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O Enem do retrocesso

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Para muitos que pretendem fazer o Enem este ano ou o fizeram recentemente i Exame Nacional do Ensino Médio é uma instituição tão consolidada quanto o próprio Ministério da Educação. No entanto, ele tem uma história relativamente recente e surgiu em 1998, na gestão de Fernando Henrique Cardoso. Servia pura e simplesmente para avaliar o aprendizado dos estudantes no fim do ensino médio.

 

Já em 1999, o Enem passou a ser utilizado para dar acesso ao ensino universitário aos estudantes que a ele se submetem. Mas, foi no governo Lula, que ele se transformou no que hoje é: o segundo maior exame vestibular do mundo, atrás somente de um congênere chinês.

 

Ele se tornou, também, na peça principal em cujo eixo gravitam nomes que hoje são familiares aos estudantes que pretendem ingressar numa instituição de ensino superior: Sisu, o Sistema de Seleção Unificada; o ProUni (Programa Universidade para Todos); o Fies (Fundo de Financiamento ao Estudante do Ensino Superior); e, até o Programa Ciência sem Fronteiras, em cuja admissão o candidato precisa ter atingido pelo menos 600 pontos no Enem. Hoje, até mesmo universidades portuguesas admitem o Exame como porta de entrada a seus cursos…

 

Ou seja, em pouco mais de 20 anos, um instrumento que surgiu como uma forma de avaliação de desempenho veio a ser a peça principal de uma complexa engrenagem, que iniciou um processo de democratização da Universidade brasileira que, pela primeira vez desde a criação dos cursos jurídicos no País, há dois séculos, permitiu de forma massiva o ingresso da face mais visível e majoritária do povo brasileiro – pobre e negro. E, para isso, foi fundamental a adoção do sistema de cotas étnicas e de escolas públicas.

 

Quando o sinistro (sinistro, não ministro) Weintraub pretende manter o Enem na data de novembro, mostra sua característica principal, a mesma do governo de que faz parte: a insensibilidade e seu caráter antipopular.

 

Quantas centenas de milhares de jovens ficarão prejudicados na disputa por notas no Enem, porque não têm acesso ao ensino à distância, mesmo que suas escolas ofereçam essa modalidade de ensino? Quantos e quantas jovens chegarão a novembro sem terem visto os conteúdos curriculares que serão exigidos no exame? Quantos e quantas sequer saberão se suas escolas vão concluir as aulas de 2020 antes de se iniciarem as aulas de 2021 das universidades brasileiras?

 

Em reunião com senadores líderes de seus partidos no Senado, o sinistro disse que o Enem não foi criado para corrigir injustiças. Originalmente, talvez não. Mas, os governos de centro-esquerda que durante mais de 13 anos dirigiram este País, souberam transformá-lo em um poderoso instrumento de combate à injustiça e à exclusão social, numa peça chave para a ampliação da educação universitária no Brasil.

 

Adie o Enem. É o que exige a consciência nacional.

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