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O carnaval que não fui

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O Carnaval de 2021 foi transferido por conta da necessidade em manter os protocolos devidos de controle à pandemia provocada pelo coronavírus. Por outro lado esse folião fervoroso que eu represento, não possue as devidas condições físicas para cair na esbórnia, enfiar o pé na jaca ‘de com força’ e repetir a mesma rotina num dia seguinte.
Motivo: uma hérnia de disco instalada numa das minhas vértebras lombares pretende tornar-se vitalícia e acabar com a carreira brilhante de um dos maiores brincantes que habita essa Soterópolis.

 

Sou do time que nunca brincou no carnaval, pois faço parte das fileiras da turma que leva o negócio a sério. Aqueles que fazem um planejamento caótico que inclue a escolha de um bar abastecido ao longo do circúito para o encontro com os amigos. Em casa, a montagem de um kit para levar na bolsa pochete composto de cartelas de Epocler, Engov, Dorflex e nos pés um par de tênis usado.

 

Carnaval no Brasil é uma questão de interesse nacional, e saibam vocês, que nem durante a Segunda Guerra Mundial, a festa foi adiada. Medidas restritivas foram tomadas, como a proibição do uso das lanças-perfumes e a participação de estrangeiros, inclua-se aí, os alemães, italianos e os japas que haviam migrados para o Brasil anteriormente.

Enquanto os pracinhas nacionais trocavam tiros com os Hans e Fritz nos campos de guerras, os passistas que aqui ficaram, faziam evoluções ao ritmo do samba e do frevo em plena avenida.
Os gringos não fizeram diferença alguma na fuzarca e o couro da cuíca em 1942 embalou as cabrochas cobertas por serpentinas, talco Cinta Azul, confetes e bastante lança-perfume ( que ninguém é besta!). Até o final do conflito bélico, o Rei Momo continuou com o seu reinado.

 

Mas, esse Carnaval de agora considerado atípico apresenta um cenário por deveras surreal. Em substituição ao desfile das Escolas de Samba do Rio ou aos acordes alucinantes do trio elétrico em Salvador, a audiência total será do BBB 21 e o festival de mau-caratismo exibido por seus brothers participantes.

 

A epopéia do povo negro louvada nos enredos das escolas de samba cariocas ou pelos blocos afros baianos no Carnaval será substituída por afrodescendentes personalistas que participam de um reality-show de uma empresa que detém o poder de editar a história conforme a inclinação da sua audiência.

Tenho a compreensão do poder da influência do Carnaval sobre a psiquê do brasileiro e não vou estranhar caso encontre no domingo próximo, um folião das Muquiranas vestido a caráter, embriagado e choroso pela falta de um Carnaval na sua vida.

Fico a imaginar o prejuízo sofrido por milhares de camelôs impossibilitados de comercializar as máscaras com a imagem do energúmeno que ocupa a cadeira presidencial em Brasília. Puta de um prejú.

 

( o tal indivíduo consegue causar danos à economia de todo e qualquer jeito )

 

Mas, por aqui fico aguardando a oportunidade em ser vacinado e bem distante das cenas do BBB 21.

 

Não vou fazer a festa!

” Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
Carnaval, carnaval
( vai passar )
– Chico Buarque

 

(*) Zuggi Almeida é baiano, escritor e roteirista.

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