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O fim do Bolsa Família

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Em artigo publicado, originalmente, no dia 1º de novembro, em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a jornalista e escritora Cristina Serra, avalia o impacto do fim do Bolsa Família e a substituição desse por um auxílio que ainda não tem nem sequer a fonte de recursos assegurada. “Mais uma evidência da força destrutiva do bolsoguedismo e de sua base de apoio”. Confira

 

 

Nos anos 1970, o economista Edmar Bacha cunhou o termo “Belíndia”, que passou a ser usado como sinônimo do abismo entre dois “brasis”: a Bélgica dos mais ricos e a Índia dos miseráveis. Em 2009, Bacha disse em entrevista que o conceito não era mais adequado. Em resumo, argumentou que a desigualdade ainda era forte, mas que o crescimento econômico, com aumento de renda e programas sociais, havia melhorado muito a parte “Índia” do Brasil.

 

 

Mais de uma década depois, uma pandemia e três anos de um governo que odeia as pessoas pobres, a porção “Índia” está aí, e muito piorada, para qualquer um que tenha os olhos abertos: dorme sob marquises, cata ossos e carcaças, vasculha restos no lixo.

 

 

O bolsoguedismo (síntese precisa que li num artigo do professor Silvio Almeida) é uma máquina de produzir desigualdades e o símbolo mais inequívoco disso é o fim do Bolsa Família e sua substituição por outro auxílio que ainda nem tem fonte de recursos assegurada. Mais uma evidência da força destrutiva do bolsoguedismo e de sua base de apoio.

 

 

Criado no primeiro governo Lula, o Bolsa Família agrupou programas assistenciais já existentes, ampliou a população atendida e vinculou os pagamentos a uma série de condições a serem cumpridas pelas famílias, tais como vacinar as crianças e mantê-las na escola. Um dos aspectos mais importantes foi pagar o benefício, preferencialmente, às mulheres. Milhares de estudos mostram que o programa ajudou a reduzir a extrema pobreza e a tirar o Brasil do mapa da fome, para onde voltamos, desgraçadamente.

 

 

Pesquisa mostra como Bolsa Família contribui para redução da mortalidade infantil em dez anos
Pesquisa mostra como Bolsa Família contribui para redução da mortalidade infantil em dez anos

 

 

O Brasil de Bolsonaro nos faz retornar a um tempo de brutalidade e indiferença. Em 1947, o poeta Manuel Bandeira escreveu o poema “O Bicho”. Diz assim: “Vi ontem um bicho/ Na imundície do pátio/ Catando comida entre os detritos/ Quando achava alguma coisa/ Não examinava nem cheirava/ Engolia com voracidade/ O bicho não era um cão/ Não era um gato/ Não era um rato/ O bicho, meu Deus, era um homem.”

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