preços abusivos de todos os produtos, dólar em alta. O próprio governo espera que essa situação de aprofundamento da miséria, em decorrência do desemprego e das medidas para evitar a expansão do contágio viral, levem o povo a ações de violência: saques de supermercados, roubos e invasões, para, no desespero, tentarem acessar os recursos para sobrevivência. Esse seria o momento em que, insuflada pelo discurso de que a “elite não sofre com a crise”, e, atendendo ao clamor popular, a Intervenção Militar se justificaria. As “aproximações sucessivas” – tática inventada por Alexandre na invasão do território indiano – mostra-se totalmente eficaz quando consegue construir um golpe militar sem que a sociedade perceba e, pior, preparando a própria sociedade para defendê-lo.

 

 

A instabilidade política de um governo do quanto pior, melhor, é a estratégia adotada para se perpetuar no poder e legitimar o uso de instrumentos autoritários que calem a oposição e estabeleçam a narrativa do atual governo como a ideologia do país.

 

 

(*) Ronald Pinto é servidor público federal